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Para coronel Telhada, guerrilha contra ditadura e PCC são 'a mesma coisa'

Arte/UOL
Imagem: Arte/UOL

Guilherme Balza

Do UOL, em São Paulo

24/03/2014 06h00

O vereador Paulo Adriano Lopes Lucinda Telhada, 52, mais conhecido como Coronel Telhada (PSDB-SP), ganhou fama no comando da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), batalhão da elite da Polícia Militar paulista refundado em 1970 para auxiliar o Exército no combate a grupos guerrilheiros.

Telhada entrou na PM em 1979, quando a ditadura já definhara, e diz guardar "boas recordações" dos anos de chumbo, vividos por ele durante a infância e a adolescência, e  concorda integralmente com a visão dos militares sobre os que participavam da luta armada contra o regime opressor. "Todas essas pessoas são criminosas. Quem roubou banco, quem sequestrou, quem matou, para mim é criminoso."

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Eleito vereador de São Paulo pelo PSDB em 2012, Telhada vai além e compara os guerrilheiros a integrantes do PCC (Primeiro Comando da Capital). "Vejo os grupos guerrilheiros dos anos 70 como o crime organizado hoje da mesma maneira. Hoje nós temos o crime organizado, temos um partido na capital (PCC), que eu tenho até medo que vire partido político um dia (...) É a mesma coisa. Eles agem contra a polícia, contra as Forças Armadas."

Quando questionado se a máxima vale também para tucanos que aderiram à luta armada, como o senador Aloysio Nunes (SP), que foi guarda-costas de Carlos Marighella na ALN (Aliança Libertadora Nacional), Telhada modera o tom. "Entenda uma coisa, o fato do cara ter participado da contrarrevolução, desde que ele não tenha roubado banco, não tenha matado ninguém, não tenha sequestrado ninguém, eu não sei porque vamos taxá-lo de criminoso. Ele se indispunha contra [a ditadura]."

Evangélico, Telhada já afirmou que perdeu as contas de quantos matou em serviço. Admiradores o exaltam como símbolo de uma PM dura, que não faz concessões ao crime. Críticos, por sua vez, o tratam expoente de uma polícia que atira antes para depois perguntar, herdeira da ditadura. Em entrevista ao UOL sobre os 50 anos do golpe militar, além de fazer criticas a guerrilheiros, Telhada apresentou sua visão sobre a ditadura e sua relação (ou ausência dela) com a PM e também falou sobre a desmilitarização da polícia.

Veja abaixo trechos da entrevista.

“Boas recordações”

Eu cresci, fiz o primário, ginásio e colegial tudo na época do chamado regime militar. Eu tenho muitas boas recordações. Primeiro, todos nós éramos tratados igual. Todos os jovens tinham todos os direitos. Estudei a minha vida toda em escola pública, sempre tive lanche adequado, comíamos na escola, tínhamos uniforme. Todo jovem, morasse no local mais paupérrimo ou no mais rico, era tratado igual. Também eram muito valorizados os que trabalhavam no setor público.

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Golpe ou revolução?

Eu não vejo como revolução. Graças a Deus não foi revolução. Quando se fala em revolução, uma coisa que vem à cabeça de fato é combate. É luta. Então eu não vejo como uma revolução porque não houve derramamento de sangue, graças a Deus. Eu vejo como um golpe porque bem ou mal o poder constituído era aquele naquele momento. O golpe aconteceu porque a sociedade queria esse golpe. A sociedade exigiu. Eu acho que o erro fatal dos militares não foi ter dado o golpe. Foi ter se perpetuado no poder.

Guerra civil

O golpe de 64 evitou coisa pior, porque estávamos à beira de uma catástrofe nacional. O golpe evitou uma guerra civil porque os quartéis estavam se rebelando. O resultado podia ser terrível. Se houve o AI-5 (Ato Institucional Nº 5) em 68 é porque já tínhamos uma série de problemas acontecendo. Nós tínhamos ataque em quartéis, uma série de problemas de esquerda. A justificativa do pessoal de esquerda é o AI-5. Eu não acho que isso justifique a luta armada, que já estava sendo preparada, uma coisa que o pessoal queria acontecer.

AI-5

Houve uma época de exceção, que foi um absurdo, não concordo com isso. Eu sou totalmente a favor da democracia, acho que qualquer restrição de direitos está errada. Agora, eu sou frontalmente contra a violência. O pessoal queria tomar o poder de todo jeito, eles já estavam "p" da vida com o golpe de 64. Isso vai acirrando os ânimos e o pessoal resolve partir pra luta armada. Infelizmente muita gente morreu dos dois lados.

Guerrilheiros

"Ah, nós estávamos lutando pela liberdade do Brasil". Mentira, "véio", mentira. Inclusive você sabe que a presidente [Dilma Rousseff] participou de vários grupos guerrilheiros, vários grupos de luta armada. Há inclusive a notícia que ela atacou um quartel da Força Pública em 68, que é lá no Barro Banco, onde era nossa academia, e foi morto um cabo do Corpo de Bombeiros. Quem participou da luta armada é criminoso. Já que nós vamos para a Comissão da Verdade ver todos os crimes que os militares cometeram, eu acho que nós temos que ver todos os crimes que o pessoal também cometeu na luta armada.

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Desmilitarização

Para nós, que somos militares seria ótimo. Quem sabe eu iria ganhar mais? Teria mais respeito? Porque hoje ninguém respeita o policial militar, ninguém valoriza o policial militar, qualquer coisa eles jogam o regulamento na nossa cabeça. Então polícia, como cidadão, não pode nada. A Constituição não existe para a PM. Existe o regulamento. A desmilitarização é uma coisa que para o militar é muito forte.

Agora vamos falar em sociedade. Que bem faria a desmilitarização para a sociedade? Se a PM parar [fizer greve], o que vai acontecer? Quem vai aceitar trocar tiro com bandido, entrar em favela, ganhando mal. Essa coisa de desmilitarização é novamente o revanchismo por causa do regime militar.

Relação com Exército

Quando ingressei na PM, muitas de nossas matérias eram tipicamente militares: guerrilha contra guerrilha, instruções de infantaria, cavalaria, cavávamos trincheiras. Era tudo feito para o combate urbano e combate rural. Quando entrei na polícia, o comandante-geral era um coronel do Exército. E o secretário de Segurança Pública era um coronel do Exército. Então havia um controle sim do Exército, intensivo nas políticas, na instrução, no armamento.

PM herança da ditadura?

De jeito nenhum. A polícia era mais militar antes de se tornar PM, em 1970. A PM agiu dentro da legalidade na época da ditadura. 

OUTRO LADO

A reportagem procurou as assessorias dos que foram citados por Telhada na entrevista. A assessoria de comunicação da presidente Dilma, procurada na quarta-feira (19), não se posicionou até o fechamento da reportagem, às 20h da sexta-feira (21), assim como os advogados do ex-ministro José Dirceu, cujas críticas aparecem em um dos vídeos acima.

A assessoria do secretário de Energia do Estado de São Paulo, José Aníbal (PSDB) foi contatada, mas não enviou posicionamento até o fechamento do texto. Já o senador Aloysio Nunes conversou com a reportagem por telefone, mas preferiu não se manifestar. 

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