Opinião: Governo Michel Temer se assemelha à série Walking Dead

Venceslau Borlina Filho

Do UOL, em São Paulo

  • Adriano Machado/Reuters

    O presidente Michel Temer

    O presidente Michel Temer

Único presidente brasileiro acusado de corrupção durante o exercício do mandato, Michel Temer (PMDB) ganha fôlego para seguir com o seu governo. A principal divergência, porém, é se ele chega até o final do mandato, em 31 de dezembro de 2018.

Essa foi a avaliação de cientistas políticos ouvidos pelo UOL após a Câmara dos Deputados barrar na noite desta quarta-feira (2) a denúncia contra Temer e o prosseguimento da investigação para o STF (Supremo Tribunal Federal).

O presidente é acusado pela PGR (Procuradoria-Geral da República) de receber propina dos donos do frigorífico JBS, em troca de benefícios concedidos pelo governo. Uma mala com R$ 500 mil chegou a ser entregue a um dos interlocutores de Temer, o ex-deputado Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR). Ambos são alvos de inquérito e negam todas as acusações.

"O governo Temer é um governo que surpreende. É igual à série Walking Dead. Quando você pensa que está sendo enterrado, ressurge e ganha sobrevida para continuar", disse o cientista político Ricardo Wahrendorff Caldas, professor da UnB (Universidade de Brasília), referindo-se à série sobre mortos-vivos exibida no Brasil pelo canal FOX.

Deputado Aureo dá voto que garante vitória a Temer

Para ele, porém, Temer não conclui o mandato em razão de outras denúncias que poderão surgir, como o envolvimento de pessoas apontadas como receptoras de propina destinadas ao presidente. O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, também deve apresentar em breve denúncia contra Temer por obstrução da justiça.

"Não há dúvida de que o governo Temer ganha uma sobrevida com essa votação, mas ele não deve chegar até o fim porque ainda há muita investigação a ser feita e delações que poderão complicar o presidente", disse ele.

Entre as delações que vêm sendo negociadas pelo Ministério Público e que podem atingir o presidente estão a do ex-deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-Rj) e a do operador do carioca, Lucio Funaro. Uma delação de Rodrigo Rocha Loures já foi aventada, mas a defesa do ex-assessor de Temer nega que ele tenha interesse em fazer colaboração premiada.

Para outro cientista político, Temer ganha legitimidade com a votação e, pelas reações públicas, consegue chegar ao final do mandato. "A sua sobrevida está ligada aos interesses da política. Venceram aqueles que apostaram na estabilidade política e econômica", disse João Paulo Machado Peixoto, também professor da UnB.

O especialista afirmou ainda que a investigação contra o presidente só está sendo "adiada". "Essa votação não significa que o presidente está sendo inocentado. Ele apenas não será julgado agora. A denúncia é forte e terá prosseguimento quando ele deixar a Presidência", disse.

Temer agradece decisão da Câmara

Votação

A sessão que decidiu o futuro do presidente Michel Temer começou às 9h desta quarta com a leitura do relatório que pedia o indeferimento da denúncia. Em seguida, a defesa do peemedebista apresentou as razões para o não-prosseguimento do caso.

A sessão foi encerrada e uma segunda foi aberta no começo da tarde. Durante a orientação de votos pelas bancadas partidárias, houve bate-boca e empurra-empurra entre deputados. No final da tarde, os deputados começaram a votar.

O resultado pró-Temer foi obtido após ofensiva do Palácio do Planalto a partidos da base. No último mês, o presidente intensificou as reuniões com deputados e senadores aliados, além de ampliar a liberação de emendas parlamentares, verba do Orçamento destinada a obras e projetos indicados pelos deputados.

Entre as estratégias adotadas para conseguir barrar a denúncia, o governo incentivou ainda que os partidos da base aliada promovessem uma série de mudanças de membros titulares e suplentes da CCJ (Comissão de Constituição e Justiça). A medida deu certo, e na Comissão, o relatório aprovado pedia a rejeição da investigação.

O parecer vencedor, do deputado Abi-ackel (PSDB-MG), foi justamente o que esteve em votação nesta quarta e recebeu aprovação da maioria dos 531 deputados da Câmara.

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