Operação Lava Jato

Petistas orientam militância a evitar tom eleitoral em ato e evitar punição a Lula

Janaina Garcia

Do UOL, em Curitiba

  • André Lucas/UOL

    Apoiadores de Lula em Curitiba: sem menção a 2018

    Apoiadores de Lula em Curitiba: sem menção a 2018

A orientação para que a militância petista se manifestasse sobre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como alvo de perseguição política da Operação Lava Jato, e não como pré-candidato às eleições de 2018, marcou, nesta quarta-feira (10), o ato de apoio de movimentos sociais, centrais sindicais e políticos no centro de Curitiba. Os manifestantes se concentraram na praça Santos Andrade, em frente à sede histórica da UFPR (Universidade Federal do Paraná), em torno de 20 mil pessoas, segundo a Frente Brasil Popular, e 4 mil, segundo a Polícia Militar.

Até perto do encerramento do depoimento de Lula ao juiz federal Sergio Moro, no bairro do Ahú, já perto das 17h, integrantes da executiva nacional do PT, políticos de partidos aliados e dirigentes sindicais, como já de véspera, mantinham o mistério sobre a presença do ex-presidente, ali, no final do dia, a exemplo da véspera. Mensagens que pudessem ter alguma conotação eleitoral – como "Lula 2018" --- eram mais presentes, por exemplo, em faixas vendidas por ambulantes.

Nos gritos do público e nas manifestações de congressistas, as mensagens contra o presidente Michel Temer (PMDB) se dividiam –desde os sequenciais "Fora Temer" a críticas de que o peemedebista faz um "governo machista, cínico". Ainda entre o público, algumas placas isoladas de "Volta, Dilma" eram eventualmente erguidas em apoio à ex-presidente Dilma Rousseff.

Em entrevistas ao UOL, no entanto, alguns dos dirigentes explicaram que houve a orientação para que faixas e mensagens de "Lula presidente" ou "Lula 2018" fossem evitados a fim de que o ex-presidente não pudesse ser responsabilizado futuramente por propaganda eleitoral antecipada. O próprio Lula tem anunciado o desejo de concorrer ano que vem à Presidência.

Lula pode mentir, mas não pode usar depoimento como palanque


"Estamos todos preocupados com isso [eventual responsabilização por propaganda antecipada]. Se estão lançando mão até de processos judiciais carentes de provas para tirá-lo da jogada, imagine então agindo nesse sentido. Pedimos que a militância e a quem discursa que não falem em eleição, porque tentarão usar isso, depois, para inviabilizar a candidatura dele", afirmou o senador Humberto Costa (PT-PE), líder da minoria.

Para a senadora Fátima Bezerra (PT-RN), "é razoável essa cautela" de orientar que se evite o tom eleitoral. "Ainda mais pela posição em que ele tem aparecido nas pesquisas de intenção de voto mais recentes e em meio a esse processo de perseguição pelo qual o ex-presidente vem atravessando. Pedimos que a essência do ato de hoje seja mesmo a solidariedade a ele", disse a parlamentar. Se o petista falaria à militância após o depoimento a Moro? "Espero que sim, até para ele agradecer ao gesto de cada um que veio aqui hoje", resumiu.

Membro do diretório estadual do PT no Paraná, o ex-deputado federal Ângelo Vanhoni, no entanto, enfatizou que "é um equívoco que vejam qualquer conotação eleitoral no ato". "Isso é um desagravo ao Lula e um ato de defesa aos trabalhadores que o Lula representa", definiu. Sobre o mistério sobre a ida do petista à praça, Vanhoni justificou: "Sabe-se que o ex-presidente corre muito risco em uma situação dessas, dada a intolerância que já se demonstrou em Curitiba em relação a ele. Lula não quer conflito nem violência, e nós não queremos que isso ganhe uma conotação de candidatura de forma alguma", disse.

"O ato na praça extrapola o PT, tanto que há parlamentares de outros partidos presentes e discursando. Mas tivemos a preocupação de que esse não fosse um ato de campanha –tanto é que nem todos os que estão no palco necessariamente apoiaram uma candidatura lulista à Presidência", enfatizou o presidente do PT paranaense, deputado federal Ênio Verri. Se o ato era mais de solidariedade a Lula ou de oposição a Temer? "Não tem como separar as coisas, é dialético: se é a favor de Lula, necessariamente é contra esse governo", concluiu Verri.

Indagado sobre a militância da CUT presente ao ato –boa parte, do próprio Paraná --, o presidente nacional da CUT, Vagner Freitas, negou que a central tenha dado qualquer tipo de ajuda de custo aos manifestantes. "Estão todos aqui por amor e solidariedade. Não seríamos nem idiotas de fazer isso para o Ministério Público nos responsabilizar depois", afirmou.

Especialista veta "palanque" em depoimento de Lula

 A conduta dos petistas vai na mesma linha do que disse o advogado criminalista Francisco de Paula Bernardes Junior durante transmissão ao vivo do UOL.

Para Bernardes Junior, o réu também não deve se utilizar dessas premissas para fazer do depoimento um palanque político. No caso, o juiz que conduz o interrogatório tem papel fundamental ao não limitar a defesa do réu, mas, ao mesmo tempo, se ater às denúncias do processo.

"O réu tem liberdade de refutar acusações por meio de todas as possibilidades que ele tenha, mas obviamente que, saindo muito objeto do processo, utilizando esse momento para um eventual palanque político, [o juiz] não deve cerceá-lo, mas trazer para a causa [do interrogatório]", informou. 

 

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