Para Jobim, popularidade de Lula não garante voto em Dilma

Fernando Rodrigues

Em Brasília

O ministro da Defesa, Nelson Jobim, disse que a alta popularidade do governo Lula não garante o sucesso de Dilma Rousseff (PT) na disputa pela Presidência da República.

Em entrevista ao colunista da “Folha de S.Paulo” e do UOL Fernando Rodrigues, o ministro, que é filiado ao PMDB e tem relações próximas de amizade com o pré-candidato do PSDB ao Planalto, José Serra, afirmou: “No meu ponto de vista, nós tivemos enormes realizações do governo Lula. Mas o eleitor não vota no passado. O eleitor vota para o futuro e esquece muito rapidamente as conquistas do passado”. (…) “eu conheço muito bem essa história, assisti muitas vezes a isso, de que um candidato se apresentava, principalmente nas eleições, mostrando o que fez, mas não dizia nada do que queria fazer”, disse o ministro.

As palavras se enquadram perfeitamente ao tom do discurso de José Serra, quando da cerimônia de transferência do cargo de governador de São Paulo no ultimo 31.mar.2010. Na ocasião, Serra procurou se apresentar como alguém capaz de aperfeiçoar as conquistas do governo atual. "O Brasil pode mais", disse o pré-candidato do PSDB à Presidência.

Indagado sobre se a ex-ministra Dilma Rousseff seria a candidata que mais bem representa a continuidade do governo atual, Jobim foi comedido: “Eu creio que sim. A decisão é do presidente. O presidente decidiu dessa forma”. (...) “Acho que a escolha está correta. E vamos ver o que vai acontecer, né?”.

Advogado e professor universitário, Nelson Jobim foi deputado federal pelo Rio Grande do Sul de 1987 a 1995. Em 1995, assumiu como ministro da Justiça no governo de Fernando Henrique Cardoso. Em 1997, foi nomeado ministro do Supremo Tribunal Federal e serviu como presidente do Tribunal Superior Eleitoral em 2002 e 2003. De 2004 a 2006, foi o presidente do Supremo Tribunal Federal. Depois de se aposentar do STF, foi convidado pelo presidente Lula e assumiu o cargo de ministro da Defesa em 2007.

Caças: decisão até junho
Na entrevista, o ministro da Defesa falou também sobre a decisão no processo de aquisição dos caças para a Força Aérea Brasileira (FAB). Após a polêmica que envolveu o relatório técnico elaborado pela FAB, que colocava como primeiro da lista de prioridade os caças suecos e não os franceses, como desejava o governo, Jobim deve entregar no final deste mês de abril, ao presidente Lula um novo relatório sobre o tema.
De acordo com o ministro, após concluído o relatório, o Conselho Nacional de Defesa deve se pronunciar sobre o assunto antes do presidente tomar a decisão final. De acordo com Jobim a decisão sairá até junho. O ministro sinalizou ainda que a escolha será mesmo pelos caças franceses Rafale.

“Minha predileção é pela França, pelo modelo que a França apresenta de transferência total de tecnologia. Não estamos negociando a compra de um avião, estamos negociando a compra de um pacote tecnológico” disse o ministro.

Sobre a polêmica que envolveu o Plano Nacional de Direitos Humanos, Jobim disse que o assunto “já está resolvido”.

“Na época eu havia dito que concordava com a comissão da verdade desde que fosse bilateral, que apurasse a verdade histórica no sentido amplo. O programa no entanto, foi publicado de forma unilateral, apresentando esforço de investigação apenas para um dos lados. Aí eu disse aos militares que era demissionário para cumprir a posição que eu tinha assumido. Depois eu propus um novo decreto para o presidente criando um grupo de trabalho, estabelecendo que tinha que ser bilateral, investigar os dois lados. Com isso a questão foi resolvida”, explicou o ministro.

Acesso a documentos: militares aceitam fim do sigilo eterno
Tramita na Câmara dos Deputados um projeto que regulamenta o acesso a informações publicas no país. De acordo com o texto, nenhum documento do governo poderia ficar oculto por mais de 25 anos –sendo esse prazo renovável uma única vez. O Itamaraty e setores militares manifestaram contrariedade ao projeto. Alegam que a abertura de documentos sigilosos poderia trazer a rediscussão de tratados antigos, como os que definiram as fronteiras do país.

Esses setores diplomáticos e militares desejam que a lei tenha um dispositivo que permita renovação sucessivas e indefinidas do prazo máximo de 25 anos para reserva de determinados documentos. Seria uma espécie de “sigilo eterno” –que, na prática, vigora no momento.
Mas o ministério da Defesa, segundo Nelson Jobim, não é a favor do sigilo eterno para certos documentos públicos. Na entrevista, o ministro disse que nada que envolva as estratégias militares precisa ficar em sigilo por mais de 25 anos. “Da nossa parte não haverá resistência ao projeto”, declarou.

Essa afirmação é relevante porque oficialmente tira de cena o setor militar no debate contra a lei de acesso a informações públicas. A única resistência fica agora concentrada no Ministério das Relações Exteriores.

Nelson Jobim assumiu o Ministério da Defesa em 2007, indicado pelo presidente Lula, após o apagão aéreo. Indagado sobre a possibilidade de uma nova crise aérea por causa do grande crescimento do tráfego e de grandes eventos esportivos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas, o ministro respondeu negativamente: “Não. Já está tudo planejado”.

“O crescimento do tráfego aéreo é de 10% ao ano. Lógico que é um crescimento grande, mas já temos projetos para isso. Tudo estará dentro da previsibilidade. E além do mais a Copa e as Olimpíadas vão representar muito pouco se comparado com o grande crescimento que já estamos enfrentando. Esses eventos vão representar apenas 2% dos 10% de crescimento anual que já temos”, disso o ministro.

No dia 9.mar.2010 foi aprovado na Câmara dos Deputados, projeto de lei que centraliza nas mãos do ministro da Defesa a escolha dos comandantes das três forças e a promoção dos oficiais generais. O projeto também centraliza no Ministério da Defesa as compras das Forças armadas. O texto segue agora para apreciação no Senado.

Ao comentar o projeto, o ministro falou sobre o fortalecimento do caráter civil do ministério. “O ministério da defesa chegou frágil quando foi criado em 1999. Mas agora é momento de dar musculatura ao ministério. Me perguntam se isso significa redução da autonomia militar e mais força para ministério? Eu digo que é exatamente isso. Quem tem que estar na linha de comando é o ministro da Defesa”, defendeu Jobim. 

 

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