Operação Lava Jato

Interesse na Odebrecht era por importância do grupo, não por dinheiro em campanha, diz Dilma

Nathan Lopes

Do UOL, em São Paulo

A ex-presidente Dilma Rousseff (PT) disse, em depoimento ao juiz federal Sergio Moro, por videoconferência, que o governo tinha interesse no grupo Odebrecht não em função de doação para campanhas políticas, mas pela importância de suas empresas.

"Tínhamos uma relação de grande interesse não para que eles contribuíssem ou não para a campanha, mas pela importância que o grupo tinha e, acredito que ainda tem, na economia brasileira", disse Dilma.

Dilma é testemunha de defesa do ex-presidente da Petrobras Aldemir Bendine no processo em que ele é réu por corrupção passiva, lavagem de dinheiro, pertinência a organização criminosa e embaraço à investigação. Essa foi a primeira vez em que Dilma, que não é investigada nessa ação penal, foi ouvida por Moro. Ele apenas comandou a audiência e não quis fazer perguntas à ex-presidente.

Além do executivo, outras cinco pessoas são rés no processo. Entre elas, está o ex-presidente da Odebrecht, Marcelo Odebrecht. Delatores do grupo Odebrecht já afirmaram, em acordos de colaboração com a PGR (Procuradoria Geral da República), que distribuíram propina a mais de 1.800 políticos de 28 partidos.

A ex-presidente foi questionada pelo advogado José Diniz, que defende o doleiro André Gustavo, suspeito de ser responsável por repasses de propina e um dos réus na ação penal, se "assuntos de interesse da Odebrecht eram sondados junto à Presidência da República para que efetivamente as decisões fossem tomadas no Banco do Brasil". Bendine comandava o banco antes de assumir a Petrobras.

Eu não tenho sequer o mais pálido conhecimento desse tipo de atitude do grupo Odebrecht"

Dilma Rousseff, ex-presidente da República

"Aliás, eu acredito que o grupo Odebrecht, como qualquer outro grande grupo brasileiro, merecia toda a atenção do governo. Muitas vezes a gente concordava com os rumos propostos pelo grupo. E é público e notório que muitas vezes também nós discordávamos", disse a ex-presidente.

O depoimento de Dilma durou pouco menos de 30 minutos. A ex-presidente chegou por volta das 10h50 na sede da Justiça Federal em Belo Horizonte para prestar o depoimento, por videoconferência, a Moro, que atua em Curitiba. Dilma esteve na Justiça Federal acompanhada do advogado Leonardo Isaac Yarochiwsky.

Bendine, que chegou à Petrobras durante o governo de Dilma, em 2015, é investigado pela força-tarefa da Operação Lava Jato no MPF (Ministério Público Federal) suspeito de ter recebido R$ 3 milhões em propina da empreiteira Odebrecht.

O executivo, segundo os procuradores, pediu a vantagem indevida para que a Odebrecht "não fosse prejudicada em seus interesses na Petrobras". Ele teria tentado atrapalhar a Justiça ao, após descobrir, em 2017, que era investigado, simular um serviço de consultoria para a empreiteira, de acordo com a denúncia. A defesa de Bendine nega os crimes.

Confira na íntegra o depoimento da ex-presidente a Moro

'Eventual relação'

Antes do início do depoimento, o MPF pontuou que Dilma fez ataques públicos à Lava Jato. "Ela é suspeita de parcialidade e isso deverá ser valorada oportunamente", disse o procurador Guilherme de Oliveira Alonso.

O procurador ofereceu à Dilma a possibilidade de a ex-presidente ficar em silêncio caso suas respostas pudessem responsabilizá-la por algum crime. Segundo a Lava Jato, a petista seria parte interessada no processo "já que ela indicou Bendine para a Petrobras e as provas que surgiram podem eventualmente ter relação" com Dilma.

A ex-presidente, porém, respondeu a todas as perguntas feitas. Assim como Moro, o representante do MPF não fez questionamentos.

A indicação

Dilma explicou que indicou Bendine para a presidência da Petrobras porque Maria das Graças Foster, que ocupava o cargo, pediu para deixar a empresa "por três ou quatro vezes".

"Para mim, era importante que ela continuasse conduzindo a Petrobras", explicou Dilma, ressaltando o conhecimento técnico da executiva. Foster não estaria confortável com as denúncias sobre esquemas de corrupção na Petrobras.

Segundo a petista, a escolha por Bendine foi em função do desempenho bastante significativo que ele teve à frente Banco do Brasil. O executivo entrou no banco em 1978. Como funcionário de carreira passou por diversos cargos até tornar-se presidente da instituição financeira em 2009, indicado pelo antecessor de Dilma, Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Reta final

A etapa de oitiva de testemunhas dos acusados nesta ação penal já está em sua reta final. As últimas audiências já marcadas acontecem na semana que vem. Moro já definiu as datas dos interrogatórios dos réus. Odebrecht será ouvido em 9 de novembro e Bendine, no dia 22 do mesmo mês.

Na sequência, as defesas fazem pedidos a Moro para acrescentar novos itens ao processo e apresentam suas alegações finais. Apenas após a apresentação das observações dos defensores é que o juiz irá proferir sua sentença. Pelo andamento do processo, é provável que isso aconteça apenas no ano que vem.

Em setembro, tribunal rejeitou pedido de liberdade de Bendine

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