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Dilma promete erradicar pobreza extrema e diz: "Lula estará conosco"

Carlos Bencke e Maurício Savarese

Do UOL Notícias<br>Em Brasília

01/01/2011 18h56

Nos seus dois primeiros pronunciamentos após tomar posse, a presidente Dilma Rousseff prometeu erradicar a pobreza extrema, disse que estenderá a mão a adversários e reverenciou várias vezes o mentor e antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva.

O roteiro de Dilma neste sábado (1º), antes de se tornar a primeira mulher presidente do Brasil, começou com um desfile pela Esplanada dos Ministérios, em carro fechado por conta das chuvas na capital federal. Ela assumiu o cargo oficialmente em uma sessão do Congresso. Mais tarde, recebeu a faixa presidencial de Lula, desceu com ele a rampa do prédio da Presidência da República e recebeu líderes estrangeiros.

Depois de dar posse a seus ministros, Dilma segue para o Palácio do Itamaraty, onde receberá convidados em um coquetel. Lula não estará presente: já se dirige para São Paulo, onde visitará o ex-vice-presidente José Alencar, internado no hospital Sírio-Libanês. Em seguida, ele vai a São Bernardo do Campo, seu berço político, que prepara uma recepção para o seu morador mais ilustre.


Em seu discurso no Congresso (assista ao lado), Dilma afirmou que "a luta mais obstinada" do seu governo será "pela erradicação da pobreza extrema e a criação de oportunidades para todos". "Uma expressiva mobilidade social ocorreu nos dois mandatos do presidente Lula, mas ainda existe pobreza no Brasil", disse a presidente, no discurso de cerca de 40 minutos. "Não vou descansar enquanto houver brasileiros sem alimentos na mesa."

No parlatório do Palácio do Planalto, ela repetiu a menção ao combate à pobreza e acenou para a oposição. "Minhas mãos vão estar abertas e estendidas para todos. Até àqueles que não nos acompanharam no processo eleitoral", afirmou ela, já com a faixa presidencial. "Buscarei o apoio e respeitarei a crítica", completou ela em outro momento do segundo discurso após ser empossada.

Choro

Antes do discurso, Dilma leu e assinou, juntamente com o vice-presidente Michel Temer, o compromisso constitucional de posse, quando se tornou oficialmente a primeira presidente do Brasil. Depois disso, chorou em dois momentos: ao dizer que é agora "a presidenta de todos os brasileiros" e ao recordar os companheiros da sua geração que, na luta armada contra a ditadura militar, "tombaram pelo caminho".

Reconhecer, acreditar e investir na força do povo foi a maior lição que o presidente Lula deixou para todos nós

Venho para abrir portas para que muitas outras mulheres também possam, no futuro, serem presidentas

Muitos companheiros da minha geração que tombaram pelo caminho não podem compartilhar deste momento

Não vou descansar enquanto houver brasileiros sem alimentos na mesa, famílias no desalento das ruas, enquanto houver crianças pobres abandonadas à própria sorte

Dilma Rousseff, em discurso de posse


 

Mulheres que dividiram cela com Dilma nos anos 70 estavam presentes no Palácio do Planalto e se emocionaram com a subida da colega. A mãe e a tia da presidente estavam na primeira fileira de convidados, bem diante da rampa que dá acesso ao escritório do governo.

Presa por três anos na década de 70 e torturada durante o regime militar, Dilma disse que chega à presidência sem ressentimento nem rancor. A presidente insistiu em lembrar a simbologia de uma mulher chegar ao mais alto cargo do país. "É a primeira vez que uma faixa presidencial cingirá o ombro de uma mulher", afirmou logo no início de seu primeiro discurso como mandatária.

"Venho para abrir portas para que muitas outras mulheres também possam, no futuro, serem presidentas; e para que -no dia de hoje- todas as brasileiras sintam o orgulho e a alegria de ser mulher", disse. No discurso do parlatório, Dilma embargou a voz ao se referir à "grandiosidade" do ex-presidente que fez dela sua candidata à sucessão apesar de seu perfil de técnica que nunca tinha disputado uma eleição sequer.



Lula

O nome do antecessor foi o mais mencionado pela presidente em seus dois discursos. "Venho para consolidar a obra transformadora do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com quem tive a mais vigorosa experiência política da minha vida", disse ela no Congresso. "Ele levou o povo brasileiro a confiar ainda mais em si mesmo e no futuro de seu país". No parlatório, ela o chamou de "maior líder popular" do Brasil.


Após subir a rampa do Palácio do Planalto e abraçar o homem que a projetou, Dilma afirmou que, mesmo não ocupando cargos políticos, o ex-presidente continuará contribuindo com o governo. "Lula estará conosco. Sei que a distância de um cargo nada significa para um homem de tamanha grandeza", afirmou, após receber a faixa. "A tarefa de suceder Lula é desafiadora. Saberei honrá-la e irei avançar."

"Estou feliz como raras vezes estive na vida, com a oportunidade que a história me deu de ser a primeira mulher na história a governar o Brasil. Mas estou mais feliz pela honra de seu apoio, de ter o privilégio de sua convivência e ter apreendido com sua imensa sabedoria", disse Dilma, referindo-se a Lula.

O segundo discurso da presidente durou menos de 13 minutos e teve um tom mais informal do que o primeiro pronunciamento. O tom utilizado lembrou o do texto lido por ela após sua vitória nas eleições de outubro. O vice de Lula, José Alencar, internado em São Paulo, foi lembrado como "incansável lutador" e "companheiro".

Dilma, que teve dificuldades com setores religiosos durante a campanha, citou Deus em seus discursos: "Que Deus abençoe o Brasil e o povo brasileiro. Que todos nós juntos possamos construir um mundo de paz. Eu darei todo meu empenho para fazer com que as transformações dos últimos oito anos continuem, prossigam e se expandam", afirmou.

Coro, só para Lula

Momentos antes de passar a faixa presidencial a Dilma, Lula chegou ao saguão do Palácio do Planalto risonho. Cumprimentou ministros com tom debochado: "Juízo, meninos", repetiu. A mulher dele, Marisa Letícia, chorou ao abraçar amigas. Por pelo menos um minuto, os convidados entoaram o nome do agora ex-presidente. A nova ocupante do cargo não teve o nome gritado dentro do palácio nenhuma vez.

Entre os convidados, estavam os ex-ministros-chefes da Casa Civil, Erenice Guerra e José Dirceu – ambos excluídos do governo anterior em escândalos de corrupção. Erenice é suspeita de tráfico de influência e nepotismo, enquanto Dirceu deixou o cargo ao ser indicado como articulador do mensalão. Os dois bateram palmas para Lula, que não chegou a cumprimentá-los ao sair do Palácio do Planalto.

Dilma e Lula se despediram no meio da pista que separa a rampa da Praça dos Três Poderes, onde milhares de pessoas assistiam à cerimônia. O ex-presidente passou cerca de cinco minutos cumprimentando populares, antes de se dirigir à Base Aérea de Brasília para retornar a São Paulo. Dilma subiu a rampa novamente ao lado de Temer. Já não havia coro por Lula nem quem a recebesse na entrada do Palácio.

 

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