Operação Lava Jato

Longe dos holofotes, irmã ditava estilo de Aécio e neutralizava ameaças ao clã

Túlio Rezende

Colaboração para o UOL, em Belo Horizonte

  • Cristiane Mattos/Reuters

    Andrea Neves chega ao IML para fazer exame de corpo de delito após ser presa

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Andrea Neves, irmã do senador Aécio Neves (PSDB-MG), é tida por muitos como quem mais bem soube se fundir ao DNA político do avô Tancredo Neves (1910-1985).

Presa pela PF (Polícia Federal), nesta quinta-feira (18), em sua casa, na região metropolitana de Belo Horizonte, é acusada de pedir dinheiro para o empresário Joesley Batista, um dos donos da JBS, em nome do irmão.

O dinheiro foi dado a Frederico Pacheco de Medeiros, primo de Aécio, que teria sido filmado recebendo os R$ 2 milhões. Fred, como é conhecido, também foi preso.

A "primeira irmã", como ficou conhecida em Minas Gerais quando Aécio governou o Estado (2003-2010), notabilizou-se pela preocupação em não se notabilizar. Atuou longe dos holofotes que recaíam invariavelmente em seu irmão mais famoso, mas concretou a fama de ter conduzido com precisão cirúrgica a carreira política do tucano.

Nascida em 1959, em Belo Horizonte, Andrea é descrita como possuidora de inteligência acima da média e apontada como a principal mentora da carreira do irmão mais novo e agora afastado do cargo pelo STF (Supremo Tribunal Federal). O ditado mais falado em Minas Gerais versa sobre o fato de ela, ao contrário do irmão, nunca ter precisado de votos para possuir poder e influência. Com formação de jornalista, fez parte de todas as campanhas eleitorais de Aécio.

Recentemente, foi tida como uma das mulheres mais influentes do país. Arguta, fez fama de ter a capacidade de conseguir entender rapidamente as fraquezas de adversários e retirá-los do caminho. Muito bem informada, dizem ter se valido de uma rede baseada em sistema de monitoramento de informações e cruzamento de dados. A parafernália virtual teria sido desenvolvida durante a gestão do irmão à frente do governo estadual. 

Reprodução
Andrea Neves, irmã de Aécio Neves, é fichada pela polícia em Belo Horizonte
Ao menor sinal de perigo ao sobrenome Neves, diziam que ela estava pronta para contragolpear e neutralizar a ameaça. Soube, com a mesma maestria, atrair para seu lado lideranças políticas que se mostraram fiéis ao clã.

Andrea começou na política ao atuar ativamente no movimento estudantil, no final da década de 1970, quando participou de campanhas para anistia a exilados. Essa época ficou marcada na vida da jovem com o episódio conhecido como o atentado do Riocentro, no Rio de Janeiro. Ao chegar para as comemorações do Dia do Trabalho, em 1981, ela se deparou com um homem ensanguentado, com as vísceras expostas. Com auxílio do então namorado e um bombeiro, levou o homem a um hospital.

No dia seguinte, ficou sabendo que o ferido era o capitão Wilson Machado, um dos que estavam no interior do carro onde uma bomba explodiu. Como se verificou na sequência, o explosivo fora usado para simular um ataque de grupos subversivos de esquerda a militares.

Andrea atuou em jornais e revistas do Rio de Janeiro, onde morava, antes de se transformar na figura emblemática e misteriosa em torno do irmão.

Enquanto Aécio buscou criar a marca de ser um político conciliador e aberto ao diálogo, Andrea enveredou na tentativa de velar pela aura de administrador eficiente e capaz de Aécio. Nem que para isso tivesse que mostrar, com obsessão, sua força na coxia.

O sucesso da dobradinha Aécio/Andrea delineou-se com mais clareza após a chegada do tucano ao posto de governador de Minas Gerais. A partir daí, a onipresença de Andrea, que formalmente ocupava apenas a presidência do Servas (Serviço Voluntário de Assistência Social), foi sentida de maneira mais contundente nos bastidores.

"A principal função dela na carreira de Aécio foi essa articulação estratégica de como premiar apoiadores ou punir detratores, na imprensa, e adversários, na política. É uma personagem que, mesmo para quem é da área, é um pouco obscura. Com uma imagem pública muito pouco conhecida, com uma vida pessoal bastante discreta, que prezou por ser uma força às escuras mais do que às claras", disse uma fonte ao UOL.

"Eu a comparo a Sérgio Motta [1940-1998 - ministro das Comunicações do governo Fernando Henrique Cardoso. Foi considerado o principal articulador político de FHC com o Congresso], que era quem controlava os dados do governo que se referiam ao Parlamento, ou seja, qual parlamentar estava na base de apoio, ou não, e como cada um seria tratado pelo governo. Ou seja, o velho 'toma lá, dá cá'", complementou.

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Equipes comandadas por ela viviam sob tensão pela fama de ela não lidar bem com erros de terceiros.

Na ótica dos inimigos, a irmã do tucano atuava com a presteza de um censor da ditadura em redações de jornais, rádios e TVs locais para filtrar as informações alusivas ao então governador. Calcada pelo poder de comandar a torneira de onde vertiam as verbas publicitárias do governo estadual, Andrea se fez ouvir em boa parte da mídia local.

Em mais de uma vez, demissões de profissionais da imprensa mineira, que supostamente não coadunavam com a cartilha aecista, foram carimbadas como tendo as digitais dela. A busca incessante pela blindagem do irmão governador foi feita diuturnamente e passava pelos jornais de maior tiragem, chegando aos de menor expressão.

"A gente aqui sabe bem como é a dependência que a imprensa mineira tem do investimento estatal. Assim, ela exerceu alto grau de influência, nos vários meios de comunicação, inclusive no RH dessas empresas, com o encaminhamento do que poderia ser dito ou não e com eventuais punições a quem não rezava pela cartilha ditada por ela", disse uma fonte que não quis ser identificada.

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Nessa toada, o jovial e dinâmico irmão, visto como bom gestor que conseguiu sanear as dívidas do Estado, passou a governar com altos índices de popularidade. A imprensa local pouco incomodava a administração tucana. Credita-se esse cenário ao olhar vigilante de Andrea. Nascia, assim, o embrião da candidatura presidencial de Aécio, que ocorreu em 2014. 

As vozes que se insurgiram contra o tratamento que Andrea dispensava à imprensa e aos adversários precisaram usar canais alternativos, como as redes sociais, para publicar vídeos e reportagens em desfavor dela e do irmão governador.

Mesmo após Aécio ter saído do governo de Minas Gerais, Andrea continuou influindo diretamente na administração do sucessor, o também tucano Antonio Anastasia.

Recentemente, ela postou um vídeo no qual se mostrou indignada com acusações feitas por um delator da Odebrecht, no âmbito da operação Lava Jato, acusando que ela teria supostamente recebido dinheiro de propina, em conta no exterior, mas destinado a Aécio Neves. No vídeo, Andrea, além de classificar a denúncia como mentirosa, emocionou-se. Em seguida, lançou a pergunta: "Por que tanto ódio, tanta mentira e tanta irresponsabilidade?".

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