Operação Lava Jato

Hospital não encontra registros de visita de advogado amigo de Lula a empresário em 2015

Do UOL, em São Paulo

  • Reprodução

    13.set.2017 - Lula depõe ao juiz Sergio Moro em Curitiba

    13.set.2017 - Lula depõe ao juiz Sergio Moro em Curitiba

O hospital Sírio-Libanês informou nesta sexta-feira (20) ao juiz Sergio Moro que não localizou registros de entrada de Roberto Teixeira, advogado e amigo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), na sua unidade durante o segundo semestre de 2015.

O magistrado queria confirmar se Teixeira visitou ou esteve com Glaucos da Costamarques no período em que o empresário esteve internado no hospital, entre 23 de novembro e 29 de dezembro de 2015.

Em depoimento a Moro, Costamarques afirmou que Teixeira esteve na unidade e pediu para que ele assinasse recibos de aluguel do apartamento vizinho ao do ex-presidente Lula, em São Bernardo do Campo (SP). O imóvel é um dos pontos centrais de uma ação em que Lula, Teixeira e Costamarques são réus na operação Lava Jato, em Curitiba.

O MPF (Ministério Público Federal) questiona a autenticidade dos recibos entregues pela defesa de Lula. Segundo a força-tarefa da Lava Jato, Lula seria o dono real do imóvel, adquirido com dinheiro de propina da Odebrecht, em troca de contratos com a Petrobras. Já o empresário teria servido de laranja para a aquisição do apartamento.

Também a Moro, Teixeira negou que esteve no hospital no período de internação do empresário para solicitar que ele assinasse os recibos de aluguel. O advogado confirmou apenas que os dois se encontraram no Sírio-Libanês em 2016, de maneira casual.

Já a defesa do ex-presidente nega a acusação do MPF e diz que o imóvel foi locado pela mulher de Lula, Maria Letícia, em 2011. A ex-primeira-dama morreu no começo deste ano. A defesa informou ainda que tem os recibos originais e que poderá apresenta-los à Justiça.

Segundo o MPF, o apartamento atribuído a Lula é uma das propinas recebidas pela Odebrecht. O outro caso é a doação de um terreno em São Paulo para construção da nova sede do Instituto Lula, que nunca foi efetivada. A defesa também nega a relação.

Ligações

Já nesta quinta-feira (19), a força-tarefa apresentou a Moro uma relação de 12 ligações telefônicas entre o empresário Glaucos da Costamarques e o advogado Roberto Teixeira ou seu escritório de advocacia, o Teixeira, Martins.

No entendimento dos procuradores, as ligações entre os réus corroboram a narrativa do empresário, de que teria atendido a pedido de Teixeira para assinar os recibos de aluguéis durante o período em que Costamarques esteve internado no hospital Sírio-Libanês.

O contador João Muniz Leite foi quem levou os documentos para serem assinados por Glaucos da Costamarques. Em resposta a Moro, o hospital Sírio-Libanês confirmou que Leite esteve na unidade por três vezes em visita ao empresário. Foi nesses encontros que ele teria assinados os recibos.

Em nota, Cristiano Zanin Martins, advogado de Lula, afirmou que a resposta do hospital Sírio-Libanês "derruba" a versão de Glaucos da Costamarques sobre os recibos e que, "possivelmente, por já saber desse terceiro ofício, de 18 de outubro, a Lava Jato apresentou ontem [19 de outubro] uma nova versão dos fatos, agora com ligações telefônicas. A Lava Jato muda os fatos para acusar o ex-presidente Lula à medida em que vai sendo desmentida".

Entenda a acusação a Lula

Costamarques afirmou ter comprado o apartamento a pedido de seu primo e amigo de Lula, o pecuarista José Carlos Bumlai --que foi condenado em outro processo da Lava Jato. Este, no relato de Costamarques, atendia a pedido de Marisa Letícia, que estava preocupada com a possível compra do imóvel por alguém desconhecido da família.

A defesa do engenheiro disse em petição entregue a Moro no dia 28 de setembro que Costamarques comprou e alugou o apartamento para a ex-primeira-dama "única e exclusivamente em razão do pedido feito pelo seu primo".

Os advogados de Lula apresentaram um contrato de aluguel com início em fevereiro de 2011 assinado pela ex-primeira-dama Marisa Letícia, falecida em fevereiro deste ano, e por Costamarques. Também entregaram à Justiça recibos assinados por Costamarques que comprovariam a quitação dos aluguéis.

No entanto, segundo o MPF, não há transações bancárias que comprovem o pagamento dos aluguéis até o fim de 2015. Costamarques disse à Justiça que, neste período, não recebeu nada --apesar de ter declarado isso no imposto de renda.

Segundo a defesa de Costamarques, "o fato de os recibos terem sido declarados à Receita Federal no Imposto de Renda deu-se em razão da própria existência do contrato de locação, da promessa de pagamento de todas as parcelas pelo seu primo e da orientação de que deveria, sim, declarar tais valores e sobre eles pagar o respectivo imposto."

Ainda de acordo com os advogados de Costamarques, "os recibos referentes à locação em causa foram exigidos do defendente, em razão da existência do contrato de locação, e corresponderam à confiança, amizade e grande estima que devotava ao primo, José Carlos Costa Marques Bumlai."

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