Candidatura de Lula na ONU barraria Brasil no Conselho de Segurança, diz analista

Maurício Savarese
Do UOL Notícias

Em São Paulo

  • Mario Tama/Getty Images/AP

    Reunião no Conselho de Segurança das ONU em 2009 vota sanções sobre a Coréia do Norte

    Reunião no Conselho de Segurança das ONU em 2009 vota sanções sobre a Coréia do Norte

Se o desejo de alguns diplomatas e mandatários se realizar e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se candidatar no ano que vem a secretário-geral das Nações Unidas, o Brasil teria de adiar o antigo sonho de obter um assento permanente no Conselho de Segurança da entidade. É essa a avaliação de Raúl Bernal-Meza, professor de Relações Internacionais da Universidade de Buenos Aires (UBA) e especialista em multilateralismo.

Embora o Itamaraty já tenha negado as especulações, diplomatas de vários países sinalizaram apoio a Lula. Em um encontro do G20, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, sugeriu o mandatário brasileiro para o posto ocupado pelo sul-coreano Ban Ki-moon até o fim de 2011. Um representante das Nações Unidas ligado ao governo indiano disse ao UOL Notícias que o país abriria mão de apresentar um nome se o ex-metalúrgico se candidatar.

“Para isso, teriam que se dar três condições. A primeira é que no momento da eleição o Brasil não pode ser membro do Conselho de Segurança, seja como membro permanente ou não permanente. A segunda é que no momento da eleição coubesse à América Latina propor o candidato. E a terceira é que o nome dele seja proposto pelo grupo latino-americano”, afirmou Bernal-Meza. O Brasil é membro rotativo do órgão até o fim de 2011.

“Mas é na terceira condição onde podem surgir as dificuldades, particularmente com Argentina e México. É provável que ambos os países apoiariam a candidatura de Lula, com a condição de que o Brasil postergue, talvez indefinidamente, sua intenção de ocupar um lugar permanente no Conselho de Segurança. A eleição de Lula como candidato latino-americano e a demanda do Brasil de ser membro permanente seriam situações contrapostas entre si”, completou.

Retrospecto
O último latino-americano secretário-geral das Nações Unidas foi o peruano Javier Pérez de Cuellar, entre 1982 e 1991. Seguiram a ele três mandatos de africanos: um do egípcio Boutros Boutros-Ghalli e dois do ganês Kofi Annan, que acabou desagradando membros permanentes do Conselho de Segurança por se colocar contra a invasão do Iraque.

Depois do incidente, os Estados Unidos e a Grã-Bretanha defenderam a eleição de um diplomata mais discreto, como é o sul-coreano Ban. Antes dele, o último asiático a conduzir a entidade foi o birmanês U Thant, entre 1962 e 1971. Exatamente por isso, diz o professor argentino, o maior continente do mundo tinha o direito de indicar o sucessor de Annan. Em 2007, decidiu-se entre o atual ocupante do cargo e o indiano Shashi Tharoor, que acabou vetado por um dos membros do Conselho de Segurança – o que inviabilizou sua candidatura.

Nesta semana, Lula abriu evento de agência da ONU no Rio de Janeiro

Para Bernal-Meza, ao contrário do que acredita a diplomacia indiana, o país “perdeu sua oportunidade”, independentemente do fato de os africanos terem comandado a entidade por três mandatos e Ban, apenas por um. “De acordo com essas convenções não escritas, não deveria ter outra chance (de eleger o secretário-geral da ONU) até que a vez corresponda a seu continente, ou seja, daqui 25 anos ou mais”, afirmou.

O mandato do peruano Cuellar - o único latino-americano secretário-geral da ONU – foi repleto de guerras e em nenhuma delas a entidade conseguiu evitar a predominância do desejo das grandes potências, diz o especialista da Universidade de Buenos Aires.

Parte da diplomacia do continente espera por uma nova oportunidade de voltar ao cargo para desfazer más impressões. Até morrer em um atentado em Bagdá em 2003, o brasileiro Sérgio Vieira de Mello, Alto Comissário da ONU para Direitos Humanos, era visto como o mais indicado para a tarefa.

“Durante o período de Pérez de Cuellar, na América do Sul houve guerra entre Argentina e Grã-Bretanha pelas ilhas Malvinas, houve guerra no Oriente Médio, entre Iraque e Kuwait, na Iugoslávia. O secretário-geral não teve capacidade de impedir e os países subdesenvolvidos saíram em prejuízo”, afirmou.

UOL Notícias quer saber sua opinião também:

“Talvez tenha sido uma coincidência que Pérez de Cuellar fosse secretário, mas certamente, desde a perspectiva dos Estados Unidos, Grã-Bretanha e as potências da OTAN, as situações internacionais se resolveram a favor delas.”

Processo
O secretário-geral é indicado pela Assembleia-Geral depois de recomendação do Conselho de Segurança, formado por cinco membros permanentes: EUA, Grã-Bretanha, França, China e Rússia. As reuniões do grupo para discutir a indicação são secretas e somam também seus nove membros rotativos.

Para dar apoio ou retirá-lo, os países dão votos de “estímulo” ou de desencorajamento” no conselho. O nome só pode ser aprovado se todos os membros permanentes não impedirem e pelo menos quatro outros derem suporte.

Os membros permanentes do Conselho de Segurança evitam indicar candidatos a secretário-geral para não concentrar poder. O Brasil, assim como a Índia, pleiteiam a ampliação do grupo, formado no contexto da Segunda Guerra Mundial. África do Sul, Alemanha, Japão e Austrália também fazem pressão diplomática para entrar no clube.

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