Petistas alvo da Lava Jato não enriqueceram ilicitamente, diz Gleisi Hoffmann

Bernardo Barbosa

Do UOL, em Brasília

  • Lula Marques/Agência PT

    Gleisi Hoffmann ao lado de Lula e Rui Falcão, logo após ser eleita presidente do PT

    Gleisi Hoffmann ao lado de Lula e Rui Falcão, logo após ser eleita presidente do PT

Neste sábado (2), ao fim do congresso nacional do PT, em Brasília, a senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) foi eleita a primeira mulher presidente do partido. Em entrevista ao UOL após a vitória, ela disse que os petistas que foram alvo da Operação Lava Jato não enriqueceram ilicitamente e, em muitos casos, não tiveram direito ao devido processo legal. "Nós tivemos recursos de campanha que estão sendo envolvidos nesse processo pela forma como é o financiamento das campanhas eleitorais no Brasil", afirmou. Ela própria é ré em processo decorrente da operação, e nega ter cometido irregularidades.

Segundo Gleisi, o PT está em fase de reaproximação com os movimentos sociais e buscará alianças programáticas para as próximas eleições --nas quais o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva deverá ser mais uma vez o candidato do partido. Depois de anos em que o PT buscou o centro político para se eleger e governar, a senadora afirma que há uma "luta aberta de classes" no Brasil e que é necessário "disputar consciências" para que seja possível fazer parcerias à esquerda. A seguir, leia os principais trechos da entrevista.

UOL - A senhora comentou em seu discurso sobre a juventude do PT e sobre se aproximar das ruas. A impressão é de que o partido não quer falar tanto dos seus erros e contornar isso com ações. Isso está relacionado? Há ações que o partido deve fazer para recuperar a militância nas ruas?
Gleisi Hoffmann - Nós tivemos duas fases importantes de relação com os movimentos sociais na nossa existência. A primeira fase foi antes de sermos governo. O PT foi um partido político construído a partir dessas lutas e para representá-los. Viramos governo, nós levamos para o governo essa experiência. Tanto que nós fizemos inúmeras conferências setoriais para discutir políticas públicas de vários movimentos, e colocamos em prática políticas públicas importantes para esses setores. Mas foi uma relação muito institucional. O partido se afastou um pouco, até porque seus quadros foram para o governo. E agora nós estamos numa fase de retomada, de aproximação política.

UOL - O PT é muito criticado por não condenar claramente políticos do partido que são condenados judicialmente. Isso é algo que precisa mudar no partido?
Gleisi - Nós temos que avaliar os casos de condenação. Estamos fazendo uma denúncia de que a Operação Lava Jato foi tendenciosa desde o início, e que teve foco no PT, na desconstrução de suas lideranças, de seu líder maior, o Lula. Grande parte desses processos não observou o devido processo legal. Não tem provas concretas, e mesmo assim as pessoas foram processadas, denunciadas. A gente questiona isso.

O pessoal nosso que está sendo questionado não é o pessoal que roubou, que enriqueceu ilicitamente, que guardou dinheiro no exterior, não é isso. Nós tivemos recursos de campanha que estão sendo envolvidos nesse processo pela forma como é o financiamento das campanhas eleitorais no Brasil. Eu acho que nosso erro foi não ter forçado uma reforma política e eleitoral para mudar isso, para tirar financiamento de empresas, que agora a gente tem. Mas não dá para sair condenando muitos companheiros que, na realidade, não cometeram crimes como a imprensa mostra ou como setores da Justiça estão condenando. É muito sério isso.

O PT tem uma responsabilidade muito grande com o povo brasileiro, com a transparência, com o combate à corrupção. Toda a legislação que dá base a essas operações foi feita nos governos do PT. O PT tem esse compromisso, e tem um compromisso principal com o povo brasileiro e as lutas sociais. O que nós estamos vendo no Brasil hoje é uma luta aberta de classes, onde a elite brasileira não tem responsabilidade com a maioria do povo, e usa subterfúgios inclusive como esses para criminalizar o PT e suas lideranças.

UOL - A senhora defendeu no congresso do PT pautas como a democratização dos meios de comunicação e a reforma tributária, e citou a luta de classes. O PT está voltando a ter um discurso mais duro, como tinha antes de chegar ao governo?
Gleisi - É uma consequência do que nós estamos vivenciando no Brasil. Quando chegamos ao governo, nós tínhamos uma visão de que o Estado era neutro, republicano, que ele podia ser voltado para o interesse da maioria. Tanto que nós colocamos vários programas populares em prática. Fizemos com que o povo pudesse ter mais renda, um período de maior emprego. E nós estamos vendo agora que não é isso. Tem uma aristocracia estatal e tem uma classe dominante no Brasil que está reagindo a essas medidas que foram tomadas. Na primeira crise econômica, eles estão disputando os recursos orçamentários. Quando faz uma reforma da Previdência, não é para melhorar a vida do povo, é para retirar o mínimo de proteção social que você tem para colocar para os juros.

UOL - Mas essa classe não existiu sempre?
Gleisi - Essa classe sempre existiu, nós conseguimos vencê-los nas eleições. E achávamos que nós tínhamos minimamente uma burguesia que tinha uma visão de desenvolvimento nacional, que tinha projeto de nação. Acabamos descobrindo que nós não temos isso. A burguesia não está preocupada com o povo de seu país, está preocupada com ela. Quando dá a crise, ela cuida dela. Isso ficou claro agora nesse golpe da retirada da Dilma, na questão das reformas.

UOL - O PT fez alianças com vários desses setores durante seus governos. E Lula falou na quinta (1º) que 2018 já começou. Na eleição de 2018, as alianças do PT vão ser diferentes das outras eleições?
Gleisi - Vão ser alianças com base programática. É óbvio que um programa de governo não é só o programa do PT. Nós vamos procurar trazer setores da centro-esquerda para fazer alianças, setores da esquerda, para podermos ter um programa que dialogue com a população brasileira. E nós temos que ganhar isso na disputa da consciência das pessoas. É isso que vai nos dar base de fazer uma aliança mais ampla ou menos ampla. Quando a gente fala que precisa preparar uma boa chapa de deputados federais para ter um núcleo que dê governabilidade no Congresso e que faça essas reformas, e quando nós falamos que tem que fortalecer quem faz a interlocução com os movimentos sociais e com a sociedade civil organizada, nós estamos falando dessa disputa. De mentes, de entendimento, para que a gente tenha base para fazer uma aliança política que avance mais em um programa de governo.

UOL - Uma aliança com o PMDB poderia voltar a acontecer?
Gleisi - Acho que não temos condições de falar de partidos, nós podemos falar de pessoas. O PMDB tem Roberto Requião no Paraná, que foi um grande aliado nosso e é um grande aliado. Não posso dizer que ele não vai ser um aliado nosso, e é do PMDB. Então eu acho que a gente tem que olhar muito as condições do partido em cada Estado. Como a gente não tem partidos nacionais como o PT --tinha o PSDB que parece que agora não vai mais ter, está se desmilinguindo, o PMDB sempre foi uma federação-- nós temos que ter critérios em relação a isso. Nós temos muitas lideranças no PMDB que têm posições mais progressistas, e que podem ajudar em um avanço programático no Brasil.

UOL - Como a senhora acha que o processo ao qual responde na Lava Jato pode afetar sua presidência?
Gleisi - Eu respondo um processo. Não estou culpada, não estou condenada, e vou fazer a minha defesa. Eu acho que o fato de eu responder um processo ou o Lula responder processo, ou outros membros do PT responderem processo, não pode afetar mais do que já foi afetada a imagem do PT. Acho que a minha responsabilidade é me defender, mostrar que não tenho culpa nisso, que não cometi nenhum ilícito, e defender o PT de todos os ataques que ele está recebendo.

UOL - Como é ser a primeira mulher a presidir o PT em um momento em que as questões de gênero estão em evidência?
Gleisi - É uma grande responsabilidade, mas também mostra a importância que o PT dá à questão de gênero e empoderamento das mulheres. Nós saímos desse congresso com uma resolução de que o preenchimento dos cargos nas direções partidárias é paritário, ou seja, 50% a 50%. E o partido elege a primeira mulher para presidi-lo. Nós não temos nenhum outro partido no Brasil que tenha um compromisso tão efetivo em termos de cotas e em termos de direção.

Claro que a minha responsabilidade é muito grande, porque há uma expectativa das mulheres petistas e também das mulheres da esquerda, da centro-esquerda, em relação à minha presidência. Então, eu tenho muita responsabilidade com a luta de gênero e o empoderamento das mulheres.

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