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Com um mês de atraso, Greca faz "Lava Jato física" em Curitiba e ironiza Doria

Prefeito Rafael Greca lava calçadão da Rua XV de Novembro, no centro de Curitiba - Rafael Moro Martins/Colaboração para o UOL
Prefeito Rafael Greca lava calçadão da Rua XV de Novembro, no centro de Curitiba Imagem: Rafael Moro Martins/Colaboração para o UOL

Rafael Moro Martins

Colaboração para o UOL, em Curitiba

31/01/2017 23h58

O prefeito de Curitiba, Rafael Greca (PMN), cumpriu nesta terça-feira (31) à noite o que ele prometera ser a primeira ação de seu mandato, iniciado há exatos 30 dias: uma "Lava Jato física" na cidade.

Por volta das 22h, Greca deu a partida na lavagem do trecho de cerca de 800 metros de calçadão da Rua XV de Novembro, no centro --que, segundo postagem dele em rede social, estava coberta por "uma crosta de abandono, craca e até fezes humanas que infelicita a paisagem urbana e coloca em risco a saúde da população".

"É a revitalização de um calçadão que é emblemático para a cidade e o Brasil, onde passam 150 mil pessoas por dia. Aqui a cidade já viveu seus melhores dias, era a passarela cívica da cidade. É um espaço que não merece ser depreciado", disse Greca, antes de ligar uma mangueira e posar para fotos ao lado dos funcionários que fariam a limpeza.

Confrontado com a comparação com João Doria (PSDB), prefeito de São Paulo, que se vestiu de gari no primeiro dia de trabalho na prefeitura, Greca foi irônico. "Como você vê, estou vestido de Rafael."

Também refutou que a limpeza do calçadão seja uma ação populista e marqueteira. "A limpeza da cidade é prioritária num país que tem febre amarela, ameaça de cólera, de [febre] chikungunya, de dengue", justificou-se. Uma consulta ao Datasus, sistema que armazena dados do Sistema Único de Saúde, mostra que o Brasil não registra casos de cólera desde 2000. No Paraná, a doença não aparece desde 1999.

Segundo a prefeitura, a lavagem do trecho entre a Rua Presidente Farias e a Praça Osório deveria levar sete horas e meia, e envolveria uma  equipe de 25 pessoas, uma motovarredeira, 30 vassouras e dez regadores. Um carrinho elétrico também seria usado como apoio para retirar o lixo. No local, a reportagem também contou cinco caminhões-pipa carregados com "água não-potável", usados na ação.

O calçadão da XV de Novembro, lavado nesta terça, é a primeira via exclusiva para pedestres do país. Foi fechada para os automóveis (sob intensas críticas de comerciantes, à época) pelo então prefeito Jaime Lerner, indicado ao cargo pela ditadura militar, em 1972. Com o tempo, se tornou um orgulho dos curitibanos e cartão postal da cidade.

"Grafite não é pichação"

Perguntado a respeito, Greca disse que, em Curitiba, a prefeitura não agirá contra o grafite em muros. "Grafite é expressão de cultura pop, mas entrega da cidade à pichação pode ser conivência à comunicação entre traficantes ou pessoas de má vida. Grafite e pichação são coisas diferentes, tratadas de forma diferente", falou.

"Não tem cabimento a cidade fazer um esforço tremendo para preservar painéis de Humberto Cozzo e Erbo Stenzel, na Praça 19 de Dezembro, feitos de granito, e uma pessoa colocar pichação. Devia ser condenado a fazer esfoliação de pedra. Não sobra nada da mão de quem faz uma esfoliação de superfície de pedra", sugeriu o político.

Moradores de rua

Cerca de uma hora antes do início da limpeza, a reportagem percorreu os arredores da rua XV de Novembro, acompanhando uma comitiva formada por representantes das comissões de Direitos Humanos e de Direitos da Criança e do Adolescente da OAB-PR (Ordem dos Advogados do Brasil, seção Paraná), da Defensoria Pública, da pastoral do povo da rua da arquidiocese de Curitiba, do Movimento Nacional da População de Rua (MNPR) e de um grupo de advogados voluntários.

Um integrante da comitiva disse temer que houvesse "excessos contra moradores de rua", que vivem (às dezenas) no calçadão. "Há menos gente na rua. Muitos dizem que a Guarda Municipal passou a impedir que fiquem na Praça Osório (num dos extremos do calçadão da XV de Novembro)", notou Maurício Pereira, coordenador municipal do MNPR em Curitiba.

A maioria dos moradores de rua ouvidos pelo grupo disse ter recebido o pedido de retirar os pertences para a limpeza da rua, mas que poderiam retornar em seguida. Mas um deles, que pediu para não ter o nome revelado, disse ao UOL que guardas municipais agrediram a ele e a colegas durante a madrugada de quinta-feira passada, enquanto dormiam no calçadão. "Ninguém aqui é animal pra levar pancada de graça", reclamou.

Rafael Greca deu início à lavagem frente à sede da Associação Comercial do Paraná (ACP). Antes disso, se reunira com diretores da entidade, que no início do ano passado pedira "providências imediatas" sobre os moradores de rua em Curitiba.

"Os moradores de rua foram convidados a sair enquanto há a lavagem, e serão, à medida em que tivermos condições, acolhidos num novo centro social que quero deixar pronto antes do inverno. Maltratar morador de rua é condená-lo a ficar na rua, condená-lo à rua eterna", afirmou Greca.

Questionado a respeito da alegada agressão a um deles, disse lamentar o ocorrido. "Não tive conhecimento, lamento muito, mas não é a ideia nossa. Pelo contrário, o serviço social está todo na rua", falou.

"A rua não é um espaço de moradia, mas um espaço transitório. Temos que trabalhar com essa perspectiva", disse a presidente da Fundação de Ação Social (FAS) da prefeitura, Larissa Marsolik. "Mas a população de rua não tem que ser limpa da cidade. E a limpeza da rua XV de Novembro não tem a ver com isso. É um direito permanecer morando na rua, mas é dever do estado fazer a política adequada [de resgate social]."

Os moradores de rua ganharam os holofotes na campanha eleitoral após Greca, então candidato, dizer às vésperas do primeiro turno que vomitara ao sentir o "cheiro de pobre" de um morador de rua que ajudou a resgatar, quando jovem. Depois, ele se desculparia.