Estratégico, Nordeste ganha prioridade na agenda de presidenciáveis

Maurício Savarese
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Para os governistas, é a esperança de consolidação após o voto em massa obtido em 2006 nos nove Estados da região para reeleger o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Já para os oposicionistas é a possibilidade de ao menos reduzir margens de uma eventual derrota na área e, assim, compensar no resto do Brasil. São esses os argumentos, além da necessidade de exposição na mídia, que estão levando ao Nordeste os pré-candidatos ao Palácio do Planalto nas últimas semanas.

  • Joselito Rogério/Folha Imagem

    Foto de 11 de outubro mostra José Serra (E) em almoço na casa de ex-prefeito de Petrolina (PE)

No mês passado, os principais colégios eleitorais da região - Bahia, Pernambuco e Ceará - receberam pelo menos dois dos presidenciáveis. Piauí, Maranhão, Alagoas e Rio Grande do Norte, pelo menos um. Nem todos seguiram em viagens oficiais, com assessores e comitiva, mas procuraram ali acelerar as articulações para armar os palanques de 2010.

Nenhum dos cotados para disputar a Presidência da República no ano que vem - os governadores José Serra e Aécio Neves (PSDB), a ministra Dilma Rousseff (PT), o deputado Ciro Gomes (PSB-CE) e a senadora Marina Silva (PV-AC) - abriu mão nas últimas semanas de visitar a segunda região com mais eleitores no país: 35.531.983 até setembro deste ano, de acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

"No Nordeste existe o voto da lealdade, da fidelidade. Este é um momento em que os candidatos querem a atenção da mídia e querem demonstrar que vão buscar votos em uma região onde o lulismo praticamente não tem contraponto", disse ao UOL Notícias o cientista político Ricardo Caldas, professor da Universidade de Brasília (UnB).

"O Sudeste, que é a região com mais eleitores, não perde importância. Mas a questão claramente está na situação muito lulista do Nordeste. Se a oposição não se mexer, os governistas vão ter liberdade para atacar no campo onde ela vai melhor, no Sul-Sudeste. Não acho que as viagens ao Nordeste vão ajudar a oposição a reverter o quadro pró-Lula do Nordeste, mas podem ao menos minimizar estragos."

O exemplo mais sintomático do clima eleitoral focado no Nordeste veio no mês passado. Serra, que aparece como líder nas pesquisas de intenção de voto para 2010, foi a Pernambuco logo antes do feriado de Nossa Senhora de Aparecida para "aprender a ver como as coisas são".

Dilma e Ciro excursionaram com Lula para buscar apoio dos nordestinos em 2010

Em Petrolina (a 770 km de Recife), visitou projetos federais incompletos, mas negou motivação eleitoral. O governador paulista foi à Festa da Uva e do Vinho, realizada em uma cidade próxima, e cumprimentou populares. Foi criticado por aliados do presidente Lula pela iniciativa.

Mas dias antes Ciro Gomes, ex-ministro do governo petista, tinha passado por uma cidade perto dali, também em ritmo de campanha eleitoral. O governador paulista mal tinha ido embora de Petrolina quando Dilma, Lula e o mesmo Ciro visitaram o lugar com a comitiva presidencial para observar as obras da transposição do rio São Francisco. O grupo foi também a Barra, na Bahia, e às pernambucanas Cabrobó e Arcoverde.

Aécio não foi a Petrolina, mas mandou emissários para se articular na região pernambucana próxima ao Ceará. Preferiu reunir-se com deputados federais e o governador Eduardo Campos (PSB), um dos mais próximos aliados de Lula, para pedir conselhos. Marina Silva tampouco passou Petrolina, mas depois das visitas dos potenciais adversários da senadora o PV articulou reuniões para buscar apoios na região.

Articulação de chapa
Em 2006, Lula obteve sua maior votação no Nordeste no Maranhão. No segundo turno, contra o tucano Geraldo Alckmin, ficou com 84,63% dos votos. A menor delas em um Estado nordestino foi em Sergipe, com 60,16%.

Na Bahia, maior colégio eleitoral da região e quarto com mais eleitores no Brasil, o presidente se reelegeu com 78,08% dos votos. Nesse Estado, 9.234.128 eleitores estavam registrados até setembro para ir às urnas no ano que vem, de acordo com o TSE. No total, mais de 131 milhões de brasileiros estão aptos a votar até o momento.

Se Dilma vai ao Nordeste para manter a base de apoio de Lula, Serra e Aécio buscam atrair descontentes com o governo federal em associação com líderes locais populares que fazem oposição ao Palácio do Planalto, como os senadores Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) e José Agripino Maia (DEM-RN) e o deputado Antônio Carlos Magalhães Neto (DEM-BA). Nos bastidores tucanos dizem que as visitas ao Nordeste também servem para a busca de um candidato à Vice-Presidência.

  • Elpidio Junior/ABF/Folha Imagem

    Foto de 26 de setembro mostra Serra e Aécio (2º e 3º à esquerda) e líder do DEM no Senado, José Agripino Maia (1º à direita), em seminário em Natal

"A chapa Serra-Aécio não vai acontecer e, por isso, é natural que os dois procurem um interlocutor fora do Sudeste. Se o cabeça de chapa é do Sudeste, é natural que o vice seja do Nordeste", disse um parlamentar do PSDB que preferiu não se identificar.

Nas eleições de 2006, Alckmin optou pelo então senador José Jorge, na época vinculado ao DEM de Pernambuco. Em suas duas eleições, o presidente Fernando Henrique Cardoso teve como vice-presidente um senador dos mesmos Estado e partido, Marco Maciel.

Para Ciro Gomes, cuja carreira deslanchou no Ceará, a articulação não está ligada a quem ocuparia o posto de vice na sua chapa presidencial, mas sim se a candidatura dele ao Palácio do Planalto se confirmará. "Ele é quem transita com mais autonomia pela região e é um governista que tiraria votos de Dilma no bastião do lulismo", disse Caldas, da UnB. "A base aliada do governo teme o crescimento do Ciro no Nordeste porque se isso acontecer a candidatura dele pode se tornar inevitável. Essa é uma peça decisiva no xadrez de 2010."

Marina Silva, que há pouco entrou nas cogitações para 2010, vai mais ao Nordeste, dizem seus interlocutores, em busca de conselhos. Reuniu-se em Maceió com a presidente do PSOL, a ex-senadora Heloísa Helena, para tratar de uma aliança entre os partidos para o ano que vem. Também foi a Salvador para ouvir conselhos de seu amigo Jaques Wagner, governador da Bahia, mas promete acelerar os compromissos na região nas próximas semanas.

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