Ex-ministro diz que governo demorou em demitir presidente dos Correios e vê motivação política na decisão

Guilherme Balza

Do UOL Notícias* <BR> Em São Paulo

O ex-ministro das Comunicações no governo Fernando Henrique Cardoso, João Pimenta da Veiga (PSDB), afirmou nesta quinta-feira (29), em entrevista ao UOL Notícias, que as demissões do presidente dos Correios, Carlos Henrique Custódio, e do diretor de recursos humanos, Pedro Magalhães, foram "tardias". A decisão foi tomada pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e anunciada ontem à noite.

Custódio estava no posto desde julho de 2006. A orientação para a sua demissão teria partido da ministra da Casa Civil, Erenice Guerra, e do ministro do Planejamento, Paulo Bernardo.

“Os Correios são uma das maiores, melhores e mais antigas empresas do país. Tem ser tratada com todo respeito e cuidado. Agora, a empresa estava sendo alvo de críticas nos últimos anos. Se essa direção não era competente, deveria ter sido substituída anos atrás, e não depois de tanto tempo”, disse Pimenta da Veiga.

O escolhido para assumir a presidência da estatal foi David José de Mattos, um técnico fixado em Brasília, que trabalhou com Erenice Guerra na Eletronorte, segundo informou a Folha.com.

A indicação teve o aval do presidente do PMDB no DF, deputado federal Tadeu Filippelli, amigo de Mattos. O novo presidente também é peemedebista, e ocupou cargos administrativos no DF durante os governos de José Roberto Arruda, Joaquim Roriz e Cristóvão Buarque (PDT).

Em entrevista coletiva na noite desta quarta-feira (28), o ministro das Comunicações, José Artur Filardi, afirmou que a demissão de Custódio e a escolha de Mattos não tiveram motivação política e têm como objetivo “oxigenar” a empresa. "Ele [Correios] não vai tão mal, mas precisa melhorar. Não foi uma decisão política, foi administrativa", disse.

O tucano Pimenta da Veiga, que chefiou o Ministério das Comunicações entre 1998 e 2002, discorda e vê motivação política na substituição. “Se o novo presidente é uma pessoa de militância, é evidente que foi uma indicação política, o que é mau, já que as indicações para cargos desse tipo deveriam ser técnicas”, afirmou.

Robson Luiz Pereira Neves, funcionário dos Correios na Paraíba e diretor nacional da Fentect (federação de sindicatos da estatal), também acredita que a indicação de Mattos foi política. “Em empresas públicas, existem cargos de confiança, que são cargos políticos. Nos Correios não é diferente. E, hoje, quem detém o poder de indicação é o PT e o PMDB, que estão no poder. Por isso escolheram um filiado ao PMDB. É uma indicação política”, disse.

Crise nos Correios
O novo presidente dos Correios assumirá o cargo com o objetivo de melhorar a qualidade de serviço da estatal e modernizá-la. Em médio prazo, a expectativa do Palácio do Planalto é de recuperar, em especial, a área de logística dos Correios, permitindo contratação direta e imediata de outras empresas. Também podem ser criadas subsidiárias para atender os prazos do serviço Sedex, um dos mais rentáveis para a empresa.

Nos últimos anos a estatal também viveu várias greves. A última delas terminou em outubro do ano passado. As exigências iniciais dos trabalhadores incluíam reajuste salarial de 41,03%, aumento linear de R$ 300 para todos os funcionários, além de redução da jornada de trabalho e contratação de mais servidores por concurso.

Os Correios apresentaram sua contraproposta, que valeria para os próximos dois anos, oferecendo aumento salarial de 9%, reajuste linear de R$ 100, aumento no valor do vale-refeição de R$ 20 para R$ 21,50 por dia. Dos 35 sindicatos que compõem a Federação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de Correios e Telégrafos (Fentect), 18 resolveram voltar ao trabalho e aceitar a proposta da estatal. Trabalhadores dos outros sindicatos retornaram às suas atividades sem aceitar a proposta.

Para o diretor da Fentect, o principal problema hoje na estatal é a falta de pessoal. “O que se tem nos últimos dez meses é uma crise na área operacional dos Correios. Isso vem sendo sentido em todo o país, com os atrasos na distribuição de correspondências. A contratação de trabalhadores amenizaria essa crise. Só no ano passado, 8.000 funcionários saíram da empresa pelo plano de demissão voluntária e as vagas não foram preenchidas”, afirma Neves.

No ano passado, os Correios tiveram seu menor lucro desde que Lula chegou ao governo, em 2003. Foram R$ 177 milhões, quase seis vezes abaixo do previsto para uma empresa estatal praticamente monopolista, com faturamento anual de R$ 11 bilhões.

O sindicalista aponta que a contratação de funcionários aumentaria a produtividade da estatal e incentivaria empresas a firmar contratos com os Correios. “É preciso contratar cerca de 10 mil trabalhadores”, diz. Um concurso para contratar mais de 6.000 profissionais está programado para ocorrer em setembro.

*Com informações de Maurício Savarese, em São Paulo, e de Camila Campanerut, em Brasília

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