Donos da JBS tinham "informações bombásticas" sobre mercado, diz delegado da PF

Do UOL, em São Paulo*

  • Zanone Fraissat -28.ago.2013/Folhapress

    Wesley Batista (esq.) e Joesley Batista (dir.), donos da JBS, em foto de 2013

    Wesley Batista (esq.) e Joesley Batista (dir.), donos da JBS, em foto de 2013

O delegado Edson Garutti, da Polícia Federal, disse que os irmãos Joesley e Wesley Batista, donos da JBS, tinham "informações bombásticas" que permitiram a eles se posicionar no mercado de forma privilegiada com a divulgação da delação premiada de executivos da empresa. A declaração foi dada nesta terça-feira (10) em São Paulo, após a PF encerrar a investigação sobre o uso de informações privilegiadas pela JBS e pela FB Participações, que controla o frigorífico. 

"Eles tinham informações bombásticas, com um potencial de impacto relevante no mercado. Eles tinham informações que iam impactar o mercado, todos os agentes financeiros que tivessem acesso àquela informação se posicionariam no mercado", disse Garutti em entrevista à "GloboNews", acrescentando que eles sabiam que essas informações eram relevantes e de impacto.

Com o fim do inquérito, o resultado da investigação foi entregue ao MPF (Ministério Público Federal), que poderá apresentar denúncia, pedir novas investigações ou arquivar o caso.

Joesley e Wesley Batista são controladores do grupo J&F, do qual a JBS é a principal empresa. Os irmãos foram indiciados no dia 20 de setembro e estão presos a pedido da PF desde o dia 13 do mesmo mês, quando foi deflagrada a segunda etapa da operação Tendão de Aquiles. Ambos tiveram pedido de soltura negado no STF

Segundo comunicado da PF, Joesley e Wesley foram indiciados pelos crimes de manipulação de mercado e uso indevido de informação privilegiada, com abuso de poder de controle e administração, em razão da venda de ações da JBS pela FB Participações, controladora desta última.

Wesley também foi indiciado pelo crime de uso indevido de informação privilegiada, com abuso de poder de controle e administração, em relação à compra de contratos futuros e contratos a termo de dólares.

Caso sejam condenados, eles podem pegar penas de um a cinco anos de reclusão e pagar multa de até três vezes o valor da vantagem ilícita obtida.

Entenda o caso

O uso de informações privilegiadas teria acontecido entre abril e 17 de maio deste ano, um dia antes de ser divulgado o acordo de colaboração premiada da JBS com a PGR (Procuradoria-Geral da República). Segundo a PF, Wesley e Joesley teriam vendido ações da JBS e comprado dólares antes de ser divulgado o conteúdo da delação porque sabiam que, quando a delação viesse à tona, o mercado financeiro reagiria negativamente, as ações da JBS cairiam e o dólar subiria.

De fato, no dia da divulgação da delação, os papéis da JBS despencaram e o dólar disparou. Quem havia vendido as ações, portanto, deixou de perder muito dinheiro. Quem havia comprado dólares, teve ganhos milionários.

Com a venda antecipada das ações da empresa, os irmãos Batista teriam evitado um prejuízo potencial de R$ 138 milhões, segundo cálculos da PF. Essas perdas foram divididas com os demais acionistas --entre eles, o BNDESPar, braço de investimentos do BNDES, e pequenos investidores. Um dia após o vazamento da delação, o papel caiu 9,68%.

No dia seguinte à delação, a moeda americana teve valorização de 9%, por isso os empresários teriam lucrado milhões com a compra de contratos futuros em dólares.

Como foi a transação financeira

Segundo a PF, são investigados dois eventos separados: um envolve a venda de ações da JBS e outro, a compra de contratos de dólar.

No caso do dólar, de acordo com a polícia houve uma intensa compra de contratos de derivativos de dólares entre 28 de abril e 17 de maio por parte da JBS, fora do padrão de movimentação comum da empresa. Por meio dessa operação, eles conseguiram lucrar com a alta da moeda norte-americana.

No segundo caso, segundo a PF, Joesley determinou a venda de 42 milhões de ações da JBS que pertenciam à FB Participações, de propriedade dos irmãos Batista e uma das controladoras do frigorífico, dona de grande parte das ações. Em paralelo, Wesley determinou a compra desses papéis pela própria JBS.

Com isso, os irmãos se "livraram" de uma parte das ações, que viriam a cair de preço depois, "fazendo com que seus acionistas absorvessem parte do prejuízo decorrente da baixa das ações que, de outra maneira, somente a FB Participações, uma empresa de capital fechado, teria sofrido sozinha", de acordo com a PF.

Ao mesmo tempo, a própria JBS recomprou as ações, tirando-as do mercado e evitando que o excesso de oferta fizesse seu preço cair.

Outro lado

Em nota enviada nesta terça-feira, a JBS disse que não teve acesso ao relatório da PF e reiterou que "as operações de recompra de ações e derivativos cambiais em questão foram realizadas de acordo com perfil e histórico da companhia que envolvem operações dessa natureza". De acordo com a empresa, "tais movimentações estão alinhadas à política de gestão de riscos e proteção financeira e seguem as leis que regulamentam tais transações." 

O comunicado cita estudo da Fipecafi (Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras) segundo o qual "havia subsídios econômicos para a estratégia de derivativos cambiais adotados pela companhia; operações com derivativos fazem parte da rotina operacional da empresa; as recompras efetuadas pela JBS em 2017 são normais quando comparadas às do período imediatamente anterior; ação da JBS estava 'barata' e não há evidências de que o preço se comportou de forma distinta nos dias de recompra pela empresa."

Durante depoimento à Justiça Federal, em audiência de custódia, Wesley Batista se defendeu das acusações de ter lucrado com informações privilegiadas dizendo que "não há nenhuma atipicidade em relação ao que a companhia sempre fez".

"A JBS chegou a ter US$ 11 bilhões de dólares comprados me 2014. Então, não é verdadeiro que a companhia nunca tinha feito operação daquela magnitude".

Já Joesley disse que por ter denunciado "poderosos" acabou na prisão. "Eu fui mexer com os poderosos, com os donos do poder, e estou aqui", disse.

Também na audiência de custódia, quando o juiz o informou sobre a ordem de prisão, Joesley disse que Janot praticou um "ato de covardia". "Depois de todas as informações que passamos."

*Com Reuters

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