Centenário do nascimento de Tancredo Neves é comemorado amanhã; confira frases do presidente que nunca governou

Maurício Savarese
Do UOL Notícias

Em São Paulo

Atualizada às 9h

Amanhã, dia 4 de março, comemora-se o centenário do nascimento de Tancredo de Almeida Neves, que há 25 anos era eleito o primeiro presidente civil da República após o golpe militar de 1964. A homenagem ao presidente que morreu antes mesmo de governar o Brasil tem início hoje (3), no Congresso Nacional, quando acontece uma sessão solene, às 10 horas. A homenagem será realizada no plenário do Senado. Antes, às 9h30, será realizada cerimônia de descerramento do busto do ex-presidente no Salão Nobre.

Leia a seguir uma série de frases ditas pelo político mineiro que traduzem seu posicionamento conciliador, democrático e, às vezes, conservador. 

Ainda que o movimento de 1964 tivesse transformado a nossa pátria em um paraíso, eu não me arrependo de lhe ter feito oposição. Para meu ideário político, o valor absoluto da vida é a liberdade. O paraíso, se estiver cercado, será sempre o inferno.

1) Entrevista de Tancredo Neves sem data, em que, com tom de ironia, ele fala sobre sua crença na democracia representativa. O político mineiro dialogava com os militares apesar de ser líder do Movimento Democrático Brasileiro (MDB).

Após a renúncia de Jânio Quadros e à ascensão de João Goulart à Presidência, as Forças Armadas viam nele um interlocutor confiável para ser primeiro-ministro em um regime parlamentarista que esvaziasse o poder do grupo instalado no Palácio do Planalto.

O respeito dos militares não mudou com o fim da ditadura, em 1985: internado, Tancredo recebeu a visita do então presidente João Figueiredo, que lamentou à sua mulher, Risoleta, por não lhe passar a faixa presidencial pessoalmente. 

O meu será um governo de centro, com tendências para a esquerda conservadora.

2) Declaração após sua escolha como primeiro-ministro do governo João Goulart, em 1961. No contexto da Guerra Fria, com o país dividido entre os aliados de Jango supostamente simpáticos à União Soviética, e os militares, com vínculos nos Estados Unidos, Tancredo se preocupou em ser uma voz centrista em meio à crise política e o risco iminente de um golpe de Estado.

Para a esquerda eu não vou. Não adianta empurrar

3) Com a anistia política e o fim do bipartidarismo obrigatório, surgiram várias siglas políticas. O MDB, que tinha o monopólio da oposição, começou a rachar, e Tancredo tinha projeto de fundar uma nova sigla, com visão centrista e vínculos com as forças democráticas menos interessadas na revolução do proletariado.

O meu MDB não é o MDB do senhor Miguel Arraes e o MDB do senhor Miguel Arraes não é o meu. Nós dois sabemos disso há muito tempo.

4) Com a possibilidade de criação de novos partidos, Tancredo se viu em uma briga interna com outras lideranças do MDB, como o ex-governador Miguel Arraes, mais à esquerda. Dessas disputas surgiria o Partido Popular (PP - nenhuma relação com o atual Partido Progressista). Mais tarde seu partido seria incorporado ao PMDB para participar das eleições locais de 1982. Acabou vice-presidente da sigla e passou a dividir as atenções com o "Senhor Diretas", Ulysses Guimarães.

O processo ditatorial traz consigo o germe da corrupção. Ele começa desfigurando as instituições e acaba desfigurando o caráter do cidadão

5) Já senador, em 1982, Tancredo sobe o tom contra o regime militar agonizante, na expectativa de enfrentar o amigo e rival interno Ulysses Guimarães para ocupar espaço naquela que batizou de Nova República, com poder dos civis. Tancredo era o articulador dos bastidores e Ulysses, a liderança popular. O fim da ditadura se aproximava e a expectativa era pela sucessão do presidente João Figueiredo, que seria o último militar a ocupar o Palácio do Planalto como governante.

É tapar o nariz com o lenço e ir ao Colégio Eleitoral, se for necessário. Pode ser ruim, mas não ir pode ser péssimo.

6) Em junho de 1984, quando despontava como candidato do PMDB à Presidência, Tancredo deu seus sinais em favor da disputa no Congresso em vez de aceitar apenas a transição com eleições gerais, como pregava o recém-criado PT e seu principal líder, Luiz Inácio Lula da Silva. Apesar de os aliados de Ulysses torcerem o nariz para a ideia, também por conhecerem a habilidade de Tancredo na articulação com os aliados, acabaram aceitando.

Não é nada disso, minha filha. Macho hoje é uma palavra unissex

 

7) Em meio a seu discurso de despedida do Senado para assumir o governo de Minas Gerais, pediu desculpas à deputada Ruth Escobar por ter dito que a campanha eleitoral era "uma luta para machos". Perder apoio àquela altura das negociações não estava nos planos do mineiro.

Nós somos amigos há mais de trinta nos e nos últimos dez sempre disputamos a liderança do partido. Eu comandando os moderados e eles os radicais. Neste momento, só eu tenho a liderança das duas alas. Mas não me arriscaria a deixar o governo de Minas Gerais e enfrentar uma candidatura à Presidência da República se o Ulysses não me apoiasse.

8) Com a fatura liquidada dentro do próprio partido, Tancredo tratou de criar rachas nos rivais. Conseguiu quebrar o PDS, sigla de sustentação da ditadura, para enfraquecer a candidatura à Presidência do ex-governador de São Paulo Paulo Maluf. Trouxe o apoio de José Sarney, que se tornaria seu candidato a vice-presidente, e de outras lideranças locais como o baiano Antonio Carlos Magalhães, o catarinense Jorge Bornhausen e o pernambucano Marco Maciel. Estes fundariam o Partido da Frente Liberal (PFL, renomeado Democratas), reduzindo as chances de Maluf vencer no Colégio Eleitoral marcado para 1984, uma vez que a oposição tinha sido derrotada no Congresso ao tentar promover eleições diretas já na sucessão de Figueiredo. Tancredo sabia que sem o apoio do popular Ulysses, não venceria.

De Norte a Sul do Brasil, estou pregando, em praça pública, a unidade nacional. Prego a concórdia, a construção do futuro, e não me prendo aos pesadelos do passado.

9) Em discurso a colegas em 1984 antes de ser eleito, pregou a conciliação nacional depois da divisão causada pela ditadura, mas sem que houvesse revanchismo daqueles que chegariam ao poder para com aqueles que o deixavam. Movimentos sociais e alguns políticos de esquerda mais radicais cobravam reparação imediata aos crimes cometidos nos porões da ditadura, e Tancredo avaliava que seu governo seria de unidade nacional, e não de revisão histórica. A desconfiança dos miitares em relação a Ulysses não atingia Tancredo.

Para descansar, temos a eternidade.

10) Frase que gostava de dizer, segundo amigos e familiares, entre eles o atual governador de Minas Gerais e ex-secretário do avô, Aécio Neves. Apesar do semblante tranquilo, parentes dizem que Tancredo era muito ativo fora do trabalho e às vezes tinha dificuldade para dormir.

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