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Aos 80, Maluf diz ter enfrentado a ditadura e esbanja amor próprio: "tudo que fiz deu certo"

Guilherme Balza

Do UOL Notícias <BR> Em São Paulo

2011-09-03T07:01:00

03/09/2011 07h01

Cada vez menos popular e hoje pouco lembrado nos noticiários e nas conversas de bar, Paulo Maluf completa 80 anos neste sábado (3) e continua esbanjando amor próprio. O deputado federal pepista, representante de um populismo em extinção, não perdeu o hábito de falar em terceira pessoa e exaltar, a qualquer oportunidade, seus feitos.

“Só me arrependo do que eu ainda não fiz. Tudo que fiz deu certo”, diz. “Toma dez táxis e faz uma pesquisa para saber quem mais trabalhou em São Paulo”, recomenda.

Figura inofensiva, se comparado ao que representou nas décadas de 70, 80 e 90, Maluf tenta capitalizar até as críticas mais pesadas que recebe, como ter participado da ditadura e alavancado a carreira de Celso Pitta.

“Paulo Maluf foi o primeiro a desafiar o regime militar”, responde. Quanto ao seu apadrinhado, “empenhei meu prestígio para um negro ser prefeito de São Paulo, mas não tenho culpa se ele não entendeu o momento histórico”, afirma.

O deputado amenizou o discurso sobre os adversários políticos, a ponto de elogiar Lula, Serra, Kassab e projetar apoio a Geraldo Alckmin nas eleições de 2014, caso o tucano dispute o governo de São Paulo novamente.

Escolha a frase mais polêmica de Maluf

  • Jorge Araújo/Folhapress - 01.dez.2004

Maluf acumula dez derrotas em eleições para cargos executivos, sem contar o pleito presidencial de 1985, quando perdeu para Tancredo Neves na votação indireta. Nas urnas, foi eleito prefeito de São Paulo, em 1992, e deputado federal por três vezes (1982, 2006 e 2010) – em duas delas com a maior votação do país.

O deputado não descarta se candidatar a prefeito da capital paulista em 2012 e até a governador em 2014, embora reconheça que a idade pese.

Quanto aos processos, Maluf responde a três ações penais e a um inquérito, que está há cinco anos no STF (Supremo Tribunal Federal). Com o nome na lista da Interpol, Maluf não pode colocar os pés nos Estados Unidos, onde há uma prisão decretada contra ele. Todos os seus bens no Brasil e em seis países estão bloqueados.

Uma das investigações trata do sumiço de mais de US$ 300 milhões dos cofres da Prefeitura de São Paulo na sua gestão. Como sempre, Maluf se declara inocente e diz que a maior prova disso é nunca ter sido condenado.

Em entrevista ao UOL Notícias, Maluf falou de todos esses assuntos e também da sua prisão na sede da Polícia Federal de São Paulo, em 2005, onde ficou detido por 40 dias. O delegado da PF responsável pela prisão de Maluf e do filho Flávio foi Protógenes Queiroz, hoje colega do deputado na CCJ (Comissão de Constituição de Justiça) da Câmara.

Veja abaixo a entrevista completo com o político:

UOL Notícias - O senhor se arrepende de alguma coisa que fez na sua vida política?
Paulo Maluf -
Só me arrependo do que eu ainda não fiz. Tudo que fiz deu certo. Fui criticado e até processado quando construí o aeroporto de Guarulhos. O aeroporto está aí, ficou pequeno, estão até fazendo um puxadinho, e por uma feliz coincidência deram o nome do aeroporto de André Franco Montoro, que foi contra a construção e me processou. Mas está tudo certo. Cada um na vida tem uma visão. Eu tinha visão que tinha petróleo na Bacia de Santos, e quando criei a Paulipetro fui processado. Hoje, o Lula diz aos quatro ventos que o pré-sal vai dar a maior riqueza para o Brasil. Quando construí a rodoviária, diziam também que eu tinha sonhos faraônicos, que eu era o faraó. Hoje ela ficou tão pequena que tiveram que construir mais três. Quando construí o Metrô de São Paulo, em 1969, também fizeram críticas de que não precisava. O mesmo aconteceu com [as rodovias] Imigrantes, Trabalhadores [atual Ayrton Senna], com as avenidas Brigadeiro Faria Lima, Jacu Pêssego, Águas Espraiadas, com o Minhocão [elevado Costa e Silva]... E quais as grandes obras que estão sendo feitas hoje em São Paulo? Faz o seguinte, esquece o Paulo Maluf, toma dez táxis e faz uma pesquisa para saber quem mais trabalhou em São Paulo.

UOL Notícias - Deixando de lado as obras, não há mais nada na sua carreira que o senhor se arrependa, como ter trabalhado no governo militar ou ter apadrinhado Celso Pitta?
Paulo Maluf -
Em primeiro lugar, não participei do governo militar, isso é uma mentira histórica. Quem primeiro desafiou o governo militar foi o Paulo Maluf, quando Laudo Natel foi indicado por Geisel e Figueiredo para ser governador de São Paulo, e eu desafiei o governo militar. Enfrentei o AI-5 (Ato Institucional Nº. 5) e toda sorte de maldades, que inclusive resultaram, durante a campanha, na morte do meu sogro, que com certeza foi consequência das agressões que sofri. Mas eu fui um governador que me elegi pelo meu partido [o Arena], não pelo regime militar.

Segundo lugar, quando fui candidato à Presidência da República, o candidato do regime militar era o coronel Mário Andreazza, que merecia ser presidente, era um homem de bem, honrado, que fez muito pelo país, mas quem derrotou o coronel? Foi Paulo Maluf. E por que Tancredo tomou posse? Porque eu não conspirei. Segui as regras do jogo. Ele venceu, venceu. Quem pregou uma peça na turma das Diretas Já foi Deus. Eles compraram o Tancredo e levaram o presidente nacional do PDS, que era o José Sarney.

UOL Noticias - Qual imagem o senhor acha que o povo brasileiro tem do Paulo Maluf?
Paulo Maluf -
Eu tive diversas eleições na minha vida. Ganhei umas, perdi outras. Nas três vezes que fui candidato a deputado, em duas fui o mais votado do Brasil. Na última não aconteceu isso porque na antevéspera da eleição, o presidente do TRE-SP (Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo) foi ao Jornal Nacional e disse: ao votar em candidato impugnado, o voto é nulo. Não sei quantos votos eu perdi nesse dia, mas não me importo. Fui eleito. Depois se verificou que a minha impugnação não tinha base legal. O colegiado me inocentou. Mas eu não reclamo, sabe por quê? Estou casado com uma boa mulher, a Sylvia, que me acompanha nas minhas felicidades e tristezas há 56 anos; tenho quatro filhos estupendos, que saem de casa para o trabalho, do trabalho para casa; tenho 13 netos; a minha empresa Eucatex vai muito bem; em Brasília sou muito respeitado. Então eu acho que se tem no Brasil 192 milhões de brasileiros, com toda a certeza Deus deu para um milhão uma vida generosa, como deu para mim. E quem sabe deu para 191 milhões uma vida pior. Tenho que agradecer a Deus, que foi muito generoso comigo.

UOL Notícias - E pelos paulistanos, o senhor acha que é mais amado ou mais odiado?
Paulo Maluf -
Muito mais amado. Todas as pesquisas que o Datafolha fez, a cara de São Paulo é o Paulo Maluf, na frente de Silvio Santos e Hebe Camargo. Entre os políticos, eu acho que não tem ninguém, ninguém que tenha feito pela cidade de São Paulo 10% do que eu fiz. Eu fiz seguramente dez vezes mais do que qualquer outro administrador.

UOL Notícias - O senhor gozava de alta popularidade aqui em São Paulo, tanto que conseguiu eleger o Pitta com folga. O que explica nunca mais ter ganhado uma eleição para um cargo executivo?
Paulo Maluf -
São Paulo deu uma demonstração rara de que não tem preconceito. Isso é raro no mundo inteiro. Elegeu um carioca e negro como prefeito. Se ele não entendeu o momento histórico, é triste. Eu jamais iria falar mal dele, até porque ele está morto, não pode se defender. Se ele não entendeu o problema histórico, eu fiz minha parte, empenhei o meu prestígio para um negro ser prefeito de São Paulo. A vida é assim. Na vida o que não pode é ficar em cima do muro. É a posição mais desconfortável do político, de equilibrista em cima do muro. Se errei, foi por ação, jamais por omissão.

UOL Notícias - O que representou para o senhor o episódio de sua prisão, em 2005, na sede da Polícia Federal? O senhor se sentiu humilhado?
Paulo Maluf -
Eu me senti com a alma lavada quando o STF (Supremo Tribunal Federal) reconheceu que não tinha base legal, nem jurídica para a prisão. Não havia condenação. Moro na mesma casa, não sou fugitivo da Justiça. Era só me convocar para depor. A prisão foi um ato arbitrário, porque a prisão, na minha visão, tem de ser feita depois da condenação. O Supremo lavou minha alma. Eu não fui preso, fui solto.

UOL Notícias - Como o senhor vê as denúncias recentes de corrupção nos ministérios?
Paulo Maluf -
Eu não gosto de julgar os outros, porque eu também fui acusado de maneira errônea, preconceituosa e falsa. Tenho 44 anos de vida pública, e o que importa é o seguinte: não são as acusações, é a decisão final da Justiça. Não tenho uma condenação sequer penal. Só muita acusação falsa. Por exemplo, eu prometi em 1970, antes da conquista do Tricampeonato, um Fusca para cada campeão. Eles trouxeram o campeonato e eu cumpri. Dei um fusquinha para o Pelé, Rivellino, Carlos Alberto, Leão, Tostão... E fui processado. Durante 30 anos de campanha eleitoral, disseram ‘Maluf está sendo processado por improbidade’, como se os Fuscas estivessem na minha garagem! Estavam na garagem do Pelé, Rivellino e todos eles. Daí o Supremo me inocentou. Alguém falou disso? Eu não jogo pedra em ninguém. Agora, se tem indício de corrupção, tem que investigar até o fim, doa a quem doer. Sou contra jogar debaixo do tapete.

MALUF EM DEBATES HISTÓRICOS

  • Maluf e Brizola discutem em debate das eleições presidenciais de 1989

  • Irritada com as declarações de Maluf, Marta diz o emblemático "Cala boca Maluf!", durante debate das eleições para a Prefeitura de São Paulo, em 2000

UOL Notícias - O senhor votou a favor ou contra a cassação da deputada Jaqueline Roriz (PMN-DF)?
Paulo Maluf -
Se eu votasse a favor ou contra, não revelaria porque a Constituição é clara: o voto é sigiloso. Eu não quero julgar se ela cometeu ou não cometeu crimes.

UOL Notícias - Quais são os planos para o futuro? O senhor pretende se candidatar para quais cargos?
Paulo Maluf -
Eu gosto da vida pública. Entendo que o tempo vai passando, uma campanha majoritária é desgastante, vou fazer 80 anos... Se continuar tudo como está, se hoje fosse a primeira semana de outubro de 2014, eu votaria em Geraldo Alckmin, que está fazendo um bom governo. Agora, para 2012, preciso saber quem serão os candidatos. Para eu apoiar, ou fazer uma coligação, ou então ser candidato.

UOL Notícias - Então o senhor não descarta a hipótese de se candidatar à prefeitura em 2012?
Paulo Maluf -
Não digo que sou candidato, nem que não sou. Temos que ver o andar da carruagem. Entre os candidatos que estão se apresentando, alguns são fracos. Podem até ser fortes no futuro, mas não foram aprovados, nem testados. Me reservo ou a ser candidato, ou a fazer a coligação para apoiar alguém. Mas, em 2014, pelo andar da carruagem, se tudo acontecer como hoje, eu voto em Geraldo Alckmin, e o meu partido vai junto.

UOL Notícias - Mesmo se ele for candidato à presidência?
Paulo Maluf -
Não acredito que ele seja, porque é um homem de bom senso. Pelo cenário de hoje, a candidata [favorita para 2014] é a Dilma. Não adianta especular algo diferente. Ela é a presidente da República. Agora, vamos admitir, por exemplo, que caísse um avião com a Dilma – não quero admitir essa hipótese. Tem o Lula ainda. Acho que o Alckmin, que é um homem bastante inteligente, se eu pudesse aconselhá-lo, diria ‘governador, se reserve para 2018’.

UOL Notícias - O senhor é um homem de declarações muito polêmicas...
Paulo Maluf -
Polêmicas não, sinceras... Sou o único político que pensa e diz o que pensa. Agora, está cheio de político hipócrita, cínico, que olha para o jornalista e tenta adivinhar o que o ele quer ouvir de resposta. Eu dou as minhas respostas. Não tenho arrependimento de nenhuma declaração. Gosto de todas que eu disse.

UOL Notícias - A opinião de Maluf sobre:

Lula
Fez um bom governo, acima das expectativas. Como ele não é um homem de grandes letras, a desconfiança era tanta que o dólar foi de R$ 2 para R$ 3,90. Não fui eu quem desconfiei [do Lula]. Foi a torcida do Corinthians, Flamengo, Palmeiras, Santos, juntas. Mas ele foi uma grata surpresa.

Kassab
É um engenheiro da Escola Politécnica que está fazendo uma boa gestão.

Protógenes Queiroz
Não falo.

Pitta
Está em outro mundo. Não devemos em absoluto fazer nenhum tipo de comentário quando alguém se foi.

Marta
O que tinha de falar dela já falei durante as campanhas eleitorais.

Serra
Foi um bom administrador, como prefeito, ministro da Saúde e governador de São Paulo. Tem personalidade. O que ele fez, ao criar os genéricos, está ajudando muita gente no país. Eu, por exemplo, que tomo Lipitor, contra colesterol, que caiu em domínio público, estou comprando genérico, que é a metade do preço.

Ditadura militar
Acho que não houve uma ditadura militar, porque se tivesse havido ditadura eu não seria governador. Fui governador contra o regime militar, que é diferente. E posso lhe dizer o seguinte: o que existe hoje na Câmara dos Deputados, de Medidas Provisórias, que são engolidas goela abaixo de toda a Casa, é muito mais antidemocrático do que os decretos e leis dos militares. Hoje quem legisla é o Executivo.

Corrupção no Brasil
A coisa mais anticorrupção é a imprensa livre. Eu sempre fui o maior defensor da imprensa livre desse país, mesmo quando era agredido injustamente.

UOL Notícias - Gostaria de dizer mais alguma coisa?
Paulo Maluf -
Quero o seu voto em 2012 ou em 2014.

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