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Revelar tortura em hospitais é legado da CNV, diz irmão de morto na ditadura

Raul Amaro Nin Ferreira foi torturado e morto aos 27 anos dentro do HCE (Hospital Centro do Exército), no Rio de Janeiro, durante a ditadura militar - Reprodução/Facebook/Comissão Nacional da Verdade
Raul Amaro Nin Ferreira foi torturado e morto aos 27 anos dentro do HCE (Hospital Centro do Exército), no Rio de Janeiro, durante a ditadura militar Imagem: Reprodução/Facebook/Comissão Nacional da Verdade

Gustavo Maia

Do UOL, no Rio

22/09/2014 18h41

O irmão de Raul Amaro Nin Ferreira, militante torturado e morto aos 27 anos dentro do HCE (Hospital Centro do Exército), no Rio de Janeiro, durante a ditadura militar, afirmou em depoimento à CNV (Comissão Nacional da Verdade) na tarde desta segunda-feira (22) que um dos maiores legados da comissão será revelar para a sociedade brasileira que instituições hospitalares também serviam de base para a tortura durante o regime. A audiência aconteceu no Arquivo Nacional, sede da CNV no Rio.

“Um lugar que no mundo inteiro serve para cuidar da saúde serviu como espaço para torturas desumanas, chocantes e covardes”, disse, emocionado, Pedro Nin Ferreira, que tinha 16 anos quando o irmão foi preso por agentes do Dops (Departamento de Ordem Política e Social), em uma blitz no bairro de Laranjeiras, zona sul do Rio, no dia 1º de agosto de 1971. Raul, que era engenheiro mecânico e trabalhava no Ministério da Indústria e do Comércio, morreu dentro do hospital no dia 12 do mesmo mês. Ele era ligado à organização de combate à ditadura MR-8.

No último dia 11 de agosto, o médico-legista Nelson Massini apresentou um laudo, em audiência da CEV-Rio (Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro), que comprova que Raul Amaro foi torturado duas vezes e morto dentro HCE. Durante o depoimento a três membros da CNV, Pedro lembrou de quando soube que o irmão estava no hospital. “O que passou pela minha cabeça é que ele estava em um lugar para cuidar da saúde dele. Ficamos surpresos e chocados de saber, dias depois, que havia um cadáver no HCE que nós deveríamos buscar”, declarou.

“Há provas robustas que ele foi torturado no hospital. Conseguimos documentos que comprovam isso e houve depoimento de um enfermeiro de que ele não conseguia andar e estava acamado quando foi torturado pela segunda vez. Isso é chocante para nós. Nós temos feito um esforço de manter essa memória viva, apesar da dor. São feridas que em muitos de nós acabaram não cicatrizando”, afirmou Pedro Nin.

Integrante da CNV, Rosa Cardoso afirmou que o caso de Raul “mostra o caráter escabroso da violência praticada pelo Estado durante a ditadura”. “Nós temos um relatório com muitos outros casos em que o hospital foi usado como base para tortura, assistida sistematicamente por médicos. Isso é muito grave”, declarou Cardoso.

Durante a audiência, o sobrinho de Raul, Felipe Nin Ferreira, e o pesquisador Marcelo Zelic, que produziram um relatório de aproximadamente 500 páginas sobre a morte do militante, falaram sobre a pesquisa e sobre como conseguiram encontrar documentos sobre o caso. Em um dos ofícios, um relatório sobre o último interrogatório feito com Raul, dentro do HCE, as últimas palavras dão fortes indícios de que ele morreu sob tortura, segundo os familiares. “Não houve tempo para inquiri-lo sobre todo o material encontrado em seu poder”, lê-se.

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Nesta terça-feira (23), a partir das 10h30, integrantes da CNV e da CEV-Rio vão realizar duas diligências de reconhecimento, a primeira no 1º Batalhão de Polícia do Exército, na Tijuca, que abrigou o Doi (Destacamento de Operações de Informações) do 1º Exército, um dos principais centros de tortura do RJ, e a segunda no HCE, a partir das 15h.

Familiares de Raul Ferreira, sobreviventes e testemunhas de graves violações de direitos humanos acompanharão as duas diligências e darão seus testemunhos nos locais aos peritos e assessores da CNV, como já ocorreu no Doi-Codi de São Paulo, na Vila Militar do Rio e na Base Aérea do Galeão, também no Rio.

De acordo com a CNV, também participarão da visita ao HCE integrantes das Clínicas do Testemunho, da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, da Comissão Nacional de Reforma Sanitária e do Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro.

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