Troca-troca de partidos na Câmara reflete polarização política

Simone Iglesias e Samy Adghirni

Da Bloomberg

  • Pedro Ladeira/Folhapress

Em meio à prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao crescimento de partidos conservadores, o troca-troca na Câmara dos Deputados reflete maior polarização da política brasileira de 2014 para cá.

O PT conseguiu manter sua hegemonia, com a maior bancada individual de deputados, mas, em contrapartida, o DEM dobrou de tamanho e o PP passou a integrar o grupo dos três maiores partidos do Parlamento. Os petistas são hoje 60 deputados, o que corresponde a 11,7% do total de 513. A legenda de Lula elegeu na última eleição 68 deputados, enfrentando uma queda pequena diante dos escândalos de corrupção enfrentados. As composições definitivas ainda estão sujeitas a alterações mínimas de última hora que não afetarão o peso final das bancadas.

"O tamanho da bancada do PT mostra que o partido está vivo", disse o deputado José Geraldo (PT-PA). "Temos o maior líder político desse país, que tem o partido de maior preferência popular, que chega a 20%, e um candidato com 40% das pesquisas e estamos vivendo tudo isso, com ex-presidente preso".

O DEM, que elegeu uma bancada média para pequena há quatro anos, de 21 deputados, passou a ter 41 após o fim da janela de troca-troca partidário, saindo da décima posição para a sexta em número de deputados, numa legislatura bastante pulverizada, com deputados espalhados por 24 legendas. Os Democratas foram hegemônicos até o início dos anos 2000, chegando a dominar o Parlamento com um quinto da representação da Câmara. O partido perdeu muita força, no entanto, com a chegada de Lula ao poder, a partir de 2003. Agora, a balança se reequilibra.

"Esse crescimento ocorreu devido à história de coerência do partido, que nunca foi fisiológico. Ou o DEM é governo ou é oposição. O sucesso de agora decorre da segurança e da credibilidade do partido", avaliou o líder da bancada democrata na Câmara, Rodrigo Garcia (SP).

O deputado Alberto Fraga (DEM-DF) afirmou que o conservadorismo do partido foi fundamental para o seu crescimento: "É um partido conservador, que mantém os valores sociais e morais, que defende a iniciativa privada. O brasileiro está mais sensível a esses assuntos."

Já o PP, que recentemente mudou o nome para Progressistas e tem o maior número de deputados investigados na Operação Lava-Jato, passou de 38 parlamentares eleitos para 51. Com o troca-troca dos deputados que se encerrou na última sexta-feira, percebe-se uma onda favorável a partidos conservadores e de direita. Além do DEM e do Progressistas, cresceram PR, Podemos, e PSL, que elegeu apenas um deputado em 2014, mas agora tem uma bancada de 10, puxada pela filiação do deputado e presidenciável Jair Bolsonaro (RJ). O Podemos, que lançou o senador Alvaro Dias (PR), ex-tucano, como pré-candidato ao Planalto e não existia há quatro anos, agora tem 18 deputados federais.

Já o MDB do presidente Michel Temer teve o maio êxodo de deputados entre os partidos grandes e médios com representação parlamentar: elegeu 65 e perdeu 15 integrantes. A queda só não foi maior porque recebeu alguns novos filiados, tendo um saldo pós-janela de 55 parlamentares. Esta é a menor bancada da história recente do MDB na Câmara. A máquina governamental, azeitada para conter baixas, desta vez não funcionou, em parte pelo temor de deputados de serem contaminados pela série de denúncias contra Temer e principais caciques do partido envolvidos na Operação Lava-Jato. Um caso simbólico da dificuldade de Temer em conter as deserções é do senador Raimundo Lira (PB), que abandonou o partido e a Liderança do MDB no Senado sem maiores explicações ao presidente da República.

"O MDB deu uma guinada para o campo conservador, um espaço ocupado já pelo DEM e pelo PSDB. Como minha militância sempre foi de esquerda, resolvi ir para o PT por uma questão ideológica", disse Celso Pansera (RJ), que foi indicado pelo PMDB em 2015 ministro de Ciência e Tecnologia no governo Dilma Rousseff.

O PSB, que filiou o ex-ministro do STF e relator do mensalão Joaquim Barbosa na última hora permitida pela legislação, viu sua bancada minguar de 34 para 26 deputados. O Rede, comandado por Marina Silva, diminuiu à metade: de 4 passou a ter apenas 2 deputados.

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