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"Bancada da bala" descarta culpa da indústria de armas na tragédia no Rio

Maurício Savarese e Fábio Brandt

Do UOL Notícias <br> Em Brasília

08/04/2011 07h00

Deputados aliados da indústria de armas rejeitaram nesta quinta-feira (7) as críticas de ativistas de direitos humanos que após a tragédia no Rio de Janeiro incentivaram uma nova discussão sobre desarmamento no país. Para Ônyx Lorenzoni (DEM-RS), Sandro Mabel (PR-GO) e Abelardo Lupion (DEM-PR), o caso do atirador que matou 12 crianças em uma escola carioca e mais tarde se suicidou não tem relação com a defesa do porte por pessoas comuns, que devem obter licença para usar revólveres.
 
"Qual a relação entre o direito das pessoas de adquirirem uma arma dentro da legislação e isso que aconteceu? Duvido que o assassino tenha comprado legalmente [a arma que usou no crime]”, disse Lorenzoni, um dos líderes da frente antidesarmamento no referendo de 2005, ao UOL Notícias. Segundo ele, que na última campanha recebeu R$ 250 mil como doações diretas da indústria de armas, tragédias e criminalidade são abastecidos por armas contrabandeadas, não pelas produzidas por indústrias nacionais.

 
“É muito oportunismo querer entrar nesse debate agora", disse o deputado. Além de ativistas de direitos humanos, o presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS) e o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, afirmaram que o debate sobre desarmamento deveria ser retomado depois do massacre de crianças na escola muncipal Tasso da Silveira, em Realengo, na zona oeste do Rio de Janeiro. A presidente Dilma Rousseff, que defendeu o desarmamento no referendo de 2005, irá ao velório de estudantes na sexta-feira (8).
 
Lupion, vice-presidente da frente que venceu o referendo cerca de cinco anos atrás, também vê populismo nas críticas à indústria das armas depois da tragédia. Assim como Lorenzoni, ele diz defender o desarmamento, mas apenas quando a segurança pública for boa o bastante para não deixar a população à mercê de criminosos. "Os bandidos não compram armas legalmente. E por que um produtor rural, que vive a 100 quilômetros de onde há uma delegacia de polícia, tem de ficar submetido ao risco?", questionou.

Desarmamento

Assim como Lorenzoni e Lupion, Mabel diz ser a favor do desarmamento em si. Ele afirma que já tinha apresentado um projeto de Lei na Câmara para instalar detectores de metais nas portas de escolas (é o projeto número 496 de 2011).
 
"Uma campanha de desarmamento tem que ser acompanhada por uma campanha de recadastramento. Tem que registrar a arma para ter um mapa e saber onde elas ficam", disse ele, que nas últimas eleições recebeu R$ 160 da indústria de armas. "O que eu defendo é o turismo. Eu caço todos os anos no Uruguai. O Brasil deveria investir mais nisso. Cria turismo, diversifica a fauna e cria receita", disse.
 
A diversificação da fauna, de acordo com ele, viria com a criação de espaços específicos para a prática da caça, uma vez que os animais da região teriam a reprodução incentivada. Sobre a relação entre a indústria de armas e a tragédia no Rio, ele resumiu: "não tem nada a ver uma coisa com a outra".
 
Para Lorenzoni, o desarmamento deve ser voluntário. “Luto para que isso não caminhe para a pessoa ser proibida de ter direito de ter uma arma para defender sua família e propriedade”, disse. Para ele, o desarmamento serve para recolher armas de pessoas que não arcam com os custos de legalizar a arma nem fazem os testes psicológicos e de habilidade necessários para ter o porte. Ele e Lupion acham que a repressão ao contrabando de armas ilegais deve ser intensificada para resolver os problemas com armamentos.

“Menos de 3% da população tinha arma registrada antes do referendo [de 2005] e, agora, menos de 3% têm. E foram 64% que votaram pelo direito de ter uma arma”, diz Lorenzoni. “A sociedade quer manter o direito à legitima defesa, cumprindo uma legislação [de registrar arma] que é uma das mais rigorosas do mundo. As chacinas e o tráfico não têm nada a ver com arma legal.”

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