"Michel Temer não é machista", diz primeira delegada da mulher do Brasil

Guilherme Azevedo

Do UOL, em São Paulo

  • Guilherme Azevedo/UOL

    Rosmary Corrêa, que ficou conhecida como delegada Rose: figura histórica na defesa dos direitos da mulher

    Rosmary Corrêa, que ficou conhecida como delegada Rose: figura histórica na defesa dos direitos da mulher

Rosmary Corrêa tem seu nome inscrito na história da luta pelos direitos da mulher, muitos deles ainda em fase de conquista ou consolidação no Brasil, segundo sua própria avaliação.

Mais conhecida como delegada Rose, ela foi a primeira delegada da primeira Delegacia da Mulher do mundo, criada em agosto de 1985, por iniciativa de um grupo de mulheres ativistas e do então governador do Estado de São Paulo, Franco Montoro, e de seu secretário da Segurança Pública, Michel Temer. Uma estrutura protetiva hoje disponível em todos os Estados, somando mais de 400 unidades.

Em entrevista ao UOL, em seu gabinete de trabalho num edifício antigo no centro histórico de São Paulo, a hoje presidente do Conselho Estadual da Condição Feminina, órgão de política e ações para mulheres vinculado ao governo paulista, defende o presidente da República interino das acusações de machismo e minimiza a ausência de mulheres nos ministérios dele: "Competência independe de gênero". Mesmo argumento que ela utiliza para concordar com o afastamento de Dilma Rousseff da Presidência da República: "Pisou na bola".

Rosmary relembra a história da criação daquele marco de proteção à mulher: "A delegacia foi o primeiro canal oficial aberto para mostrar a violência que existia contra a mulher principalmente dentro de casa".

Leia a seguir os principais trechos da entrevista:

Michel Temer e as mulheres

Sob o risco de que algumas companheiras possam até fazer críticas bem contundentes ao meu respeito, eu diria que competência independe de gênero. Michel Temer precisava nesse momento se cercar dessas pessoas e foi buscar essas pessoas. Eu vou pegar uma mulher só porque eu quero que tenha uma mulher? Vou pegar um negro só porque é politicamente correto que eu tenha um negro no meu ministério? Gente, não é assim.

Não teve no primeiro escalão, tudo bem. Mas e a Flávia Piovesan, que ele escolheu [para secretária de Direitos Humanos]? Quer pessoa mais competente do que ela? É uma constitucionalista, uma feminista maravilhosa. A Maria Helena [Guimarães, agora secretária-executiva do Ministério da Educação e Cultura], que foi nossa secretária estadual de Desenvolvimento Social, tem extrema competência. A Maria Silvia [Bastos Marques], que foi agora para a presidência do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), foi presidente da CSN. O currículo dela é muito melhor do que o de uma dúzia de mulheres que esteve nos ministérios da Dilma [Rousseff]. A chefe de gabinete do Michel é mulher, e quer cargo mais importante do que uma chefia de gabinete da Presidência da República? O pessoal exagerou um pouquinho. Não vejo retrocesso. 

Poxa, ele não é uma pessoa machista de forma nenhuma; e não o considero retrógrado. Ele está pegando um país que está numa situação gravíssima

Recatada e do lar?

Outra coisa que achei de extremo mau gosto: o que fizeram com a Marcela [Temer], mulher do Michel Temer. Se eu quiser ser recatada e do lar, é um direito meu. [Ela se refere à polêmica iniciada com a publicação de um perfil de Marcela pela revista "Veja", intitulado "Bela, recatada e do lar".] Aí vem nas redes sociais essa maledicência, achincalhando a moça. Não gostei. Se nós mulheres lutamos [por nossa liberdade], e tem o slogan "Lugar de mulher é onde ela quiser", se eu quero ser recatada e do lar, ninguém pode me criticar. Mas eu é que jamais seria. Nem cozinhar eu cozinho, em casa quem cozinha é meu marido.

Montagem BOL/Reprodução

Impeachment de Dilma, uma questão de gênero?

A gente tem de aprender a separar as coisas. Só porque ela [a presidente afastada Dilma Rousseff] é mulher, estando num cargo e independentemente do que faça, tem de ficar? Não é correto. As mulheres, tanto quanto os homens, têm de mostrar a sua capacidade ao assumir determinados cargos, quaisquer que sejam. Você conseguiu chegar? Então tem que procurar fazer o seu melhor. Aí, tanto o homem quanto a mulher, se não fez o seu melhor, se deixou a desejar, não pode ficar. Isso independe do gênero. É uma pena, no caso específico da nossa presidente afastada, porque nós todas, independentemente do partido político, vibramos com a ascensão de uma mulher. Isso é muito importante, uma vitória. Na minha opinião, ela deixou a desejar. Usando um termo um pouco chulo, pisou na bola. E vai ter de sair, não tem jeito.

Pioneirismo: a criação da primeira delegacia da mulher do Brasil (e do mundo)

Em 1985, eu fazia parte de um grupo que trabalhava a questão da violência contra a mulher. Grupo do qual fazia parte a Zulaiê [Zulaiê Cobra, advogada e ex-deputada federal], a Cida Medrado [ativista], mulheres que eram daquela época do Conselho Estadual da Condição Feminina, que existe desde 1983. Aí surgiu a ideia no grupo de ter um atendimento especial para a mulher. Michel Temer era então o secretário da Segurança, Franco Montoro era o nosso governador. Eles abraçaram a ideia e ficaram imaginando o que seria.

Ninguém falou em delegacia, se falou em criar um espaço especial para a mulher que fosse vítima de violência física ou sexual fazer a sua denúncia com mais tranquilidade. Michel lembrou que havia na França um Ministério da Mulher e aí se chegou à Delegacia da Mulher. Uma delegacia como outra qualquer, a única diferença é que seria dirigida apenas por mulheres e atenderia só mulheres vítimas de violências. Uma ideia que deu certo. Foi a partir da delegacia que se tomou conhecimento das verdadeiras tragédias que existiam dentro daqueles chamados "lar, doce lar". As próprias mulheres não tinham noção de que elas poderiam (ou deveriam) denunciar as violências que sofriam. A delegacia foi o primeiro canal oficial aberto para mostrar a violência principalmente dentro de casa.

A delegacia foi o primeiro canal oficial aberto para mostrar a violência que existia contra a mulher principalmente dentro de casa

Nós começamos esse trabalho, e o trabalho repercutiu internacionalmente, porque foi a primeira no mundo. No início nós tivemos uma resistência muito grande. A imprensa nos deu muito espaço, mas dentro da instituição da polícia em geral encontrou-se uma resistência enorme. Talvez pelo modo como foi colocada (de que a delegacia era necessária, de que os homens atendiam muito mal, o delegado era machista) tenha ferido algumas suscetibilidades. Mas depois do primeiro mês da delegacia, quando se mostrou o resultado, com aquelas filas intermináveis, com gente que vinha até de outros Estados para fazer queixa, nossa polícia começou a perceber a necessidade da existência dessa delegacia.

"Lugar de mulher é na rua para protestar"
Veja Álbum de fotos

Trinta anos de luta depois: evolução?

Tem muito a ser feito, mas nós caminhamos muito. A partir da primeira Delegacia da Mulher, que para mim foi a primeira política pública desse país para a mulher, surgiram outras, como os abrigos para mulheres que corriam risco de ser mortas pelos maridos. Também surgiu convênio com a OAB [Ordem dos Advogados do Brasil], principalmente, para o atendimento jurídico dessas mulheres. Foi criado um núcleo para atender a mulher também na parte psicológica e sociológica e outras formas de atendimento. Nessa batalha nós tivemos também a Lei Maria da Penha, que completa agora dez anos [foi criada em 7 de agosto de 2006], a melhor lei do mundo no tocante ao atendimento da mulher, porque ela cobre todas as necessidades.

A Lei Maria da Penha é a melhor lei do mundo no tocante ao atendimento da mulher, porque ela cobre todas as necessidades

 Ela está sendo utilizada, está em vigor, mas ainda falta que nossas autoridades entendam e façam com que possa ser executada na sua totalidade. Ainda sentimos dificuldade. Contudo, todos os poderes acabaram criando nichos específicos de atendimento à mulher vítima de violência. E, por final, ano passado houve mudança no Código Penal, com a criação do artigo do feminicídio (assassinato de mulheres em função da violência doméstica). Foi uma grande vitória. Mas falta muita coisa. Nosso problema de assassinatos de mulheres é muito grande ainda. Até um ano atrás, o Brasil era o sétimo país do mundo em assassinato de mulheres, hoje somos o quinto. São dados oficiais, da ONU (Organização das Nações Unidas) [O Mapa da Violência no Brasil mostra que, entre 1980 e 2013, foram registradas 106.093 mulheres vítimas de homicídio no Brasil. O número de vítimas passou de 1.353 mulheres em 1980, para 4.762 em 2013, aumento de 252%].

Valter Campanato/Agência Brasil
Maria da Penha Maia Fernandes, vítima de violência do marido, se tornou símbolo da luta pelos direitos da mulher. E deu nome à lei

A experiência na Assembleia Legislativa de São Paulo

Em função do trabalho da delegacia da mulher, percebi que não adiantava ficar só fazendo aquilo. As leis são injustas, precisava melhorar isso. Por causa disso, achei que poderia me candidatar a deputada estadual. No primeiro mandato éramos apenas sete deputadas, no meio de 94 deputados. Talvez pelo fato de eu ser delegada não acontecia nenhum tipo de discriminação. Eu estive por 16 anos na Assembleia [de 1991 a 2005] e nunca vi crescer o número de mulheres deputadas, o máximo a que se chegou, até hoje, foi 11. No Congresso Nacional não se tem nem 11% de mulheres.

A Assembleia é um pouco frustrante para quem quer tentar legislar. Os deputados ficam ensanduichados no meio do vereador e do deputado federal, com uma perspectiva legal muito pequena. De qualquer forma, sempre achei que nós temos leis demais, o que nós precisamos é fiscalizar as leis existentes. O deputado também tem essa prerrogativa. 

Guilherme Azevedo/UOL
Rosmary Corrêa: trajetória de lutas

Pouca representatividade feminina

Na hora de votar, você é engolida pelos homens, e muitos não têm o menor interesse de votar determinadas leis que possam corrigir essas injustiças. E por que acontece isso, se nós somos 51% de quem vota e somos mãe da outra metade? Será que a mulher não confia na própria mulher? E não é votar na mulher por ser mulher, mas porque nós temos muitas mulheres competentes, que nos dariam orgulho de estar nos representando nos Parlamentos.

Será que a mulher não confia na própria mulher? E não é votar na mulher por ser mulher, mas porque nós temos muitas mulheres competentes, que nos dariam orgulho de estar nos representando nos Parlamentos

Mas elas não têm chance. Os partidos políticos correm atrás dela apenas para cumprir a cota [partidária], aí vão atrás da diretora de escola, da líder comunitária, porque precisam preencher a cota e fazer a lista de candidatos. Preencheu a cota, esquecem que a mulher existe. Hoje se percebe que as mulheres estão tentando se colocar dentro dos partidos, mas ainda há muita resistência e muito machismo por parte dos líderes partidários.

E as mulheres não têm apoio, não têm orientação, não têm dinheiro para fazer campanha e é muito difícil conseguir competir. Tem jeito de corrigir isso? Tem. Em vez de ter 30% [do número total de candidatos de um partido] de mulheres candidatas, tem de aprovar 30% de mulheres eleitas. As mais votadas vão para lá. É uma forma de se corrigir isso e fazer com que as mulheres tenham chance de chegar.

Nós temos de ter 30% de mulheres eleitas no Parlamento, no mínimo

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