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Militares mostravam fotos de cabeças degoladas, diz sobrevivente do Araguaia

Bruna Borges

Do UOL, em Brasília

12/08/2014 13h04

A ex-guerrilheira Criméia Schmidt de Almeida, que sobreviveu à Guerrilha do Araguaia, afirmou que militares que a interrogavam mostravam cabeças degoladas de guerrilheiros mortos pelos agentes de repressão para forçá-la a identificar as vítimas. A declaração foi dada durante audiência pública da Comissão Nacional da Verdade em Brasília nesta terça-feira (12).

“Eu era levada para o interrogatório, eles perguntavam quem eram os guerrilheiros e eu não respondia, depois tinha a ‘sessão de cinema’. Eles mostravam as cenas dos corpos, e fotos com militares que apareciam da cintura para baixo segurando a cabeça dos guerrilheiros mortos, com o sangue coagulado. Eles pediam para identificar e eu não conseguia, não os conhecia. Ficava um [militar] atrás com os slides e um na frente para observar minha reação. [...] Era muito sangue, um negócio muito grotesco”, declarou a sobrevivente.

Considerado um dos episódios mais violentos da repressão durante a ditadura militar, a Guerrilha do Araguaia foi caracterizada por prisões ilegais, tortura, desaparecimentos e extermínio dos guerrilheiros. A guerrilha rural ocorreu entre 1967 e 1974 em uma região que compreende áreas do Pará, Maranhão e Tocantins (à epoca Goiás).

Criméia foi presa em São Paulo após deixar a guerrilha em setembro de 1972. Ela retornou a São Paulo para encaminhar mensagem ao PC do B e também porque estava no sexto para o sétimo mês de gravidez de seu filho.

Ela foi detida em dezembro de 1972 e torturada por vários dias. Depois foi enviada a Brasília, onde também foi torturada. “As condições eram péssimas, aí pedi para tomar banho de sol, aí me colocaram para tomar sol em um pátio descalça ao meio dia, sem sombra, meus pés ficaram com bolhas”, contou Criméia.

“Minha bolsa estourou, depois de horas me levaram para o hospital de base. O médico civil me atendeu disse que não me atenderia porque ‘preso dá muito trabalho’. Levaram de volta para a cela. A cela não tinha ventilação e tinha muitas baratas, com a bolsa rota o número de baratas aumentou bastante. Os bandidos de dentro das celas gritavam para me ajudar, eram mais humanos que os bandidos que estavam do lado de fora. Então, eles me levaram para um hospital militar”, disse.

Segundo a ex-guerrilheira, o obstetra que a atendeu disse que não ia fazer o parto porque “não estava de plantão”. Ela afirmou que apelou ao médico, pois o filho poderia morrer. E ele afirmou que não teria problema porque seria é “um comunista a menos no mundo”.

“Eles me levaram para a sala de cirurgia e fiquei esperando sem assistência com um metralhadora na sala. Meu filho nasceu e eles fizeram a sutura com os materiais errados, os pontos não caíram, não secaram. Alguém muito simples me ajudou e me trouxe um espelho e gilete, e retirei os pontos”, contou Criméia, que é enfermeira e realizou o procedimento sem anestesia.

A sobrevivente conta também que o filho dela ficou no hospital com ela por 50 dias. “Eles diziam que se fosse branco e saudável, eles iriam ficar com ele. E meu filho nasceu assim. Eles usavam meu filho para me torturar. Ele ficava três dias sem trazer meu filho, diziam que tinham entregado ao juizado de menores”, afirmou. Crimeia disse também que um militar chegou a me falar que não consegue um filho homem para seguir a carreira militar e falou para ela: “tudo bem, eu troco minha filha pelo seu filho”.

“Meu filho teve consequências físicas porque ele ficou desnutrido. E psíquicas também porque teve uma mãe neurótica, porque após tudo isso você tem medo. Meu filho detesta tudo que é governamental”, afirmou.
 

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