Votação na Câmara expõe disputas internas no PSDB e liga alerta para 2018

Bernardo Barbosa e Mirthyani Bezerra

Do UOL, em São Paulo

  • Wilton Júnior/Estadão Conteúdo

    Tasso Jereissati (esquerda) e Aécio Neves se reúnem em Brasília

    Tasso Jereissati (esquerda) e Aécio Neves se reúnem em Brasília

Aliado de primeira hora do governo de Michel Temer (PMDB), o PSDB rachou praticamente ao meio nesta quarta-feira (2) na votação da Câmara sobre a denúncia contra o presidente por corrupção passiva. A falta de coesão partidária resumiu publicamente o embate de lideranças que está corroendo o partido nas últimas semanas, seja pelo apoio ao presidente da República, seja pela disputa interna pelo comando da sigla e pela vaga na corrida presidencial de 2018.

A votação na Câmara expôs um PSDB dividido entre os que querem permanecer no governo Temer, liderados pelo senador Aécio Neves (MG), e os que querem sair, puxados pelo também senador Tasso Jereissati (PSDB) e pelo governador de São Paulo Geraldo Alckmin (MG), que defende que os cargos do PSDB no governo sejam entregues após a votação de reformas como a previdenciária e a política.

Tasso assumiu interinamente a presidência da sigla após Aécio se licenciar para cuidar de sua defesa no inquérito do STF (Supremo Tribunal Federal) que apura, a partir das delações da JBS, se ele cometeu crimes de corrupção passiva e obstrução da Justiça. No entanto, o cearense teve de ser convencido pelo mineiro a ficar no cargo após ameaçar sair se o PSDB continuasse ao lado de Temer.

Com Alckmin, a disputa de Aécio vem desde o último ciclo presidencial. A rivalidade entre os dois tem aumentado exponencialmente à medida em que a eleição de 2018 se aproxima. Ambos lutam para representarem o PSDB na disputa e têm usado seus redutos eleitorais para ganharem força.

A divisão das bancadas estaduais na votação de quarta-feira comprovou a polaridade: cinco dos seis deputados de Minas Gerais defenderam a rejeição da denúncia (um se ausentou na votação), em coro com o discurso de Aécio. Já entre os paulistas, 10 se alinharam a Alckmin e votaram pelo prosseguimento da investigação, deixando apenas uma deputada da bancada do lado pró-Temer.

Para Talita São Thiago Tanscheit, doutoranda em ciência política no Iesp-Uerj (Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Rio de Janeiro), a disputa interna deixa o PSDB em segundo plano no cenário político atual e afeta o caminho tucano rumo a 2018.

"As denúncias contra Aécio deixaram o partido sem uma liderança única para conduzir a legenda no atual momento político", avalia. "Eu não diria que essa disputa no PSDB fere muito sua imagem pública. É mais nociva com vistas à eleição presidencial, que está muito embaralhada. O consenso na população é que nenhum partido presta".

Para o deputado federal Otávio Leite (RJ), as disputas internas precisam cessar, para que o PSDB possa se "reaglutinar", escolher o candidato de 2018 e acelerar suas campanhas.

"Há uma ampla maioria no partido que defende que tenhamos até dezembro o nome do nosso candidato a presidente. Nas vezes passadas, o erro de decidir em cima da hora atrapalhou o desenvolvimento das campanhas, de todas as campanhas", disse. "Considerando que somos unânimes em prol das reformas que o país precisa, vejo um horizonte possível para a reaglutinação da bancada".

"Duas almas" podem ajudar o PSDB ou criar um novo PMDB

Apesar da crise exposta, o cientista político Vitor Marchetti, professor da UFABC (Universidade Federal do ABC), acredita que as divergências de agora poderão ajudar o PSDB se ele souber usar a variedade de opiniões atuais no discurso de 2018.

"Em 2018, o PSDB pode dizer tudo", afirmou. "O cálculo dialoga com o muro. De um lado, você tem quem defende a ideia da estabilidade política, econômica, e outro dialogando com a agenda do combate à corrupção."

O perigo, porém, está em transformar o partido em uma sigla de várias ideologias diferentes. Para Michel Zaidan Filho, cientista político e professor titular da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), o PSDB mostrou "duas almas" no processo sobre Temer: "A moralidade pública e o fisiologismo, o clientelismo de quem não larga os cargos".

"O PSDB é um partido que vai ser quebrar pela metade: terá os que vão ficar até o fim com Temer e os que vão mostrar para a população que são íntegros e corretos. Ele não vai conseguir resolver esse dilema", afirmou Zaidan Filho. "Está parecendo com o velho PMDB, que tem vários partidos dentro de um só."

Para o professor da UFPE, com o PSDB em tal situação, "quem está rindo à toa" é o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), primeiro na linha de sucessão de Temer.

"Ele posa de independente, dizendo que não suja as mãos, para capitalizar apoios e prestígios. Está em uma posição muito boa", afirmou.

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