Operação Lava Jato

Contador visitou suposto laranja de Lula em hospital duas vezes no mesmo dia

Bernardo Barbosa

Do UOL, em São Paulo

  • Reprodução

    Registros de hospital mostram visitas de contador de Lula a Costamarques

    Registros de hospital mostram visitas de contador de Lula a Costamarques

O contador João Muniz Leite fez ao menos três visitas ao engenheiro Glaucos da Costamarques --duas delas no mesmo dia-- durante sua internação no hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, segundo mostram registros entregues pelo estabelecimento ao juiz Sergio Moro e divulgados nesta quarta-feira (11).

Os documentos foram entregues após ordem dada por Moro no dia 2, atendendo a pedido feito pela defesa de Costamarques, segundo a qual Leite visitou o engenheiro para que assinasse todos os recibos de aluguel referentes a 2015 de um apartamento em São Bernardo do Campo (SP) alugado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e sua família. O imóvel é vizinho à residência do ex-presidente. 

O contador, por sua vez, disse em nota datada de 28 de setembro que visitou Costamarques no hospital, mas não para que o engenheiro assinasse todos os recibos, "e sim em alguns meses, que embora tivéssemos os recibos, os mesmos não estavam assinados".

Os advogados de Costamarques também pediram a verificação de eventuais visitas de Roberto Teixeira, advogado e amigo de Lula. Segundo a defesa do engenheiro, o pagamento dos aluguéis só começou a acontecer depois que Teixeira o visitou no hospital. No entanto, nos registros do Sírio-Libanês, não há registro de visita de Teixeira.

A defesa de Lula nega ao UOL que Leite tenha prestado serviços para o ex-presidente. No entanto, quando interrogado por Moro em interrogatório, Roberto Teixeira disse que "João", um contador da empresa JML -- da qual João Leite Muniz é proprietário --, prestava "serviços eventuais" a ele e preenchia as informações do imposto de renda de Lula e da ex-primeira-dama Marisa Letícia, que faleceu em fevereiro.

Lula, por sua vez, disse em seu interrogatório que tinha um contador e perguntou ao seu advogado, Cristiano Zanin Martins: "Como era o nome do contador, João Leite?". Não é possível ouvir a resposta de Zanin Martins.

Em nota divulgada mais cedo nesta quarta, Zanin Martins disse que Muniz Leite emitiu declaração esclarecendo que "também era contador do Sr. Glaucos", sem esclarecer a que pessoa se refere o "também".

O MPF (Ministério Público Federal) questiona a autenticidade dos recibos entregues pela defesa de Lula, e o juiz Moro pediu que os advogados informassem expressamente se detinham os recibos originais. Nesta quarta, a defesa do ex-presidente disse que tem os recibos originais e apresentou pedido a Moro para entregá-los presença de um perito.

Reprodução - 6.set.2017
Glaucos da Costamarques durante interrogatório pelo juiz Moro

Entenda a acusação a Lula

Segundo o MPF, o apartamento usado pela família de Lula em São Bernardo do Campo seria parte de propina da Odebrecht em troca da atuação do ex-presidente para beneficiar a empresa em oito contratos com a Petrobras. Um terreno em São Paulo para o Instituto Lula --que nunca foi usado pela entidade-- também faria parte da vantagem indevida.

A defesa do ex-presidente nega que tenha recebido a posse ou propriedade dos imóveis, muito menos em contrapartida a uma atuação em contratos com a Petrobras. Segundo os advogados de Lula, "nenhuma prova foi apresentada sobre essa alegação, que se mostrou, em verdade, ser manifestamente improcedente".

"Essa situação, além de levar ao reconhecimento da inocência de Lula, mostra que o processo jamais poderia estar sendo conduzido pelo juiz Sergio Moro, pois não há qualquer relação efetiva e real com a Petrobras, como sempre foi afirmado pela defesa", diz a defesa.

Costamarques afirmou ter comprado o apartamento a pedido de seu primo e amigo de Lula, o pecuarista José Carlos Bumlai --que foi condenado em outro processo da Lava Jato. Este, no relato de Costamarques, atendia a pedido de Marisa Letícia, que estava preocupada com a possível compra do imóvel por alguém desconhecido da família.

Renato S. Cerqueira - 9.mai.2017/Futura Press/Estadão Conteúdo
O pecuarista José Carlos Bumlai

A defesa do engenheiro disse em petição entregue a Moro no dia 28 de setembro que Costamarques comprou e alugou o apartamento para a ex-primeira-dama "única e exclusivamente em razão do pedido feito pelo seu primo".

Os advogados de Lula apresentaram um contrato de aluguel com início em fevereiro de 2011 assinado pela ex-primeira-dama Marisa Letícia, falecida em fevereiro deste ano, e por Costamarques. Também entregaram à Justiça recibos assinados por Costamarques que comprovariam a quitação dos aluguéis.

No entanto, segundo o MPF, não há transações bancárias que comprovem o pagamento dos aluguéis até o fim de 2015. Costamarques disse à Justiça que, neste período, não recebeu nada --apesar de ter declarado isso no imposto de renda. 

Segundo a defesa de Costamarques, "o fato de os recibos terem sido declarados à Receita Federal no Imposto de Renda deu-se em razão da própria existência do contrato de locação, da promessa de pagamento de todas as parcelas pelo seu primo e da orientação de que deveria, sim, declarar tais valores e sobre eles pagar o respectivo imposto." 

Ainda de acordo com os advogados de Costamarques, "os recibos referentes à locação em causa foram exigidos do defendente, em razão da existência do contrato de locação, e corresponderam à confiança, amizade e grande estima que devotava ao primo, José Carlos Costa Marques Bumlai." 

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