Votação de denúncia tem gafes, opositor ajudando Temer e bronca da mulher de Tiririca

Gustavo Maia, Leandro Prazeres e Paula Bianchi

Do UOL, em Brasília

Iniciada às 9h20 desta quarta-feira (25), a sessão da Câmara dos Deputados que barrou a segunda denúncia contra o presidente Michel Temer (PMDB) se estendeu por pouco mais de 12 horas.

Histórico e atípico, o dia na Casa teve momentos de tensão, situações inusitadas, protestos tímidos e até uma entrevista de deputado da oposição que acabou ajudando Temer.

Veja abaixo alguns momentos curiosos presenciados pela reportagem do UOL:

Gafe com internação do presidente

Antes do início da votação, deputados da oposição que tentavam adiar o pleito tomaram o Salão Verde e fizeram dele um "plenário alternativo". De lá, deram entrevistas e fizeram discursos.

Um momento, porém, criou saia justa. Alguns dos políticos cantavam de maneira animada "Michel Temer, pode esperar, a tua hora vai chegar", mas exatamente no momento da cantoria começaram a surgir as primeiras notícias sobre a internação médica do presidente.

Dida Sampaio/Estadão Conteúdo
Deputados da oposição ocuparam o Salão Verde da Câmara

Naquele momento, ainda não estava claro o que havia levado o peemedebista ao hospital. Formou-se um burburinho, deputados da base falavam sobre o estado de saúde do presidente, e Chico Alencar (PSOL-RJ) decidiu fazer um breve pronunciamento para dirimir qualquer chance de comemoração por problemas de saúde de Temer.

"Temos respeito e sensibilidade com qualquer doença, mas temos que ter claro o que o presidente gastou para tentar barrar essa denúncia", afirmou.

Entrevista de oposicionista ajuda Temer

"A República está podre, o chefe do governo do Estado brasileiro, o Brasil não aguenta o fedor. É 'não' para que investiguemos e rompamos com esse ciclo vicioso de destruição de direitos e de corrupção", declarou com veemência o deputado Edmilson Rodrigues (PSOL-PA). O discurso, porém, não teve utilidade prática, porque o político da oposição já estava declarado como ausente.

O nome de Edmilson foi chamado duas vezes na lista do Pará, mas ele estava dando uma entrevista à TV Câmara na porta do plenário e disse não ter ouvido a convocação. Por isso, ele acabou sendo computado como um dos 25 ausentes na sessão, apesar de estar a poucos metros do microfone. Como o prosseguimento da denúncia dependia dos votos de dois terços do plenário (342), as ausências contaram a favor de Temer.

"O registro está feito, mas já tinha passado da hora da votação do Pará", comunicou o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que depois disse ser uma "pena" não poder contabilizar o voto. "Eu lhe peço desculpas que não posso descumprir o regimento", registrando nos anais da Casa. "Obrigado, Edmilson", ironizou um governista, não identificado, no microfone.

A dança de Marun para deputadas

O quorum necessário para a votação da denúncia acabara de ser atingido quando o deputado Carlos Marun (PMDB-MS) se posicionou à frente das deputadas petistas Benedita da Silva (RJ) e Maria do Rosário (RS), no centro do plenário. Exibindo um sorriso no rosto, ele apontou para cima o dedo indicador de cada mão e dançou, balançando o corpo.

"Para, Marun", pediu a deputada Carmen Zanotto (PPS-SC), que estava ao lado do peemedebista, um dos mais destacados integrantes da "tropa de choque" de Temer na Câmara.

Com olhar incrédulo, Maria do Rosário olhou para as galerias do plenário, onde estavam posicionados os fotógrafos e cinegrafistas, apontando a cena com as mãos como se perguntasse: "estão vendo isso?".

"Cuida da tua vida"; deputados batem boca durante votação

Barrados no baile

Dia de votação de denúncia é dia de plenário para poucos. Seguranças posicionados em todos os acessos ao espaço e ao Salão Verde desagradaram muitos deputados, que tentavam entrar com assessores e conhecidos não-credenciados.

Irritado ao ter um acompanhante barrado, Sergio Zveiter (Podemos-RJ) exigiu que um segurança o acompanhasse. "Ele até pode não entrar, mas você vem comigo e vai tirar todos que não estiverem credenciados lá de dentro", ordenou Zveiter.

O segurança explicou que precisava chamar a chefia para deixar o posto, ao que o deputado puxou o assessor e seguiu. "Então esperamos vocês lá". Outros deputados, com menos verve, também tentaram furar a restrição aos auxiliares, desistindo após as negativas dos funcionários.

A roupa de Tiririca

Trajando um paletó azul escuro com camisa estampada, gravata pontilhada e calça jeans, o deputado Tiririca (PR-SP) acabara de votar quando pegou o celular e viu uma mensagem. "Minha mulher veio reclamar da minha roupa. Perguntou: que roupa que você tá usando, meu Deus!?", relatou.

Reprodução/TV Câmara
Tiririca (PR-SP) disse que levou bronca da própria mulher por causa da roupa

"Senhor presidente, fora Temer. Brasil, tamo junto. Meu voto é não", declarou o 106º dos 233 contrários ao peemedebista. Palhaço, humorista, cantor e compositor, Francisco Everardo Oliveira Silva, 52, provocou gargalhadas nos funcionários do cafezinho anexo ao plenário da Câmara.

Ninho de tucanos

Em meio ao racha no PSDB, que entregou 23 votos contra e 20 a favor de Temer, além de três ausências, o deputado Darcísio Perondi (PMDB-RS) abordou o deputado Antonio Imbassahy (PSDB-BA), ministro licenciado da Secretaria de Governo e responsável pela articulação política com o Congresso.

Ao pé do ouvido do interlocutor, o peemedebista disse que faria questão de ressaltar no microfone que o autor do relatório contrário à denúncia, Bonifácio de Andrada (PSDB-MG), era tucano. "Vamos dizer: voto no belíssimo relatório do relator do PSDB", disse Perondi. "Pode dizer", consentiu Imbassahy rindo.

Bandeira na gaiola

Três estudantes de pós-doutorado da UnB (Universidade de Brasília) e uma professora de geografia e história protestavam pela saída de Temer no gramado da Câmara dos Deputados.

Kátia Garcia, 52, veio sozinha e encontrou os estudantes quando passava pelo primeiro bloqueio da polícia. Foi ela quem orientou o grupo a ficar atrás do primeiro espelho da água-- já quase vazio e com cara de piscina abandonada por conta da seca que assola o Cerrado, a pior já registrada.

A professora carregava uma gaiola que aprisionava uma bandeira do Brasil, uma estátua da Justiça, um rato de plástico e notas de dinheiro --"tudo que representa a nossa nação". O baixo quorum no ato não a surpreendeu. "Qualquer debate que você faz com qualquer pessoa já dizem, 'não quero nem falar sobre isso'. Dá um sentimento de fracasso".

"Só se fosse Eneias", diz Maia ao reprender deputado sobre tempo de votação

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos