FHC e Lula herdaram capacidade de conciliação de Tancredo, diz professor

Maurício Savarese
Do UOL Notícias

Em São Paulo

No marco do centenário do nascimento do presidente Tancredo Neves, que morreu antes de assumir o cargo e era famoso por sua sensibilidade para conciliar interesses distintos, os brasileiros podem dizer que os dois últimos eleitos para o Palácio do Planalto herdaram parte da habilidade que consagrou o homem que "mineiramente" dobrou a ditadura. É essa a avaliação de Fábio Wanderley Reis, há quase 30 anos professor de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Segundo ele, os presidentes Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) e Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010) também conseguiram aliviar tensões internas, como fez o político nascido em São João Del Rey, interior mineiro, ao manter diálogo com membros do Regime Militar (1964-1985) ao mesmo tempo em que promovia a democracia ao lado de forças de centro e de esquerda do país.

“Nós temos tido grandes figuras que são flexíveis para entender a complexidade do Brasil. Esse é o caso de Fernando Henrique, que soube promover uma transição transparente com um ex-aliado que virou adversário. Esse é o caso de Lula, que ao tomar posse foi alvo de uma expectativa negativa e deu continuidade a políticas importantes do antecessor. Apesar da polarização atual entre PT e PSDB, tivemos um aprendizado de equilíbrio e moderação à la Tancredo”, disse Reis ao UOL Notícias.

Para Reis, autor do livro "Do MDB a FHC", o discurso do neto de Tancredo e atual governador de Minas Gerais, Aécio Neves, de que faltam figuras conciliadoras no país “não tem base”. “Nas campanhas é natural certo antagonismo. No governo o que temos visto é muita serenidade”, afirmou. O tucano mineiro se esforça para reforçar a imagem do conciliador capaz de construir uma inédita aliança entre PSDB e PT para governar Belo Horizonte e é visto como um dos governadores mais próximos do presidente Lula.

Tancredo de Almeida Neves foi há 25 anos eleito o primeiro presidente civil da República após o golpe militar de 1964. Às vésperas de sua posse, ele adoeceu e morreu, deixando o cargo para José Sarney, ex-aliado da ditadura que rompeu para fundar o Partido da Frente Liberal (PFL, hoje Democratas) e se aliar aos fundadores da Nova República, muitos deles do PMDB. “Mas o legado dele segue presente, principalmente na forma do discurso menos incendiário”, diz o professor da UFMG.

Espírito refinado
Depois de começar a carreira vinculado ao regime democrático do presidente Getúlio Vargas, no início dos anos 50, Tancredo foi deputado federal, senador, governador de Minas e até primeiro-ministro do Brasil, no curto período em que o presidencialismo foi suspenso para esvaziar o poder do presidente João Goulart. Para Reis, a sobrevivência ao longo dos anos de chumbo se deu pelo fato de que o político “sabia quando falar e quando calar, dando mais confiança aos militares para a transição”.

“Tancredo tinha um espírito político refinado, teve uma atuação que permitia a ele ser crítico do regime porque mantinha contato sem enfrentamento pesado. Esse diálogo viabilizou a transição em circunstâncias cheias de desconfiança, de movimentos ora de flexibilização e ora de enrijecimento na esfera militar, que temiam perder o controle e estimular revanchismo contra si”, afirmou o cientista político.

Fabio Wanderley dos Reis, professor da UFMG

  • Kátia Lombard/O Tempo/Folha Imagem

“O Tancredo foi figura crucial para manter o equilíbrio com o fato da ditadura e o poder dos militares, mas empurrando na direção de paz social e abertura. Era importante de alguma forma pacificar o ânimo dos militares, mostrar que a transição se faria sem maiores riscos”, afirmou.

“Ao mesmo tempo, ele notou que nas Forças Armadas haveria espaço para a abertura porque cada general tinha virado presidenciável e isso desagregava. A figura do Tancredo garantia uma tranquilidade que Ulysses Guimarães, muito popular, não podia garantir”, completou.

Depois de uma série de homenagens no Congresso Nacional na quarta-feira (3), o governador de Minas Gerais promove nesta quinta-feira (4) um encontro em memória do avô em Belo Horizonte.

De acordo com o jornal "Folha de S.Paulo", a decisão de Aécio de convidar potenciais adversários de Serra na eleição presidencial, como o deputado Ciro Gomes (PSB) e a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT), desagradou o governador paulista, que comparecerá ao evento mesmo assim. Ciro confirmou presença, Dilma ainda não.

“Aécio se esforça para remeter ao avô Tancredo e é justo que o faça, foi seu secretário. Só não concordo com a visão de que no Brasil ele é um dos raros conciliadores na política. Com estilos mais parecidos ou um pouco mais distantes, haverá um pouco de Tancredo Neves em outros políticos brasileiros por muito tempo”, completou o professor da UFMG.
 

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