Operação Lava Jato

Odebrecht diz que pagou propina a Bendine para evitar que ele atrapalhasse negócios com a Petrobras

Nathan Lopes e Ana Carla Bermúdez*

Do UOL, em São Paulo

Interrogado pelo juiz federal Sergio Moro nesta quinta-feira (9), Marcelo Odebrecht, delator e ex-presidente do grupo Odebrecht, confirmou que pagou propina ao ex-presidente da Petrobras Aldemir Bendine temendo que ele atrapalhasse negócios entre suas empresas e a petroleira. A audiência, realizada na sede da Justiça Federal em Curitiba, durou cerca de uma hora e vinte minutos.

De acordo com o executivo, a solicitação do ex-presidente da Petrobras surgiu, de forma velada, enquanto Bendine comandava o Banco do Brasil. Ele pediu R$ 17 milhões em propina ao grupo em função de uma negociação de rolagem de dívida de contrato de financiamento mantido entre o banco e a Odebrecht Agro Industrial. O valor da vantagem indevida era equivalente a 1% do contrato discutido, segundo Odebrecht.

De acordo com o depoimento e com o MPF, o pedido foi feito no primeiro semestre de 2014, quando Bendine estava à frente do Banco do Brasil. Ele assumiu a Petrobras em fevereiro de 2015 e, só um tempo após sua posse, após uma reunião em maio do mesmo ano, que os pagamentos começaram a ser feitos.

Segundo Odebrecht, a propina foi paga por medo que os negócios do grupo com a Petrobras fossem prejudicados. "Não houve nenhum apoio [de Bendine à questão da rolagem da dívida]. Sempre discordamos disso", disse, justificando por que se negou a pagar propina enquanto Bendine estava no banco.

"Na prática, a razão que eu estava aceitando discutir esse assunto [propina] era a posição dele de presidente da Petrobras", disse o ex-presidente da Odebrecht.

Segundo o relato de Odebrecht a Moro, Fernando Reis, ex-executivo da Odebrecht Ambiental, teria lhe dito: "agora quem está pedindo tem uma outra posição que pode nos afetar".

Luis Ushirobira/Valor
Aldemir Bendine deixou o Banco do Brasil para assumir a Petrobras em fevereiro de 2015

'Evidência forte'

Odebrecht é acusado dos crimes de corrupção ativa e lavagem de dinheiro. Segundo denúncia da força-tarefa do MPF (Ministério Público Federal) na Operação Lava Jato, o executivo pagou R$ 3 milhões a Bendine, o que foi confirmado por Odebrecht no interrogatório. Os pagamentos, em três parcelas iguais, foram feitos em meados de 2015.

Réu no processo, Bendine é acusado de corrupção passiva, lavagem de dinheiro, pertinência a organização criminosa e embaraço à investigação. Ele tem negado as acusações.

De acordo com o Odebrecht, ficou evidente que o pedido de pagamento de propina era real em função de reuniões entre ele e Bendine terem sido marcados por intermédio de Reis e André Gustavo, apontado pela Lava Jato como operador financeiro do ex-presidente da Petrobras. Tanto Reis como Gustavo também são réus no processo.

A solicitação de vantagem indevida, porém, nunca foi feita diretamente por Bendine, mas por Gustavo, de acordo com o Odebrecht.

"Para mim, uma evidência forte [pelo pagamento de propina] eram os locais [em um escritório de advocacia e na casa do operador] e as formas que os encontros iam ser organizados", disse Odebrecht. "Não fazia nenhum sentido Fernando Reis, via André Gustavo, marcar minhas reuniões com Bendine. Eu conhecia ele. Claramente, o Bendine não estava me atendendo como presidente da Petrobras, não queria ter reuniões comigo oficiais".

Ele pontua que teve inúmeras reuniões, "todas transparentes", com os ex-presidentes da Petrobras José Sergio Gabrielli e Maria das Graças Foster. "Esses encontros [com Gabrielli e Foster] eram marcados com as secretárias. Tem os registros tudo lá".

Segundo Odebrecht, os encontros eram "na surdina" no escritório de advocacia. "Era um encontro escondido, se combinava de um entrar por um lado, um pelo outro. Caracteriza que havia por trás um pedido indevido".

Em uma reunião, uma palavra usada como senha pelo operador foi o sinal de que havia o pedido de propina, que Odebrecht classifica como "achaque". O executivo não detalha qual era a palavra.

"Sai dessa reunião, e falei: 'Ó, Fernando, acho que agora não tem a menor dúvida de que existe o pedido. Ele [Bendine] pode, se não nos ajudar, pelo menos ele pode nos atrapalhar. E acho que a gente deveria começar [a pagar]. Não acho que a gente vai precisar dar os R$ 17 milhões, mas vamos começar pagar alguma coisa e vamos administrando'", relatou Odebrecht.

O ex-presidente do grupo recordou que, no final de 2014, já com a Lava Jato em andamento, o setor de operações estruturadas (responsável pelos pagamentos de propina) estava sendo encerrado. "Nós já tínhamos praticamente encerrado [o setor]. A equipe estava sem liberdade para atuação. Para a gente manter esse pagamento, era porque não só era importante...", disse.

"Agora, o que eu digo é o seguinte, se não fosse um tema tão importante, é óbvio que, após minha prisão, os pagamentos seriam cessados", relatou o executivo. Ao menos duas parcelas da propina foram pagas após a prisão dele, em junho de 2015.

O UOL entrou em contato com a defesa de Bendine, mas não obteve retorno até o momento a respeito do interrogatório de Odebrecht. Em julho, à Polícia Federal, o ex-presidente da Petrobras negou ter recebido propina.

A caneta "pesada" de Bendine

Outro réu interrogado nesta quinta foi Fernando Reis, ex-presidente da Odebrecht Ambiental, que confirmou a versão de Marcelo Odebrecht sobre a motivação dos pagamentos a Bendine e deu mais detalhes da relação do ex-presidente da Petrobras com André Gustavo.

Reis disse ter conhecido André Gustavo em 2013, antes de ter contato com Bendine. Em julho do ano seguinte, Gustavo contou a Reis que "tinha uma relação" com o então presidente do Banco do Brasil, e que este teria uma "insatisfação" com Marcelo Odebrecht. 

Segundo Reis, Gustavo contou que isso acontecia porque Odebrecht "acertaria as coisas" com o então ministro da Fazenda, Guido Mantega, "o Guido Mantega manda o Bendine fazer, ele tem que trabalhar e não ganha nada por isso". 

Após a ida de Bendine para o comando da Petrobras, Gustavo disse a Reis, segundo o relato deste, que a caneta do antigo presidente do Banco do Brasil ficaria "mais pesada". 

Para o ex-presidente da Odebrecht Ambiental, não havia contrapartida para o pagamento de propina porque Bendine e Gustavo se julgavam "credores" de uma dívida, e a cobrança da propina foi "uma carona". 

"Ele viu ali o carro passando e cobrou um pedágio, pegou uma carona naquilo", disse Reis, que negou saber da estruturação do pagamento por meio de uma empresa de André Gustavo. 

O corretor Álvaro Novis também foi interrogado por Moro hoje. Ele confirmou o pagamento das três parcelas de R$ 1 milhão em um apartamento em São Paulo, mas negou saber a finalidade ou o destinatário do dinheiro.

Odebrecht na Lava Jato

Esta foi a quarta vez em que Moro interrogou Odebrecht. Até o momento, ele foi condenado em dois desses processos: o primeiro em março de 2016, e o outro em junho deste ano. No começo do ano que vem, ele deve conhecer a sentença do processo em que foi interrogado hoje e também a da ação penal em que é réu ao lado do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e que envolve os recibos de aluguel de um apartamento vizinho ao do petista.

Somadas, as penas passam de 30 anos de reclusão, mas, como ele fechou acordo de colaboração com o MPF, deverá ficar preso em regime fechado até o final deste ano, passando para a prisão domiciliar. Odebrecht ainda é réu em mais dois processos conduzidos por Moro. Um deles envolve o sítio em Atibaia (SP), que o MPF alega ser uma vantagem indevida ao ex-presidente Lula.

Odebrecht foi o primeiro dos seis réus a ser interrogado. Bendine será ouvido apenas na última audiência marcada, que acontecerá na tarde de 22 de novembro.

Finalizada essa etapa, as defesas dos réus farão seus últimos pedidos para produção de provas a Moro. Na sequência, será aberto prazo para as alegações finais da acusação e dos réus. Apenas após a entrega dessas manifestações é que o juiz Sergio Moro poderá proferir sua sentença, o que deve acontecer apenas no começo do ano que vem.

*Colaborou Bernardo Barbosa

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