Especialistas avaliam volume de inaugurações e alertam para abusos

Arthur Guimarães
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Desde o começo deste ano, os cotados candidatos às eleições presidenciais pelo PSDB, José Serra, governador de São Paulo, e pelo PT, Dilma Rousseff, ministra-chefe da Casa Civil, fizeram juntos 36 inaugurações em 55 dias.

Leôncio Rodrigues, professor titular aposentado de Ciência Política da Universidade Estadual de Campinas e da Universidade de São Paulo (USP), afirma que o volume de eventos descrito na reportagem do UOL Notícias é fruto de uma “espetacularização” da política.

Segundo o especialista, “a capacidade política e administrativa dos candidatos ninguém quer discutir, já que são temas chatos” e o eleitorado não está preparado para entendê-los. “O nível melhora muito quando as pessoas são mais qualificadas e os partidos são mais bem estruturados. Mas são poucos os países do mundo com essas características”, afirma.

O professor, que é autor do livro "Mudanças na Classe Política Brasileira", afirma que a partir da década de 80 as massas entraram efetivamente na política – e todo o jogo teve que mudar de regras. “Aumenta a presença da classe média, há um certo recuo dos empresários. Com isso, aumenta o número de pessoas que se precisa atingir. E entram aí esse alto número de inaugurações, palanques e discursos.”

No caso de Dilma, segundo ele, essa necessidade pelo espetáculo fica mais evidente. “O Lula não quis escolher um político do PT, com experiência. Então ele tem mesmo é que projetar a candidata que ele escolheu, uma boa administradora, mas sem história política. Os políticos são movidos por interesses. Querem ser reeleitos e tudo vale para chamar a atenção”, diz Rodrigues.

"Ninguém vai pedir voto descaradamente"
Silvio Salata, advogado especializado em direito eleitoral com mais de 35 anos de experiência no ramo, alerta para alguns problemas nesse novo paradigma da política. “É legítimo um administrador entregar uma obra que demorou tanto tempo para erguer, mas vários cuidados precisam ser tomados”, alerta.

Segundo ele, a legislação que rege essa área avançou muito nos últimos anos, mas ainda deixa brechas para abusos. “Os discursos, por exemplo, são subliminares. Ninguém vai pedir voto descaradamente, mas usam uma válvula de escape da lei e praticamente fazem uma propaganda antecipada, irregularidade que, se acompanhada de abuso do poder político, pode até arruinar a campanha de um candidato”, diz ele. “Mas é muito difícil acontecer”, assume.

Como argumenta o especialista, outro problema são as agressões ao princípio fundamental da igualdade de direitos, que rege a legislação eleitoral. “Um candidato mais nanico não consegue ter a visibilidade que uma Dilma ou um Serra conseguem ter, mesmo sabendo que atualmente eles ainda não são oficialmente candidatos”, diz o advogado, que já foi presidente da Comissão de Direito Eleitoral da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP).

Salata explica que qualquer suspeita de crime eleitoral pode - e deve - ser comunicado ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), órgão responsável por analisar tais questões no âmbito da corrida presidencial.
 

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