À frente da Presidência, Maia prioriza pauta nacional e defende 'novo centro' para promover o DEM

Luciana Amaral

Do UOL, em Brasília

  • Foto: Cleia Viana/Câmara dos Deputados

À frente da Presidência da República desde o dia 29 de agosto por causa da viagem de Michel Temer (PMDB) à China, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), priorizou temas de cunho nacional e defendeu o surgimento de um "novo centro" para promover o DEM visando as eleições de 2018. Maia fica no comando do Palácio do Planalto até esta quarta-feira (6), quando a comitiva presidencial deve chegar a Brasília.

Ao longo dos últimos dias, Rodrigo Maia discursou em eventos e fez viagens a três Estados do Sudeste, incluindo sua base eleitoral, o Rio de Janeiro. Cada vez mais, ele tenta se descolar da impopularidade de Temer e criar a ideia de agenda exclusiva da Câmara dos Deputados, embora integre a base aliada e apoie as reformas propostas pelo governo.

Outra prioridade é atrair parlamentares dissidentes, especialmente do PSB, para o DEM. A mobilização se justifica por querer se fortalecer para as eleições de 2018, inclusive com nomes viáveis a se candidatarem ao Palácio do Planalto. Ao todo, há um grupo de nove a 15 parlamentares que querem sair do PSB e cogitam ir para o DEM. Dois deputados que já afirmaram que sairão do partido socialista, por exemplo, são Heráclito Fortes (PI) e José Reinaldo (MA).

A disputa entre o DEM e o PMDB pelo destino do ministro de Minas e Energia e deputado federal licenciado, Fernando Bezerra Coelho Filho (PE), junto ao seu pai, o senador Fernando Bezerra Coelho (PE) --ambos da ala governista do PSB--, inclusive, gerou desconforto na semana passada e passou a ameaçar a fidelidade governista da bancada do DEM na Câmara.

Pauta nacional e viagens

A semana como presidente da República em exercício na terça (29) começou com reuniões com parlamentares e governadores, entre outros, e um evento empresarial do setor de aviação. Na manhã seguinte, Maia participou de evento da Frente Nacional dos Prefeitos, onde ouviu reivindicações de políticos para os municípios que possam ser analisadas na Câmara.

No cortejo por políticos que tenham se desentendido com suas legendas e na busca por se promover junto ao DEM, Maia viajou para o Rio de Janeiro e Espírito Santo. No Rio, na quinta (31), participou de cerimônia que anunciou a construção de moradias para a população carente e de contenções em encostas na região serrana.

Ao lado do governador Luiz Fernando Pezão (PMDB), Maia falou sobre o plano de socorro ao Rio, homologado por ele na terça-feira (5). A adesão do Estado ao RRF (Regime de Recuperação Fiscal) permite a suspensão do pagamento de dívidas com a União, além de outras medidas para aumentar a receita e equilibrar as finanças fluminenses.

Celso Pupo/Estadão Conteúdo
31.ago.2017 - Ao lado de Pezão, Maia anunciou investimentos e defendeu empenho na assinatura do plano de socorro ao Rio

"O Rio não pode esperar mais", disse Maia na ocasião, cobrando empenho dos técnicos do governo federal. Durante o evento, o presidente da Câmara foi elogiado por Pezão, que o chamou de "guerreiro" e enalteceu sua disposição de dar celeridade ao processo de adesão do Rio ao RRF.

Na cadeira da Presidência da República, Maia trabalhou intensamente numa ampla articulação política para que os entraves técnicos e burocráticos fossem superados a tempo de o acordo ser homologado por ele em cerimônia no Palácio do Planalto, já que o presidente Michel Temer só retorna ao Brasil na madrugada desta quarta.

Ainda à frente do Planalto, Maia assinou Medida Provisória que liberou R$ 47 milhões em crédito extraordinário em favor do Ministério da Defesa para a manutenção das Forças Armadas no Rio.

No Espírito Santo, na sexta (1º), Maia lançou obras ao lado do governador Paulo Hartung (PMDB), que já recebeu convite do DEM para se filiar à sigla, ainda sem resposta. Hartung também recebeu convites do presidente interino do PSDB, Tasso Jereissati, e do ministro de Ciência e Tecnologia e presidente licenciado do PSD, Gilberto Kassab, para se filiar às respectivas legendas.

Em São Paulo nesta segunda (4), Rodrigo Maia discursou em evento promovido por uma revista com foco econômico e empresarial. Na ocasião, defendeu que um representante do centro terá mais chances de vencer a eleição à Presidência da República do que nomes com discursos à extrema-direita ou esquerda.

"Novo centro"

Em praticamente todas as falas recentes de Maia, ele reforçou a necessidade de se ter um "novo centro" na política brasileira que reflita um "espaço de diálogo" e se afaste dos espectros mais extremistas. Em solenidade do PCdoB na Câmara, no qual compareceu como convidado de honra, na quarta (30), o deputado do DEM disse que o "novo centro" não deve ser um ambiente em que cada um precise abrir mão de suas ideias, convicções e princípios. Para ele, deve servir como ponto de partida para um diálogo entre partidos e grupos com posicionamentos distintos.

"O centro, penso eu, daqui para a frente, é um ambiente onde as pessoas querem uma democracia forte, as instituições independentes e mais harmônicas. [...] O centro é o espaço em que o PCdoB pode conversar com o Democratas, o PSDB, o PT. Onde todos precisam dialogar para tirar o Brasil dessa grave crise política, ética e econômica que vivemos", declarou.

Apesar da fala e do fato de ter prestigiado o evento, o presidente da República em exercício estava visivelmente incomodado com o espaço apertado e o calor no salão nobre da Casa, além da presença de oposicionistas, como a presidente do PT, senadora Gleisi Hoffmann (PR), com discurso incisivo contra o governo de Temer.

DEM quer aproveitar "lacuna"

O líder do DEM na Câmara, Efraim Filho (PB), afirmou ao UOL que o DEM quer aproveitar o vazio deixado por partidos tradicionalmente de centro diante da crise política. Ele acredita que o partido poderá se transformar em uma voz do "debate de ideais e do respeito à divergência" em eleições que tendem a ser polarizadas.

"O DEM percebe que há essa lacuna, esse vazio, a ser preenchido que é a política de centro no Brasil em temas cotidianos da classe média, principalmente. [Como] a questão do estímulo ao empreendedorismo, diminuição da burocracia estatal, uma agenda relevante de segurança pública que é um ponto comum e o exercício da tolerância no país", disse.

"O que se avizinha para 2018 são políticas extremistas. De um lado, o Jair Bolsonaro [PSC] na extrema-direita. Do outro, o Lula jogando o pêndulo do discurso do PT para a extrema-esquerda, inclusive defendendo o regime de Nicolás Maduro na Venezuela. Esse espaço de centro vai ficando para ser preenchido e, sim, o DEM tem procurado ocupar esse espaço com equilíbrio, serenidade e capacidade de diálogo", acrescentou.

O presidente do DEM, senador José Agripino Maia (RN), defendeu a movimentação de Maia e disse que ele "sabe o que fazer". "Tem carta branca para fazer [as articulações]. É preciso que as pessoas que desejem vir, se o desejarem, estabeleçam contato amistoso entre os que estão [no DEM]", afirmou ao UOL.

Articulação na Câmara continua

Na quarta passada, apesar do 2º vice-presidente da Câmara, o deputado de primeiro mandato André Fufuca (PP-MA), 28, estar no comando interino da Casa, Maia não deixou o pupilo responsável por todo o encaminhamento de votações diante de matérias importantes a serem apreciadas, como o Refis --programa de renegociação de dívidas com a Receita-- e a reforma política.

Maia fez questão de comandar reunião de líderes partidários na residência oficial da Câmara, onde mora, e de monitorar toda a situação do Planalto.

Já na última segunda, com o impasse em torno da reforma política, Maia promoveu um jantar com líderes e outros deputados na residência oficial para tentar se chegar a um consenso. A expectativa era de que a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) 282/16, que determina a cláusula de barreira em eleições proporcionais e o fim das coligações partidárias, fosse votada em plenário nesta terça (5).

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