Arruda tenta manter eleitores das cidades-satélites de Brasília para sobreviver na política

Keila Santana
Especial para o UOL Notícias
Em Brasília

Um dos governadores com mais baixa popularidade no Brasil, José Roberto Arruda (sem partido) se apega aos eleitores das cidades-satélites de Brasília para lutar pela sua permanência no cargo de governador do Distrito Federal.

Além de mobilizar os aliados na Câmara Legislativa para tentar arquivar os pedidos de impeachment que tramitam na Casa, Arruda quer mostrar que mantém sua popularidade em alta entre os fiéis eleitores, principalmente o das cidades-satélites, onde obteve na última eleição o maior índice de votação para governador. Em 2006, Arruda foi eleito governador já no primeiro turno.

O Ministério Público acusa Arruda de ter repassado propinas para deputados aliados, em troca de apoio. As imagens de Arruda recebendo dinheiro, divulgadas em dezembro passado, derrubaram a popularidade do governador: segundo pesquisa Datafolha, Arruda caiu da sexta posição na sondagem feita em março para a nona em dezembro no ranking dos governadores mais populares.

Nas ruas, Arruda tenta medir o apoio que tem ao participar de eventos justamente nas cidades-satélites de Brasília. Em Samambaia, cidade a 40 quilômetros do centro de Brasília, o governador Arruda entregou antes do Natal - e depois de pedir desfiliação do Democratas - 600 cheques-moradia. Pelo comportamento dos moradores, viu contrariar as últimas pesquisas de opinião que apontaram perda significativa de aprovação.

Levantamento do Datafolha realizado em 22 de dezembro mostra que José Roberto Arruda teria apenas 11% das intenções de voto -se pudesse se candidatar- quando em março de 2009 era o favorito à reeleição com 41%.

Entenda o esquema de corrupção no DF


O termômetro para manter a estratégia de defesa contra os processos de impeachment é sentido nas ruas das cidades-satélites, principalmente após o pedido de perdão que o governador apresentou em um discurso no último dia 7 de janeiro. "Perdoo, a cada dia, os que me insultam. Entendo as suas indignações pelas forças das imagens. E sabem por que eu perdoei? Porque só assim eu posso também pedir perdão dos meus pecados", disse numa cerimônia de posse dos novos diretores de escolas da rede de ensino público do DF.

No centro de Samambaia, alguns comerciantes e trabalhadores absorveram as palavras do governador como mais uma prova de que ele errou a mão por confiar demais nas pessoas.

"Todos roubam (...) Infelizmente foi uma fatalidade. O Arruda trabalhou, ele mostrou serviço. Esse rapaz (Durval Barbosa) foi pago para fazer isso com o Arruda. Agora, com certeza o [Joaquim] Roriz vai ganhar", disse Sandra Borges, digitadora, moradora de Samambaia Norte.

Em 1990, Joaquim Roriz (hoje no PSC) foi eleito governador do DF. Arruda assumiu a chefia do gabinete civil dele e, em 1991, tornou-se secretário de Obras.

"Acho que tem que esperar para ver o que vai acontecer porque honesto ninguém é. Foi grave o que ele fez, mas todos fazem, infelizmente. Aqui onde eu moro ele perdeu muito apoio, mas os beneficiados pelo governo dele ainda defendem", disse a auxiliar de serviços gerais, Ana Patrícia Silva Souza, que também mora em Samambaia.

Na região, há também eleitores descrentes de punição nos processos que tramitam na Câmara Legislativa.

"Eu votei nele [Arruda], mas não votaria de novo. Fiquei decepcionada, ele como governador não poderia ter dado essa brecha", disse Joana Maciel, lojista de Samambaia.

Arruda ficou conhecido no cenário político nacional pelo episódio da violação do painel eletrônico do Senado. Então senador, foi acusado de quebra de decoro parlamentar ao violar o painel de votação do Senado durante a sessão secreta que cassou Luiz Estevão (PMDB-DF), em junho de 2000. Para evitar a possível cassação, Arruda renunciou ao cargo.

"Eu acho que vai ficar por isso mesmo porque teve muita melhoria na infra-estrutura onde eu moro. Muitas pessoas ainda acreditam nele, mesmo com tudo o que aconteceu" afirmou Tiago Willian, estudante em Samambaia.

O presidente da Associação de Moradores de Samamabaia, Domício Silva do Carmo, disse que percebe que a comunidade considerou graves os vídeos em que o governador aparece recebendo dinheiro, mas que a maioria prefere avaliar as ações do governo para a região.

"Não estou vendo muitas críticas porque nossa região foi beneficiada com muitas coisas boas que o governo dele fez, principalmente quitar as casas populares. Pelo o que conheço [dele], não tem que falar mal do governador. Outro dia ouvi um PM numa padaria dizendo que se Arruda fosse candidato votaria novamente", afirmou Domício.

Obras de Arruda
O governador Arruda também encontra eco nas ruas de Ceilândia, região administrativa com a maior população do DF e que lhe rendeu 53,53% dos votos em 2006.

"Onde eu moro, aqui na expansão do Setor O, ele fez muita obra, eu votaria de novo nele se pudesse. No Roriz eu não voto porque não cumpriu as promessas. Outros, no lugar do Arruda, fariam a mesma coisa, mas pelo menos tivemos muita melhoria", disse Luiza Tomás, manicure em Ceilândia.

O prefeito comunitário do setor P.Sul de Ceilândia, Fernando Rosas Silva, reflete o sentimento dos moradores da cidade, nas áreas que foram alcançadas com obras de infra-estrutura no governo Arruda.

"Aqui, na nossa região, fomos agraciados com muitas obras, de recapeamento do asfalto nas vias principais, campos de futebol de grama sintética, estacionamentos, e temo que tudo isso seja paralisado", disse Fernando.

O prefeito comunitário diz desconfiar da liderança do ex-governador Joaquim Roriz (PSC) nas pesquisas eleitorais na sucessão no DF.

"Olha, aqui, apesar de ele ter caído de 40% para 11% nas pesquisas, posso dizer que perto de 90% dos mais humildes afirmam que ele pode ter errado, mas faz, e isso é o que importa. É o famoso rouba, mas faz. A aprovação do governo dele ainda está muito alta", diz Fernando Rosas Silva.

O episódio da violação do painel eletrônico do Senado ainda está vivo na memória de muitos eleitores, mas apenas nos bairros que ainda não receberam obras do Governo do Distrito Federal o caso é citado como exemplo para a repetição de um escândalo envolvendo Arruda novamente.

"A gente só tem o que lamentar o retrato do nosso Brasil. Aqui em Brasília, dos nossos representantes, a gente só vê corrupção. Votei no Arruda e não voto mais. O cidadão brasiliense deu uma oportunidade para ele no caso do painel porque ele mostrou mudar, mas político é isso, tem duas caras. Agora, é um caso a se pensar sobre o Joaquim Roriz", disse Francisco José, segurança, morador de Ceilândia Norte.

"Está difícil de encontrar ficha limpa, né. O Arruda fez um bom governo, mas mais uma vez se envolveu com quem não presta e infelizmente perdeu muito apoio. O povo está decepcionado, revoltado", afirmou Geraldo Bezerra da Nóbrega, vigilante de Ceilândia Norte.

Do outro lado do Distrito Federal, também o caso da violação do painel é citado por eleitores que se consideraram traídos após o voto de confiança em 2006. Na cidade-satélite de Santa Maria, onde o governador teve o maior percentual de votos na última eleição, 60,35%, segundo dados consolidados do Tribunal Regional Eleitoral do DF, moradores reclamam de promessas não cumpridas.

"Eu acredito que, se tivesse oportunidade, ele ainda seria eleito aqui em Brasília. Eu nunca votei nele, mas o povo gosta de ser masoquista. Arruda não era para ter outra chance desde o painel eletrônico. Aqui onde moro as pessoas são acomodadas. Moramos na lama, no barro e ele prometeu asfaltar, e não fez nada", disse José Marçal, porteiro, morador de Santa Maria.

"Estou chateada e triste. Na minha rua está todo mundo revoltado, mas tem muitas pessoas que esquecem o que passou. Não sei se ele ainda não teria votos se pudesse, né. Eu não voto, mas tem quem vote", disse Maria Lemos da Silva, diarista de Santa Maria.

A Câmara Legislativa pode aumentar a chateação e tristeza da diarista Maria. Dois ex-secretários do governador vão comandar a CPI que investiga os supostos esquemas de corrupção na gestão Arruda.

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