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Analistas políticos comentam massacre de Eldorado dos Carajás e divergem sobre MST

O massacre de Eldorado dos Carajás relembrado em 50 fotos; clique e veja - Montagem/Folhapress
O massacre de Eldorado dos Carajás relembrado em 50 fotos; clique e veja Imagem: Montagem/Folhapress

Guilherme Balza

Do UOL Notícias <BR> Em São Paulo

17/04/2011 07h02

O massacre de Eldorado dos Carajás, quando 19 sem-terra foram mortos numa ação violenta da Polícia Militar do Pará, completa 15 anos neste domingo (17). O episódio causou comoção nacional, impulsionado por um vídeo gravado pela equipe da TV Liberal que mostrou os policias disparando e atingindo os sem-terra.

Após 15 anos, dois únicos condenados pelo massacre de Eldorado dos Carajás continuam em liberdade

Carajás reinseriu na opinião pública e na agenda dos governos o debate em torno da questão agrária e da violência no campo, adormecido desde o golpe que derrubou João Goulart, em 1964. Após o massacre, por exemplo, o Ministério da Reforma Agrária, extinto no governo de José Sarney, foi reativado por Fernando Henrique Cardoso com o nome de Ministério do Desenvolvimento Agrário.

O MST, que já crescia desde a fundação, em 1984, ganhou definitivamente projeção nacional e internacional. O movimento conquistou novos militantes, admiradores, parceiros e, em pouco tempo, se consolidou como a maior expressão da esquerda suprapartidária no Brasil, a ponto de uma sem-terra protagonizar a novela das oito da Rede Globo “Rei do Gado” alguns meses após o massacre.

Em contrapartida, o MST passou a despertar cada vez mais a ira de ruralistas e a receber críticas de parte da opinião pública. Desde então, os grandes proprietários de terra e as transnacionais passaram a tratar o movimento como o inimigo no 1º. Atualmente, até na esquerda há divergências na caracterização da organização.

Alguns setores dizem que o MST foi cooptado pelo governo Lula e não tem mais a mesma combatividade de outrora, inclusive porque teria perdido grande parte de sua base social. Outros setores ainda o caracterizam como o movimento social mais importante do país, quiçá do continente, ocupando papel central em qualquer luta política.

O UOL Notícias entrevistou quatro analistas que comentaram os 15 anos do massacre de Eldorado dos Carajás e opinaram sobre o MST. Veja abaixo o que eles falaram:

O que representou o massacre de Eldorado dos Carajás na história do Brasil?


Plínio de Arruda
O massacre não foi uma novidade, não foi o primeiro, nem o último. Ele representa o padrão normal com que a burguesia trata a questão da terra. Como o padrão é da violência, repressão, acidentes acontecem. Esse padrão de tratamento é o que está errado. Ele provoca, cria, gera as situações de conflito e de massacre de camponeses.

Bernardo Mançano
Foi uma demonstração de que os governos conservadores não sabem lidar com as manifestações populares e promovem massacres como aconteceu com Canudos e Contestado. Também carrega o significado de que o campesinato não tem espaço político no desenvolvimento brasileiro.

Raul Jungmann
Uma mancha indelével, um ato de violência e desrespeito aos direitos humanos, de despreparo de forças policiais e também de impunidade. Algo que o Brasil precisa corrigir.

Ivaldo Gehlen
Há dois lados: a ação do Estado brasileiro, que realizou um massacre e isso representou uma fragilidade do Estado, mas ajudou a se criar nas instituições públicas uma consciência desse erro. Por outro lado, a sociedade civil e a população em geral perceberam, com o ato, que há uma certa desproteção do Estado em relação ao cidadão. Posteriormente, os encaminhamentos dados ao episódio não corresponderam à expectativa da sociedade. Imagine se os mortos tivessem sido dois grandes proprietários de terra, em vez de 19 sem-terra? A história seria diferente.

Qual impacto causou nas questões agrárias e no movimento camponês?


Plínio de Arruda
Aconteceu em uma hora crucial, em que a igreja se sensibilizou muito. Também houve uma reação forte da sociedade civil, e isso causou uma repercussão muito positiva para o movimento camponês.

Bernardo Mançano
Ele gerou algumas mudanças na política agrária, com a criação do Ministério do Desenvolvimento Agrário e o Dia Internacional da Luta Camponesa. Lembrar esta tragédia é fundamental na nossa memória para que nunca mais aconteça.

Raul Jungmann
Relançou o tema da reforma agrária na agenda brasileira. Originou a criação de um ministério, que surgiu como um ministério extraordinário, e explodiu o MST em nível nacional. O ponto máximo foi a novela “Rei do Gado”, que dramatizou a vida dos sem-terra.

Ivaldo Gehlen
Serviu para mobilizar organizações que lutam por justiça social e pela redução das desigualdades. Depois do episódio, o MST se tornou um pouco mais agressivo. Parece que foi preciso mostrar força para não sofrer repressão. Todo ato de violência, sobretudo quando é institucional, gera uma reação violenta também.

A reforma agrária avançou desde o massacre?


Plínio de Arruda
Avançou, mas logo em seguida empacou. Na verdade, no ponto de vista objetivo, não adiantou nada.

Bernardo Mançano
Em parte sim e em parte não. Temos hoje um milhão de famílias assentadas, mas o índice de Gini (medição do grau de desigualdade a partir da renda per capita) não diminuiu. O governo regularizou muito mais do que desapropriou.

Raul Jungmann
Sem sombra de dúvida. Criou-se o ministério, bateu-se o recorde de famílias assentadas, criou-se uma legislação nova. Houve vários avanços. O governo Lula, embora não tenha mantido o ímpeto, não acabou com o processo [de reforma agrária].

Ivaldo Gehlen
A reforma agrária não sofreu impacto. Não houve influência no processo em si, nem na agilidade do Estado. Inclusive nos últimos anos percebe-se certa morosidade do Poder Público. O Estado só age se pressionado pelos movimentos sociais. Não tem tomado a iniciativa de fazer reforma agrária, que é de responsabilidade do próprio Estado. Hoje, a reforma agrária é uma demanda social, não se apresenta mais como um alavanco econômico, como foi no passado. Com isso não quero diminuir a importância da reforma agrária, porque só as vantagens sociais já justificam. A reforma agrária tem um custo econômico muito baixo.

O MST enfraqueceu ou se fortaleceu nesses 15 anos?


Plínio de Arruda
Enfraqueceu porque foi cooptado pelo governo, que, por sua vez, não tem coragem de fazer reforma agrária. Faz um “programinha” de assentamentos rurais, de algumas benesses, de crédito limitado, tudo em uma dimensão pequena, que não resolve nada.

Bernardo Mançano
Fortaleceu, mas ainda não tem força para defender seu projeto político, para pressionar pela reforma agrária e transformar a sociedade.

Raul Jungmann
Num primeiro momento se fortalece muito, no período que vai até o início do governo Lula. Durante o governo Lula se tornaram chapa-branca.

Ivaldo Gehlen
Ele se consolidou, em primeiro lugar. Antes era conhecido, mas não estava consolidado, precisava se afirmar a cada dia. Conseguiu também expressar que é um movimento de ordem, e não de desordem. O MST desempenhou um papel importante e continua desempenhando. Agora, de uns oito anos para cá houve um enfraquecimento. O MST apresenta uma certa dubiedade entre ser movimento social, com demandas específicas, e atuar como uma organização que quer a mudança política, quase como partido. É legítimo? Até é, mas isso tem um peso, um desgaste.

O MST é um movimento extremista, violento?


Plínio de Arruda
Nunca foi extremista.

Bernardo Mançano
O MST é um movimento popular de esquerda e luta por uma sociedade menos desigual. Radical no sentido de ser coerente com seus princípios.

Raul Jungmann
É um movimento combativo, que descamba pra violência. Nem sempre é, nem todos são violentos. Mas tem como possibilidade, que muitas vezes se concretiza, que é o uso da violência. A invasão de terra é a quebra de propriedade, que é uma violência contra a ordem social do país. É claro que sem dúvida os donos de terra cometeram mais violência, infinitas vezes mais.

Ivaldo Gehlen
É extremista em alguns momentos, frente às instituições que também lutam por terra, por se achar um tanto quanto “proprietário” da luta pela terra. Por isso se isolou das demais instituições que apóiam a reforma agrária. Agora, na luta pela terra, não vejo o MST violento. Representa muito mais a ordem do que a desordem. O fato de haver conflito é normal, não tem como evitar.

O MST foi cooptado pelo governo Lula?


Plínio de Arruda
Infelizmente foi cooptado pelo governo Lula e se transformou numa espécie de ONG, que presta serviços descentralizados ao Estado. Isso alterou a relação do MST com as massas. O movimento atua como um promotor do Estado, que é diferente do ativismo político. É trágico, mas é verdade.

Bernardo Mançano
Não foi cooptado pelo governo Lula. Manteve uma postura responsável de oposição.

Raul Jungmann
No governo Lula, o MST cedeu aos apelos e ao aparelhamento das instituições do Estado. O movimento perdeu a combatividade. O governo Lula não mandou um único projeto de lei aperfeiçoando a reforma agrária. Quanto à revisão dos índices de produtividade da terra (uma das reivindicações históricas do MST) , prometeram, recuaram e não fizeram.

Ivaldo Gehlen
O MST sempre teve no Lula uma figura importante. Ao assumir, o Lula poderia ter sido mais enérgico ao fazer com que o Estado tomasse as rédeas da reforma agrária. O MST até tentou pressionar, mas o sistema Judiciário e os proprietários têm mais força. A Justiça atrapalha, e os ruralistas são muito fortes no Congresso. O Lula ficou sem possibilidade de ação.

Como as políticas assistenciais do governo Lula, bem como a redução do desemprego e da pobreza, impactaram o MST?


Plínio de Arruda
Foi exatamente esse o grande engodo no qual caiu a população rural. A ideia de que “devagarinho a gente consegue”. Esse conto do “melhorismo” engessou o movimento.

Bernardo Mançano
De duas formas: a renda dos pequenos agricultores têm diminuído e o Bolsa Família têm possibilitado que a população mais pobre tenha acesso a recursos que antes não tinham. Para o MST atrair pessoas que queiram se tornar agricultoras, a renda da agricultura camponesa precisa melhorar.

Raul Jungmann
Foram três impactos: o primeiro é a própria expansão extraordinária do Bolsa Família, que teve um impacto enorme na base social do MST. Segundo lugar, você tem a questão da cooptação e ocupação de cargos. Em terceiro, há uma situação hoje de pleno emprego, onde se esvazia a possibilidade de gente para se mobilizar em torno da luta pela reforma agrária.

Ivaldo Gehlen
Tiveram um impacto eu não diria decisivo, mas importante. Muita gente que se alinhava à luta pela terra, por situações de pobreza, não necessita mais disso. Agora, não cabe aos movimentos sociais impedir que o governo faça política social. A pressão pode existir mesmo quando o Estado toma o controle. As políticas sociais são feitas justamente pra que as pessoas não tenham necessidade de lutar para ter comida, casa, sobrevivência biológica, mas se mobilizem por outros valores.

Os entrevistados


Plínio de Arruda
Ex-candidado à Presidência pelo PSOL, presidente da Abra (Associação Brasileira de Reforma Agrária)

Bernardo Mançano
Geógrafo, pesquisador da história do campesinato brasileiro e do MST, professor da Unesp (Universidade Estadual Paulista)

Raul Jungmann
Ex-deputado federal, ministro do Desenvolvimento Agrário do governo FHC, filiado ao PPS (Partido Popular Socialista)

Ivaldo Gehlen
Sociólogo, pesquisador nas áreas de reforma agrária e movimentos sociais, professor da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)

 

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