Pré-candidato do PCB à Presidência defende fim da PM e ação de black blocs em protesto

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, no Rio

  • Taís Vilela/UOL

    Nascido no interior de São Paulo, Iasi é professor da UFRJ há seis anos

    Nascido no interior de São Paulo, Iasi é professor da UFRJ há seis anos

Mauro Luís Iasi, 54, é o pré-candidato do PCB (Partido Comunista Brasileiro) à Presidência da República nas eleições de outubro. Avesso a costuras políticas, o professor da Escola de Serviço Social da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) afirmou ter consciência das limitações de sua campanha, mas disse não abrir mão de compor uma alternativa socialista em um cenário eleitoral que, segundo ele, resume-se a "aspectos superficiais". Ao UOL, ele declarou ainda ter abraçado bandeiras das manifestações que eclodiram em junho de 2013 e argumentou em favor de temas como o fim da Polícia Militar e a ação dos black blocs, entre outros.

Iasi, que participou da fundação do PT, na década de 80, integrou o time que coordenou a primeira campanha presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva, em 1989, quando o ex-presidente e símbolo do Partido dos Trabalhadores duelou com Fernando Collor de Melo. "Eu tenho experiência de fazer campanha, um pouco contra a minha vontade", disse ele, que deixou o PT em 2004. "Nós atuávamos desde o marketing até o planejamento da campanha. (...) era um esforço monumental para apresentar o Lula não do jeito que ele era, mas sim para fazer com que ele parecesse um candidato. Isso em questões mínimas, como a forma de se colocar. A grande força dele era a autenticidade".

Apesar de ter acumulado experiência com as campanhas petistas, o pré-candidato comunista disse querer se distanciar da metodologia eleitoral que norteia as grandes legendas. Sua candidatura será divulgada basicamente com atividades nas ruas, o que inclui ir às manifestações. "Nossa campanha é coletiva, fizemos um processo de quase um ano de congressos. (...) A decisão por uma candidatura vem diretamente ligada ao fato de que a conjuntura brasileira não pode limitar às alternativas que hoje estão colocadas no que chamamos de campo da ordem. São candidaturas que, no máximo, divergem sobre aspectos superficiais, mas não a fundo em questões que consideramos prioritárias hoje para o Brasil", declarou.

As questões "prioritárias", na visão do pré-candidato, estão diretamente vinculadas às pautas que emergiram dos protestos. "As manifestações expressaram, ao contrário do que muitos disseram, uma politização do debate. Elas trouxeram temas importantíssimos para o debate de fundo da sociedade brasileira. (...) O que surgiu nas manifestações tem que ganhar uma densidade de um projeto político e um projeto alternativo para o Brasil", afirmou. "Um projeto de poder. Isso dificilmente brota da própria manifestação. Isso exige um segundo grau de luta."

Iasi destacou que, em sua perspectiva, o "aparato repressivo" do Estado tentou conter o ímpeto das manifestações, mas isso não funcionou. "A repressão acabou levando a uma radicalização das manifestações, e elas se generalizaram. Isso provocou formas de autodefesa. Desde o início, nós tomamos muito cuidado para não criminalizar e condenar essas formas de autodefesa", disse. "Mesmo aquelas praticadas pelos chamados grupos adeptos de uma tática black bloc. (...) Somos obrigados a sofrer uma repressão brutal do aparelho policial, de forma muitas vezes ilegal, extremamente ilícita, forjando provas e tudo mais, em uma violência totalmente descabida. Todo mundo viu isso ocorrer nas manifestações."

Para o comunista, o "limite" da ação dos black blocs é outro. "É necessário que se transforme em uma alternativa real de poder. A mera ação performática contra a ordem encontra um limite. A ordem pode incorporar isso e neutralizar", explicou. No entanto, Iasi disse acreditar que as "várias intencionalidades" dos adeptos da tática black bloc, em todo o Brasil, podem "gerar problemas para as próprias manifestações". "As manifestações têm um apelo meio quixotesco. O apelo de uma juventude que enfrenta bravamente os seus adversários, mas é preciso nessa hora mais do que a ousadia. É preciso da forma dessa ousadia em uma perspectiva radicalmente anticapitalista, radicalmente socialista e isso a gente só vai fazer se conseguir que essas manifestações consigam consolidar uma alternativa real de poder", completou.

Questionado sobre o debate acerca da proposta de desmilitarização da polícia, que também se tornou pauta na onda de protestos, o professor universitário disse que é preciso ir além. "Hoje não basta nem sequer a desmilitarização da Polícia Militar. Somos favoráveis à desmilitarização, mas achamos que isso é insuficiente. É necessário hoje acabar com essa corporação", afirmou. "É necessário acabar com a Polícia Militar e pensar em uma nova forma de segurança pública que não passe pela prioridade da repressão por um corpo especializado em reprimir, e que nitidamente perdeu o controle de qualquer autoridade civil e de qualquer autoridade governamental, ganhando uma vida própria que culmina em práticas de extermínio. Essa corporação não pode ter lugar em uma sociedade minimamente civilizada como a gente imagina."

O que pensa Mauro Iasi sobre
  • Maioridade penal
    "Esse é um dos temas que indicam uma inflexão conservadora. Existe uma posição na sociedade que a criminalidade seria resolvida com a redução da maioridade penal. Isso é um erro sério. Porque, em vez de atacar as raízes do problema e a segurança pública de uma maneira coerente e integrada, mais uma vez tende-se a criminalizar e penalizar aqueles que estão em uma posição muito mais vulnerável"
  • Fim da reeleição
    "É sempre bom uma forma de governo que tenha controle. E que esse controle possa se expressar a qualquer momento. Não é no final de um ano ou de dois mandatos. Caso haja uma perpetuação, isso pode indicar um caminho escolhido pela maioria da população de garantia de certo horizonte de transformações. Para nós, identificar a democracia unicamente como alternância de governo é um equívoco"
  • Copa do Mundo 1
    "Eu não teria problema em não ter Copa. O que estamos falando nas ruas é: da Copa, eu abro mão. Se fosse uma coisa antagônica entre Copa, educação e saúde, é evidente que eu escolheria saúde e educação. Estamos nos lixando para a Copa do Mundo. O que queremos saber é o seguinte: teve dinheiro para isso? Bom, então eu quero saber onde está o dinheiro prometido para as áreas essenciais"
  • Copa do Mundo 2
    "O que nós temos, no Brasil, é um campeonato mundial de obras. Isso é o epicentro de todos os direitos mercantis que envolvem o evento. Essa mercantilização do evento esportivo que cria os problemas, não o evento em si. Seria muito interessante ter uma Copa no Brasil para a gente discutir futebol, mas infelizmente esse governo conseguiu estragar isso, inclusive"
  • Controle da mídia
    "Se o governo tinha como pegá-los na defensiva, deveria ter criado uma nova lei e uma democratização radical dos meios de comunicação, e talvez hoje a gente tivesse uma situação diferente. Os protestos provaram que o que se espelhava na imagem distribuída pela mídia não correspondia, de fato, às contradições que aqui em baixo germinavam"
  • Reestatização
    "A sociabilização pressupõe uma forma de poder dos trabalhadores capaz de propor rupturas, inclusive na forma de propriedade. Isso significa retomar o que já está nas mãos de alguns. O primeiro passo para enfrentar isso é a reversão dessas privatizações. Você tem que reestatizar determinadas áreas. Mas aí as pessoas falam: isso vai gerar uma quebra de continuidade. Sim, vai criar, não tem jeito"
  • Sistema financeiro
    "Acreditamos ser necessária uma estatização do sistema financeiro. Então, o banco que hoje é do Itaú não será do Itaú. O Bradesco não será do Bradesco. O sistema financeiro será estatizado e centralizado nas mãos do Estado. Não dá para conviver com o poder dos bancos dirigindo a economia brasileira de fora"
  • Calote da dívida
    "Uma medida emergencial seria a suspensão imediata do pagamento da dívida e do serviço da dívida, e uma realocação radical do fundo público para os seus objetivos mais elementares e essenciais. (...) O Estado tem que garantir a vida das pessoas nesse país. Não vai sobrar dinheiro para empreiteira, não vai sobrar dinheiro para a Copa, não vai sobrar dinheiro para investimentos do grande capital"
  • Bolsa Família
    "A crítica ao Bolsa Família ocorre porque ele expressa uma concepção de governo em que a diminuição da desigualdade pode ser resolvida pela distribuição. Nós discordamos disso. Nós não pretendemos acabar com um programa emergencial como o Bolsa Família, mas, no Brasil, o emergencial vira permanente. (...) Enquanto um programa emergencial, sem problemas. Mas gente precisa atacar a raiz"
  • Alimentação
    "Se pegarmos qualquer índice do governo, ele vai dizer que caiu o número de famintos, o que é verdade. Mas isso quer dizer que as pessoas estão alimentadas? A mesa do brasileiro está substituindo alimentos tradicionais por industrializados. Do ponto de vista tradicional, é o mesmo que nada. Se você comer a caixa da sua lasanha congelada, você se alimenta mais do que com a própria lasanha"
  • Brasil socialista
    "O Brasil está preparado para o socialismo. (...) Trata-se de uma mudança profunda do modo de vida, mesmo. Quando eu digo isso, é porque existem todas as condições materiais para a gente organizar uma sociedade planejada, com uma produção socializada. Não quer dizer que todas as condições políticas estejam dadas. Em parte, essas são criadas no próprio processo de luta"

Quem é Mauro Iasi
  • Idade
    54
  • Naturalidade
    São Paulo
  • Profissão
    Professor universitário
  • Candidaturas a presidente
    Nenhuma
  • Experiência parlamentar
    Nenhuma

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