Medo impede moradores da região do Araguaia de procurar corpos de guerrilheiros, diz procurador

Maurício Savarese
Do UOL Notícias

Em São Paulo

  • Rafael Andrade/Folha Imagem

    O lavrador José Rodrigues da Silva (à frente) com José Nazário, em São Geraldo do Araguaia (PA), à frente de quadro com fotos de desaparecidos durante os confrontos com militares

    O lavrador José Rodrigues da Silva (à frente) com José Nazário, em São Geraldo do Araguaia (PA), à frente de quadro com fotos de desaparecidos durante os confrontos com militares

Membros do Ministério Público Federal em Marabá, no Pará, buscam paralelamente ao Ministério da Defesa descobrir o paradeiro de corpos de guerrilheiros que atuaram na região do rio Araguaia na década de 1970. Mas informantes locais evitam apontar pontos de enterros improvisados por medo de represálias, disse nesta quinta-feira (18) o procurador da República Tiago Modesto Rabelo.

Depois de conversar com moradores de Tabocão e de Brejo Grande, a cerca de 90 quilômetros de Marabá, Rabelo afirmou que alguns dos informantes aceitam dizer onde estariam mais corpos de guerrilheiros, mas se recusam a ir ao local. “Tudo que envolve aqueles combatentes e o Exército tem aura de muito mistério, muita repressão na cabeça daquelas pessoas simples”, disse o procurador ao UOL Notícias.

  • Reprodução

    José Genoino, em 1972, preso pelo Exército no Araguaia

  • Reprodução

    Os corpos de João Carlos Haas, o dr. Juca, e de outro guerrilheiro são observados pelo sargento José Antônio de Souza Perez (portador dos negativos das fotos) em 1972. Eles foram encontrados em uma área próxima às margens do rio Araguaia

  • Alan Marques/Folha Imagem - 05.mar.2004

    O ex-guerrilheiro Zezinho do Araguaia segura cartucho de fuzil achado em área de busca aos corpos desaparecidos

“Muitos ali vivenciaram uma situação difícil, foram torturados ou viram membros das suas famílias sofrerem com isso. É difícil chegar a essas pessoas e fazer com que elas falem o que sabem, nos guiem. Elas têm muito medo do Exército, da polícia, de pistoleiros, de gente de gravata, do que for. É um trabalho de formiguinha conversar com eles, até porque aqui não temos a mínima estrutura para fazer o trabalho.”

Liderada por membros do PCdoB, a Guerrilha do Araguaia foi um movimento armado para enfrentar o regime militar (1964-1985). Nesta semana, parentes de um militante que atuou na Guerrilha do Araguaia e uma equipe do Ministério Público Federal, da qual Rabelo fez parte, encontraram aparentes restos humanos em Brejo Grande.

O procurador afirmou que as ossadas estavam a 30 metros do local escavado pela missão do Ministério da Defesa, que não encontrou restos mortais nas buscas de outubro passado e que suspendeu as operações do Grupo de Trabalho Tocantins por alguns meses por conta da temporada de chuvas na região.

O MPF no Pará diz que as informações que recebeu o levaram a encontrar pedaços de crânio, dentes e restos de tecidos em um local indicado, de acordo com avaliações iniciais. O material será examinado pelo Instituto Médico Legal (IML), possivelmente em Brasília.

Pessoas simples
As ossadas foram encontradas depois que familiares do guerrilheiro Antônio Teodoro de Castro conversaram com um dos informantes. “A maioria desses é de guias. Alguns desses, inclusive, ajudaram os guerrilheiros nos anos 70. Há também um tropeiro que estava passando uma vez e viu os corpos serem enterrados. São pessoas muito simples, mas parecem seguras do que dizem”, afirmou Rabelo.

A participação de familiares nas buscas causou tensões internas no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ao proibir a participação deles nos trabalhos, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, afirmou que parentes não fazem parte do processo. O ministro Paulo Vannuchi, da Secretaria Especial de Direitos Humanos), afirmou que a presença dos familiares daria transparência às iniciativas. Um decreto presidencial foi necessário para garantir a participação dos familiares nas buscas.

Há quase 35 anos, os familiares dos mortos e desaparecidos na Guerrilha do Araguaia lutam para ter acesso às informações sobre as ações dos militares durante a ditadura e para descobrir onde estão enterrados os restos mortais dos guerrilheiros.

A primeira iniciativa dos familiares dos guerrilheiros para recuperar os corpos aconteceu em 1980, quando eles se uniram para montar uma caravana em busca de informações a respeito de cemitérios clandestinos.
 

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