Oito anos depois, Alencar vira grife e consenso no PT; partido apoia vice para o Senado

Rayder Bragon
Especial para o UOL Notícias
Em Belo Horizonte

Dividido entre dois pré-candidatos para a sucessão ao governo de Minas em 2010, o ministro Patrus Ananias e o ex-prefeito Fernando Pimentel, o PT de Minas Gerais encontra unanimidade apenas em um nome. O vice-presidente da República, José Alencar, apesar de pertencer ao PRB, se transformou em um nome "sagrado" entre os petistas, que declararam apoio a ele caso decida concorrer ao Senado. Se concorrer, possivelmente terá como concorrente o governador Aécio Neves (PSDB).

Apesar de ter sido alijado da sucessão municipal, em 2008, quando boa parte do PT ainda passava ao largo do nome dele, o político agora é tido como o "mentor" da sucessão no Estado por ala petista ligada ao ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel. À época, o então prefeito Pimentel uniu-se ao governador Aécio para eleger Marcio Lacerda (PSB) chefe do Executivo da capital.

Como parte dos afagos, o partido, em Minas Gerais, vai homenageá-lo com o título de "Petista Honorário". A honraria deve ser entregue ao vice-presidente em fevereiro.

"A homenagem será feita a ele por vários motivos, pelo brasileiro que ele é, pela sua história de vida e pela lealdade ao presidente Lula e à contribuição política ao PT. Então, nós o estamos chamando a ser um filiado honorário ao PT. Por outro lado, se ele decidir (concorrer) pelo Senado, ele será um dos nossos candidatos", disse o presidente estadual da legenda em Minas Gerais, deputado Reginaldo Lopes, ligado ao ex-prefeito Fernando Pimentel.

Mais incisivo, o vice-prefeito de Belo Horizonte, Roberto Carvalho, que vai comandar o PT municipal a partir de fevereiro, diz ter feito apelo a José Alencar, que explicou o motivo de o vice se tornar figura popular no partido.

"Nós inclusive apelamos a ele para que seja o nosso candidato ao Senado. Ao longo dos anos, os petistas foram quebrando as suas resistências em relação ao José Alencar à medida que foram conhecendo a sua personalidade o seu compromisso com o Brasil", salientou o vice-prefeito, que teve encontro com Alencar nessa semana, em Brasília, ao lado de Fernando Pimentel.

Ele ainda revelou que o presidente Lula, ao tomar conhecimento da homenagem mineira ao vice, queria ampliá-la.

"Quando o Reginaldo Lopes falou conosco e com o presidente Lula, sobre a homenagem ao Alencar, o Lula quis que ele recebesse esse título do PT nacional", disse Carvalho.

Ainda segundo ele, o vice teria declinado do convite do presidente e optado por recebê-la apenas em Minas por ser "militante no Estado".

Por sua vez, o deputado André Quintão (PT), de ala ligada ao ministro Patrus Ananias, corrobora o apoio ao vice-presidente, mas alfineta os "neoalencarzistas".

"Pela contribuição histórica e permanente do José Alencar ao projeto do presidente Lula, ele terá apoio do PT no que ele decidir fazer. Em relação ao Estado, a sucessão aqui passa necessariamente pela opinião dele. Nós não podemos repetir em 2010 o que ocorreu em 2008, na eleição municipal, quando o vice-presidente foi desconsiderado por parte significativa do PT", avaliou. Na ocasião, Patrus Ananias postou-se contrário ao nome de Marcio Lacerda.

No mesmo tom de Quintão, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Luiz Dulci, ligado a Patrus Ananias, ressalta a importância de Alencar no processo que se avizinha no Estado e disse esperar unidade no PT neste ano. "A participação dele é vital (nas articulações eleitorais para o Estado, em 2010). Acho importante não repetir o que houve nas eleições municipais (de 2008). É preciso envolver todas as lideranças da base (aliada do presidente Lula) desde o início. Não importa se essas lideranças apoiem o Patrus Ananias ou o Fernando Pimentel. O que não pode é uma parte só querer impor às outras partes uma decisão autoritária", afirmou.

Vice aproximou Lula de empresariado em 2002
Para o cientista político e professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais Fábio Wanderley Reis, José Alencar possibilitou ao presidente Lula ser mais "palatável" a parte do empresariado. Para o especialista, não há surpresa na manobra petista em homenagear o vice-presidente.

De modo contrário a 2002, quando a indicação do empresário José Alencar encontrou resistência nas hostes petistas para formar chapa com Lula na corrida ao Planalto, o político conquistou "corações e mentes" no PT.

"Apesar da resistência inicial, ele exerceu a vice-presidência em dois períodos e se mostrou uma figura patentemente próxima ao Lula. E que contribuiu para que se viabilizasse a aproximação da candidatura Lula com o meio empresarial e foi importante para romper as barreiras iniciais, de que haveria uma crise catastrófica", afirmou, para completar em seguida: "Eu não vejo como o PT poderia, de alguma forma, deixar de homenageá-lo e reconhecer isso", emendou o cientista político.

Para o especialista, outra faceta de Alencar, que o aproximou ainda mais do eleitorado foi a luta dele contra o câncer, empreendida há mais de uma década.

"O drama pessoal vivido por ele e a luta contra a doença o transformou numa figura de alto apelo popular. Ele é respeitado por todo o mundo. Ele é uma figura amplamente consensual", avaliou o cientista político.

Reis apontou outra habilidade de Alencar. Segundo o especialista, o vice-presidente tem tamanho respaldo que é um dos poucos a ter a singularidade de reclamar do governo, apesar de integrar o Executivo federal. A queixa mais recorrente de Alencar, exercida com freqüência por ele, é a manifestação contrária aos juros praticados no país.

Sucessão em Minas Gerais
Apesar da devoção ao nome de José Alencar, a benevolência petista também mira na participação dele para desembolar a sucessão estadual. Ele foi convidado pela cúpula do PT local para apaziguar os ânimos no Estado e terá a missão de tentar viabilizar o acordo entre PT e PMDB.

O Partido dos Trabalhadores tem as pré-candidaturas do ministro Patrus Ananias e do ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel para o governo de Minas. Já o PMDB conta com o nome do ministro das Comunicações, Hélio Costa. A ideia é trabalhar no sentido de haver apenas um palanque em Minas para a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, pré-candidata do PT para tentar suceder Lula.

No entanto, os petistas afinados com Fernando Pimentel avaliam a participação dele como trunfo para tentar emplacar a cabeça de chapa em uma possível coligação com o PMDB. Porém, a tarefa de Alencar não será tranquila.

"É evidente que nós queremos o apoio do José Alencar para a nossa candidatura em Minas Gerais. A minha reeleição à presidência do PT referendou a tese da candidatura própria do PT. Há um consenso da militância do partido nesse sentido", destacou Reginaldo Lopes.

Por sua vez, o ministro Hélio Costa, pré-candidato mais bem-avaliado até o momento em pesquisas de opinião, parece não estar propenso a ceder a vaga ao PT e disse nessa semana que poderá sair candidato ao governo mesmo sem o apoio petista.

"Ficou acertado que o candidato da coligação será o partido que tiver a maior preferência do eleitoral. Para que o PMDB caminhe com o PT, em nível nacional, é preciso que os problemas de Minas sejam resolvidos. Queremos que esse acordo seja cumprido", afirmou Antônio Andrade, presidente estadual recém-eleito, que foi apoiado por Costa.

"Nós entendemos que, no momento, o melhor candidato é o Hélio Costa", finalizou.

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