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"Se virem. Não colaboro com inimigo", diz militar à Comissão da Verdade

Documento de convocação do tenente José Conegundes do Nascimento para depor na Comissão Nacional da Verdade e a resposta manuscrita por ele informando que não compareceria - Divulgação/Comissão Nacional da Verdade
Documento de convocação do tenente José Conegundes do Nascimento para depor na Comissão Nacional da Verdade e a resposta manuscrita por ele informando que não compareceria Imagem: Divulgação/Comissão Nacional da Verdade

Bruna Borges

Do UOL, em Brasília

08/09/2014 14h52

Um militar que foi convocado para depor à Comissão Nacional da Verdade, o tenente do Exército José Conegundes do Nascimento, se recusou a comparecer à audiência desta segunda-feira (8) e afirmou que “não colabora com o inimigo”.

"Não vou comparecer. Se virem. Não colaboro com o inimigo", escreveu o tenente no documento de convocação apresentado pela comissão ao militar.

O tenente atuou na repressão à Guerrilha do Araguaia e foi convocado no último dia 29 para depor ao colegiado, em Brasília. 

O coordenador da comissão, Pedro Dallari, afirmou que pedirá investigação do Ministério da Defesa e avaliou a atitude do militar como uma “afronta” aos trabalhos do grupo e vai pedir ao Ministério da Defesa que apure se houve infração disciplinar pelo militar.

“É uma afronta à comissão, que foi constituída por lei e tem o direito de colher esses depoimentos”, afirmou Dallari. 

Além de Conegundes, o general do Exército José Brandt Teixeira também se recusou a comparecer alegando que, "segundo orientação do Comando do Exército, as convocações devem partir daquela autoridade".

A Comissão da Verdade tem o poder de convocar os militares sem a autorização das Forças Armadas e não aceitou as justificativas.

“Optamos por informar o ministro da Defesa para que a pasta apure, até porque estamos diante de uma infração disciplinar e terá que se verificar se isso não está decorrendo até de problemas de saúde, tal a gravidade da afronta, já que são pessoas idosas”, declarou o coordenador.

Estavam previstos para hoje os depoimentos de cinco militares, mas apenas o general de brigada Ricardo Agnese Fayad compareceu. Ele foi médico do DOI-Codi de São Paulo e teria também atuado na Casa da Morte de Petrópolis, um centro clandestino de tortura usado pelo Exército. O militar, no entanto, permaneceu em silêncio e não respondeu a nenhum dos questionamentos feitos pela comissão.

“Há resistência por parte desses depoentes em colaborar com a comissão e nós temos absoluta clareza de que eles, de certa maneira, estão sendo estimulados pelo fato de que até hoje as Forças Armadas se recusam a reconhecer que houve tortura e graves violações aos direitos humanos, na qual tiveram papel protagonista”, afirmou Dallari.

Documentos das Forças Armadas

A comissão informou hoje que recebeu dos comandos do Exército, da Aeronáutica e da Marinha as folhas de alteração de 115 militares. Esses documentos registram o histórico da vida funcional dos militares. A comissão tenta receber esses registros há um ano.

O grupo vai analisar e cruzar as informações obtidas com as folhas de alteração com depoimentos já colhidos pela comissão. Com esse cruzamento será possível confirmar dados já obtidos com testemunhas sobre as graves aos direitos humanos cometidas pelos militares.

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