Presença baixa de deputados na Câmara deve deixar votação da reforma política para 3ª

Gustavo Maia e Luciana Amaral

Do UOL, em Brasília

  • Pedro Ladeira/Folhapress

    André Fufuca (PP-MA), presidente interino da Câmara dos Deputados, quer colocar em pauta o texto de reforma política relatado pela deputada federal Shéridan (PSDB-RR)

    André Fufuca (PP-MA), presidente interino da Câmara dos Deputados, quer colocar em pauta o texto de reforma política relatado pela deputada federal Shéridan (PSDB-RR)

Convocada para as 16h pelo presidente da Câmara dos Deputados em exercício, André Fufuca (PP-MA), a sessão do plenário da Casa foi aberta às 16h25 desta segunda-feira (4). No entanto, a reforma política, único item da pauta, não deve ser votada.

Segundo a pauta oficial, o plenário da Câmara analisaria nesta segunda unicamente a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) 282/16, que determina a cláusula de barreira em eleições proporcionais e o fim das coligações partidárias. A matéria foi relatada pela deputada Shéridan (PSDB-RR) em comissão especial na Câmara e teve parecer aprovado em 23 de agosto. Desde então, aguarda consenso para ser votada no plenário.

Para que a sessão fosse aberta, era necessária a presença de, ao menos, 51 presentes no parlamento - eram 101 às 17h50. Mas como são necessários ao menos 308 votos --60% dos 513 deputados-- para a aprovação de uma PEC na Câmara, o presidente da Casa geralmente só inicia a votação das mudanças constitucionais com quórum superior a 470 parlamentares no plenário, número considerado quase inalcançável para uma sessão de segunda-feira.

Apesar de Fufuca convocar sessão para esta segunda, a expectativa dos deputados na semana dos deputados já era que a eventual votação da proposta de reforma política só ocorresse nesta terça (5). A reportagem do UOL apurou que o objetivo do presidente interino da Câmara ao convocar uma sessão deliberativa para hoje era "chamar" deputados que viajaram para os seus Estados de origem de volta para Brasília, para obter quórum alto na sessão desta terça e evitar uma Câmara esvaziada em semana de feriado.

Para as 18h desta segunda, o maranhense convocou uma reunião dos líderes partidários da Câmara, que vai ocorrer no gabinete da Presidência da Casa. Em seguida, por volta das 21h, as lideranças devem se reunir na residência oficial do presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), que está ocupando interinamente a Presidência da República, na ausência do presidente Michel Temer (PMDB) --em visita oficial à China. O jantar foi marcado para que os parlamentares tentem mais uma vez sair do impasse quanto às propostas de reforma política em discussão no Legislativo.

Fundão e "distritão" enterrados

Enquanto os deputados tratam agora de quando conseguirão votar o texto da PEC 282/16, outra proposta de reforma, a 77/2003, que queria criar um fundo público de campanha e mudar o sistema eleitoral brasileiro para o "distritão", está cada vez mais próxima de ser enterrada.

Qualquer mudança no sistema eleitoral precisa ser aprovada até a primeira semana de outubro para já ter efetividade nas eleições do ano que vem. Porém, como PECs devem passar por dois turnos na Câmara e outros dois no Senado, os deputados já duvidam se haverá tempo hábil para colocar este projeto em pauta.

Veja abaixo as principais mudanças da PEC 282, de acordo com o texto aprovado em comissão:

  • Saem coligações. Entram federações e subfederações

Atualmente: Os partidos podem se unir tanto na esfera municipal, quanto na estadual e na federal formando as chamadas coligações. As uniões feitas nos municípios não são obrigatórias para os Estados e para a eleição presidencial. Além disso, os votos obtidos pelas coligações servem para eleger os candidatos a deputados e vereadores pelo atual sistema proporcional.

Como pode ficar: A PEC 282/2016 propõe acabar com as coligações já a partir de 2018. Como forma de substituí-las, os partidos políticos que tenham afinidade ideológica poderão se unir em grupos chamados "federações". A federação será formada antes das eleições e seus partidos membros deverão continuar atuando em conjunto ao longo dos quatro anos seguintes. Por exemplo, PMDB, PSDB e DEM poderão formar uma federação e terão de seguir os mesmos posicionamentos na Câmara o no Senado até as próximas eleições.

Dentro das federações, poderão ser formadas "subfederações". Estas serão compostas por dois ou mais partidos da federação da qual fazem parte, mas somente para o período de campanha eleitoral. Como ilustração tomando-se o exemplo dos partidos citados, o PSDB e o PMDB poderão se unir e enfrentar o DEM em um Estado ou no Distrito Federal para eleger um candidato. No entanto, após o fim da campanha, as três siglas terão de voltar a trabalhar juntas.

  • Nova cláusula de barreira

Atualmente: Todos os partidos registrados no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) --hoje são 35-- têm acesso ao fundo partidário, mas respeitando suas cotas de presença na Câmara e no Senado. Mesmo os que não têm representantes no Congresso recebem pequenas fatias.

Como pode ficar: O parecer estabelece uma cláusula de barreira para que as siglas tenham acesso aos recursos do Fundo Partidário e à propaganda gratuita no rádio e na televisão. Isto é, partidos que não alcançarem determinadas cotas, não terão direito a recursos do Fundo. A iniciativa terá exigências progressivas de 2018 até 2030 e que vão ficando cada vez mais rígidas.

Veja abaixo as principais propostas de reforma política da PEC 77/2003 que devem ser arquivadas:

  • Eleição de deputados e vereadores

Atualmente: No sistema atual, o proporcional, o candidato conta com os seus votos e com aqueles dados ao partido ou à coligação para ser eleito. Neste modelo, candidatos com poucos votos podem acabar se elegendo se parceiros de sigla tiverem obtido votações maciças, que garantiram uma cota grande de cadeiras para o partido, enquanto políticos com uma votação mais expressiva podem ficar de fora.

Como pode ficar: A partir do ano que vem, se a proposta for aprovada, os parlamentares das câmaras municipais, assembleias legislativas e a Câmara dos Deputados serão escolhidos por um modelo eleitoral majoritário, apelidado de "distritão", em que são eleitos os deputados mais votados em cada Estado. Neste modelo, não há votos em partidos.

A partir de 2022, o distritão daria lugar ao distrital misto. Nele, o eleitor dá dois votos para o Legislativo: um para o candidato do partido no distrito dele e outro para qualquer candidato do partido na cidade ou no Estado que ele mora. O candidato mais votado em cada distrito é eleito para metade das vagas na casa legislativa. A outra metade é preenchida pelos mais votados dos partidos.

  • Financiamento público de campanha

Atualmente: Só é permitido aos partidos usar valores do Fundo Partidário - fundo anual de manutenção dos partidos -, doações de pessoas físicas e recursos do próprio candidato para custear as campanhas.

Como pode ficar pela proposta da Câmara: os deputados querem criar o FFD (Fundo Especial para o Financiamento da Democracia), que seria um fundo com dinheiro público. A proposta é que o valor do Fundo seja decidido anualmente na Lei Orçamentária, pela Comissão Mista de Orçamento do Congresso. A ideia de vincular este fundo a uma porcentagem fixa da receita anual da União já foi rejeitada.

Como pode ficar pelo projeto do Senado: os senadores querem criar o Fundo Especial de Financiamento de Campanha, de R$ 2 bilhões, que usaria o dinheiro da veiculação da propaganda eleitoral gratuita.

  • Doações de pessoas físicas

Atualmente: Pessoas físicas podem contribuir com doações para qualquer candidato, desde que não ultrapasse, para cada cargo em disputa, 10% do rendimento bruto do doador no ano anterior ao da eleição. Além disso, todos os doadores têm seus nomes obrigatoriamente divulgados.

Como pode ficar: Continua o limite de 10% do rendimento bruto do doador. Esse valor, no entanto, seria limitado a 10 salários mínimos por cargo ou chapa majoritária. A ideia de o doador se manter no anonimato foi retirada do projeto.

  • Teto para gastos com campanha

Atualmente: Candidatos e partidos não têm limite mínimo ou máximo de investimento nas campanhas. Em 2014, a campanha vitoriosa de Dilma Rousseff (PT) na eleição presidencial declarou ter gastado R$ 384 milhões, em valores atualizados.

Como pode ficar: Os parlamentares querem estabelecer teto para os gastos com campanha dos candidatos. A proposta é que nas eleições para presidente da República não sejam gastos mais de R$ 150 milhões. Os limites de gastos de campanhas para governador e senador vão depender do número de eleitores em cada Estado.

  • Pesquisas eleitorais

Arte UOL
Institutos estarão proibidos de divulgar pesquisas eleitorais a partir do domingo anterior à eleição

Atualmente: Hoje, institutos de pesquisa podem divulgar suas campanhas eleitorais a qualquer momento, desde que elas estejam devidamente registradas na Justiça Eleitoral.

Como pode ficar: Se o texto da reforma for aprovado, o instituto vai ter que informar, até dez dias antes da divulgação do resultado do levantamento, o nome do estatístico responsável pela pesquisa e o número de registro do profissional no Conselho Regional de Estatística. A Justiça poderá impedir cautelarmente a divulgação dos resultados. Além disso, os institutos estarão proibidos de divulgar pesquisas eleitorais a partir do domingo anterior à data das eleições.

  • Uso de telemarketing e redes sociais nas campanhas

Atualmente: Os partidos são proibidos de usar recursos de telemarketing e fazer propaganda paga na internet (inclusive nas redes sociais) para fazer a propaganda dos seus candidatos.

Como pode ficar: Ligações por telemarketing poderão ligar para o eleitor das 9h às 20h, de segunda a sábado, desde que sejam realizadas pelo próprio comitê de campanha ou por iniciativa de pessoal do candidato. Deverá ser dada ao eleitor a opção de não receber novas chamadas. Além disso, poderá aparecer uma postagem patrocinada de candidatos no seu feed de notícias no Facebook, por exemplo. O limite de gastos para o uso desses recursos de propaganda é de 5% do teto de gastos para o cargo, ou R$ 2 milhões, o que for menor.

  • Participação das mulheres nas eleições

Atualmente: Hoje, os partidos são obrigados ter ao menos 10% da participação feminina nas suas propagandas partidárias.

Como pode ficar: Esse número deve subir para 30%. Quem descumprir tem que pagar uma multa de R$ 50 mil. Além disso, será obrigatório que todas as chapas de candidatos a prefeito, governador e presidente (e seus vices) tenham um homem e uma mulher.

  • Vaquinha online

Os partidos poderão organizar campanhas de financiamento coletivo por meio de sites, aplicativos eletrônicos e outros recursos similares, mas esses meios deverão ter cadastro prévio na Justiça Eleitoral e informar o nome completo e o CPF de cada um dos doadores, além das quantias doadas. Hoje isso não é previsto em lei.

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