Serra deixa cargo que não almejava por chance decisiva de ser presidente

Maurício Savarese
Do UOL Notícias

Em São Paulo

  • Danilo Verpa/Folha Imagem

    Serra deixa governo; Alberto Goldman assumirá

    Serra deixa governo; Alberto Goldman assumirá

Ser governador de São Paulo esteve nos planos de José Chirico Serra na década de 90, em sua disputa interna com Mario Covas, morto em 2001. Depois disso, o tucano esperava se eleger presidente em 2002. Perdeu. Já prefeito, desejava impedir a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva. Geraldo Alckmin tomou-lhe o lugar e ele teve de se garantir no Palácio dos Bandeirantes para manter os holofotes. Agora, aos 68 anos, tem aquela que muitos vêem como sua derradeira chance de chegar ao Palácio do Planalto.

A trajetória de Serra no governo paulista começou com uma antiga rusga à qual ele deu fim. Em 2006, o tucano era visto como o único oposicionista capaz de vencer Lula. Alckmin, então governador de São Paulo e antigo adversário do ex-ministro do Planejamento e da Saúde do presidente Fernando Henrique Cardoso, disse que só abriria mão da candidatura à Presidência se houvesse prévias no PSDB.

Depois de meses de tensão, reuniões dos dois presidenciáveis com a cúpula do partido e troca de artilharia, o PSDB se definiu em favor de Alckmin. O então prefeito de São Paulo só se candidatou ao governo após muita pressão para que desse ao adversário um palanque forte no maior colégio eleitoral do país. Participou sem emoção da disputa presidencial, elegeu-se no primeiro turno e passou a reforçar laços com Lula.

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Desde então costurou ampla aliança para governar – partidos da base de Lula integram a sustentação de Serra na Assembleia Legislativa – e, pragmático, recebeu Alckmin como secretário do Desenvolvimento. Mais tarde, estimularia o ex-rival a sucedê-lo em detrimento de seu mais importante assessor, o secretário da Casa Civil, Aloysio Nunes Ferreira, que trocou a disputa pelo governo para tentar o Senado.

Desde a derrota interna há quatro anos, seus interlocutores vêem a gestão paulista como um rascunho do que seria Serra no Palácio do Planalto: trabalho de madrugada – o tucano é notívago –, decisões repentinas que mobilizam dezenas de pessoas, predileção por argumentos técnicos e longos períodos de silêncio e pensamento até que uma solução seja anunciada pelo mandatário. Foi também dessa maneira que ele resolveu ser candidato à Presidência da República pela segunda vez.

Turbulências e êxitos
Os primeiros tempos de Serra no Palácio dos Bandeirantes trouxeram dificuldades inesperadas pelo tucano. Primeiro, logo em janeiro de 2007, sete pessoas morreram após o desabamento de obras do metrô em São Paulo. Embora a construção tenha sido decidida pela gestão Alckmin, o novo governador colheu o desgaste. Até hoje a Justiça não apontou culpados pela tragédia.

Pouco depois do acidente, Serra teve que enfrentar a mobilização de estudantes contra um decreto que subordinaria as universidades estaduais - USP, Unesp, Unicamp e Fatecs - Secretaria do Ensino Superior, o que foi visto como tentativa para o Executivo interferir na autonomia das instituições. Pressionado por greves e pela ocupação do prédio da reitoria da USP por 51 dias, o governador teve de recuar.

O início turbulento, com o passar do tempo, foi dando espaço a uma administração de estilo discreto que foi recebendo mais apoio dos paulistas, segundo pesquisas de intenção de voto que o colocam em primeiro lugar para a sucessão de Lula desde outubro de 2007. Essa possibilidade de voltar a concorrer à Presidência influenciou, segundo ele mesmo, em sua postura de oposicionista que evita confrontos com Brasília e que, no fim do mandato, classifica a administração do petista como boa.

Entre suas prioridades administrativas, estão temas condizentes com a preferência dos eleitores: saúde, com a ampliação da rede AME (Ambulatório Médico de Especialidades), educação, com a ampliação do número de escolas técnicas no Estado, e transportes, com a reforma de estações de trem, ampliação do metrô e inauguração do trecho sul do Rodoanel – uma obra de R$ 5 bilhões que sofreu com problemas nas vigas em novembro de 2009, mas avaliada como importante para a economia do país.

A lei antifumo, estendida a vários Estados de todo o país, é vista como outra conquista da gestão Serra. A medida também reforçou a vinculação do tucano ao setor de saúde, assunto do qual tratou no ministério de FHC e que em 2002 o alçou à condição de candidato à Presidência da República pelo governismo da época.

Negociação
Com origem na esquerda católica e próximo de partidos aliados do PT no plano nacional, Serra é visto após a gestão em São Paulo como um político mais flexível a alianças. Tanto que se aproximou de um inimigo histórico, o ex-governador Orestes Quércia, para ajudar a criar uma fissura no PMDB, aliado de sua rival em outubro, a petista Dilma Rousseff.


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Serra conseguiu também aplacar o ânimo do Democratas na busca pela candidatura a vice-presidente, embora seja esse o partido de um de seus principais aliados, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab. O tucano deve reunir apoio político suficiente para conseguir autonomia na indicação de seu companheiro de chapa – que pode ser até o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, que desistiu da candidatura nacional pelo PSDB em favor do paulista.

Essa mesma desenvoltura não se repetiu em negociações com grevistas de várias esferas públicas: metroviários, bancários e policiais civis, que protagonizaram em outubro de 2008 um inédito confronto com os militares às portas do palácio de governo onde Serra trabalha e vive.

Agora o embate tem sido com professores, a quem o governador acusa de fazer “trololó” eleitoral, já que a presidente da entidade que representa a categoria é filiada ao PT. Os grevistas, que pediam reuniões com Serra para discutir reajuste salarial e melhores condições de trabalho, terão de se resolver com o vice, Alberto Goldman.

Veja abaixo quem deixa o cargo e quem entra:

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