Governo mantém silêncio após general falar em intervenção militar

Luciana Amaral

Do UOL, em Brasília

O governo federal ainda não se pronunciou e permanece em silêncio quanto às declarações favoráveis a uma intervenção militar dadas pelo secretário de economia e finanças do Exército, general Antonio Hamilton Martins Mourão, na última sexta-feira (15) durante palestra promovida pela maçonaria em Brasília.

O Ministério da Defesa informou que o ministro, Raul Jungmann, não dará entrevistas sobre o assunto e não há um posicionamento oficial da pasta. O Exército falou que ainda estuda se haverá uma resposta oficial da Força.

Questionado pelo UOL sobre a fala do general Mourão, especialmente na atual crise política do governo, a Presidência da República afirmou que não comentará.

Nesta segunda-feira (18), o presidente Michel Temer (PMDB), participou da posse da nova procuradora-geral da República, Raquel Dodge, na sede da PGR. Ele discursou por cerca de seis minutos sobre a nova titular e não citou caso envolvendo o militar.

Temer deixou o evento sem falar com a imprensa. Em seguida, embarcou para Nova York, onde participará da Assembleia Geral das Nações Unidas até quarta (20).

Após o embarque, a Presidência divulgou vídeo de Temer nas redes sociais, gravado no Palácio do Jaburu, em que o peemedebista parabeniza a comunidade judaica brasileira pelo ano novo de 5.778 segundo o calendário judeu.

PT critica omissão do governo

O PT divulgou nota assinada pela presidente do partido, senadora Gleisi Hoffmann (PR), em que condena a fala de Mourão. No texto, a legenda "conclama as forças democráticas do país a repelir, com veemência, a gravíssima manifestação".

Para o partido, a fala do general "não só desrespeita os regulamentos disciplinares, mas fere frontalmente a Constituição e ameaça seriamente a democracia". De acordo com a nota, é motivo de preocupação "a omissão" do governo quanto ao assunto e o episódio necessita de providências imediatas para impedir que se repitam.

"O que o Brasil precisa é recuperar o processo democrático rompido com o golpe do impeachment; precisa de eleições diretas com a participação de todas as forças políticas, e não retornar a um passado sombrio que tanto custou superar", afirmou.

"Chegará a hora que nós teremos que impor uma solução"

A polêmica fala de Mourão aconteceu após o militar ser questionado por uma pessoa na plateia, por meio de pergunta em pedaço de papel, se não seria o momento de uma "intervenção" das Forças Armadas diante da corrupção deflagrada nos Poderes Executivo e Legislativo.

O integrante da plateia na entidade maçônica citou como exemplo a apresentação da segunda denúncia contra o presidente da República, Michel Temer, pela PGR (Procuradoria-Geral da República) e deixou claro que sua pergunta se referia a uma intervenção com o fechamento do Congresso Nacional, ou seja, "gente nova".

A pergunta lida por um mediador do evento foi: "A Constituição Federal de 88 admite uma intervenção constitucional com o emprego das Forças Armadas. Os poderes Executivo e Legislativo estão podres, cheio de corruptos, não seria o momento dessa interrupção, [corrige] dessa intervenção, quando o presidente da República está sendo denunciado pela segunda vez e só escapou da primeira denúncia por ter 'comprado', entre aspas, membros da Câmara Federal? Observação: fechamento do Congresso, com convocações gerais em 90 dias, sem a participação dos parlamentares envolvidos em qualquer investigação. Gente nova".

Mourão comentou que a pergunta era "excelente" e respondeu que, se as instituições não conseguirem solucionar o "problema político, pela ação do Judiciário, retirando da vida pública esses elementos envolvidos em todos os ilícitos", os militares terão "que impor isso".

Embora diga que não há "fórmula de bolo" para tanto, sua visão de fazer "aproximações sucessivas" coincidiria com a do Alto Comando do Exército, disse. O general ainda destacou que a "imposição não será fácil" e "trará problemas".

"Nós temos planejamentos, muito bem feitos. Então no presente momento, o que que nós vislumbramos, os Poderes terão que buscar a solução. Se não conseguirem, né, chegará a hora que nós teremos que impor uma solução. E essa imposição ela não será fácil, ele trará problemas, podem ter certeza disso aí", declarou Mourão, sem citar quais planejamento seriam.

Bolsonaro compartilha fala de militar

O deputado federal e capitão da reserva, Jair Bolsonaro (PSC-RJ), cujo nome é cogitado para candidatura à Presidência nas eleições de 2018, compartilhou em suas redes sociais o vídeo da fala de Mourão com a legenda "General Mourão e os rumos do Brasil" na postagem.

Em resposta, diversos seguidores de Bolsonaro elogiaram o posicionamento do general e pediram uma ação mais intervencionista das Forças Armadas no sistema política brasileiro.

Nesta segunda, o Exército compartilhou uma foto em comemoração do Dia da Família Militar no perfil oficial da Força no Facebook e, mais uma vez, a fala de Mourão foi exaltada.

"General Mourão faz jus a farda que veste! Parabéns pelas palavras em seu vídeo, o povo brasileiro já não aguenta mais tanta roubalheira", escreveu um internauta.

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