Temer reclama das perguntas da defesa de Cunha: "Eduardo tentou me fustigar"

Daniela Garcia

Do UOL, em São Paulo

  • Ueslei Marcelino/Reuters

Durante conversa com o presidente Michel Temer (PMDB) no Palácio do Jaburu em março, Joesley Batista, dono da JBS, perguntou como estava a relação do presidente com o ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB). Ele reclamou do conteúdo das perguntas da defesa do colega de partido que o arrolou como testemunha. "O Eduardo tentou me fustigar", disse. O diálogo está no áudio divulgado pelo STF (Supremo Tribunal Federal) nesta quinta-feira (18).

Dentre os questionamentos estavam perguntas sobre a bancada do PMDB na Câmara, alianças do partido, indicações para a presidência da estatal Furnas e para a vice-presidência da Caixa, dentre outros.

"O Eduardo tentou me fustigar, né? Você viu?", disse Temer a Joesley, que afirmou desconhecer o assunto. "O juiz [Sergio] Moro indeferiu as 21 perguntas dele que não tem nada a ver com a defesa dele", completou o presidente. 

Ouça na íntegra a conversa entre Temer e Joesley

Em 28 de novembro do ano passado, o juiz federal Sergio Moro, da 13ª Vara Criminal, vetou 21 das 41 perguntas enviadas pela defesa de Cunha para que Temer respondesse como testemunha do ex-deputado.

O magistrado afirmou na época que as questões não tinham "pertinência" com a ação penal na qual Cunha é réu em Curitiba. Moro também entendeu que 13 questões foram "inapropriadas", sob a justificativa que "não há qualquer notícia do envolvimento do Exmo. Sr. Presidente da República nos crimes que constituem objeto desta ação penal".

O deputado federal cassado e ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha foi condenado, em março deste ano, a 15 anos e quatro meses de prisão por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. 

Cunha está preso desde 19 de outubro do ano passado no âmbito da Lava Jato e, atualmente, está no Complexo Médico-Penal em Pinhais, na região metropolitana de Curitiba.

Temer pediu acesso a áudios

A gravação divulgada pelo STF foi entregue a Temer, que pediu ao Supremo acesso aos áudios.

Mais cedo, o STF havia autorizado a abertura de inquérito contra o presidente. A decisão de abrir uma investigação contra Temer foi tomada pelo ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no Supremo. O pedido foi feito pela PGR (Procuradoria-Geral da República). A partir de agora, o presidente passa a ser formalmente investigado.

Veja a íntegra do pronunciamento de Temer no Planalto

No meio da tarde, Temer fez um pronunciamento no Palácio do Planalto e negou que vá renunciar após o escândalo. "Não renunciarei. Repito, não renunciarei. Sei o que fiz e sei a correção dos meus atos. Exijo investigação plena e muito rápida para os esclarecimentos ao povo brasileiro. Essa situação de dubiedade ou de dúvida não pode persistir por muito tempo", disse o presidente.

Em sua fala, Temer não cita a questão do procurado, mas diz que "em nenhum momento autorizei que pagassem a quem quer que seja para ficar calado. Não comprei o silêncio de ninguém, por uma razão singelíssima: exata e precisamente porque não temo nenhuma delação". "Não preciso de cargo público nem de foro especial, nada tenho a esconder, sempre honrei meu nome: na universidade, na vida pública, na vida profissional, nos meus escritos, nos meus trabalhos, e nunca autorizei, por isso mesmo, que usassem meu nome indevidamente. E por isso quero registrar enfaticamente que a investigação pedida pelo STF será território onde surgirão todas as explicações, e, no Supremo, demonstrarei não ter nenhum envolvimento com esses fatos", completou Temer.

Entenda as acusações

Joesley Batista, um dos donos da JBS, encontrou Temer no dia 7 de março no Palácio do Planalto. O empresário registrou a conversa com um gravador escondido. Batista disse ter contado a Temer que estava pagando ao ex-deputado federal Eduardo Cunha e ao lobista Lúcio Funaro para ficarem calados. O presidente, segundo o empresário, responde: "Tem que manter isso, viu?". No entanto, com os áudios disponibilizados hoje, não é possível concluir se Temer se refere aos pagamentos.

Em nota publicada ontem, Temer confirmou o encontro, mas disse que "jamais solicitou pagamentos para obter o silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha" e negou ter participado ou autorizado "qualquer movimento com o objetivo de evitar delação ou colaboração com a Justiça pelo ex-parlamentar".

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