"Amigos eternos", estrelas e condenações: o que mudou (ou não) nos companheiros de palanque de Lula desde 1989

Diego Toledo

Colaboração para o UOL, em São Paulo

  • Acervo CSBH - 17.set.1989/FPA

    No palanque de Lula de 1989, havia José Paulo Bisol, Luiza Erundina, Luiz Gushiken, Marisa Letícia, Eduardo Suplicy, Olívio Dutra, Plínio de Arruda Sampaio e Hélio Bicudo

    No palanque de Lula de 1989, havia José Paulo Bisol, Luiza Erundina, Luiz Gushiken, Marisa Letícia, Eduardo Suplicy, Olívio Dutra, Plínio de Arruda Sampaio e Hélio Bicudo

Antes de ser preso, no último dia 7, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) discursou para milhares de simpatizantes, aliados históricos e líderes de seu partido em São Bernardo do Campo (SP).

Em meio a citações a novos e antigos companheiros, Lula disse que sabe quem são os seus "amigos eternos e quem são os amigos eventuais".

"Os de gravatinha, que iam atrás de mim, agora desapareceram", afirmou o ex-presidente. "Os que estão comigo são aqueles companheiros que eram meus amigos antes de eu ser presidente da República."

Mas, nos quase 30 anos que separam a recente prisão de Lula e a sua primeira campanha a presidente da República, muitos companheiros de palanque ficaram pelo caminho.

Alguns morreram ou se afastaram da vida pública, outros deram espaço a lideranças políticas mais novas e há também os que romperam com Lula e hoje preferem manter distância.

As diferenças e semelhanças entre os nomes que estiveram ao lado de Lula na campanha de 1989 e nos instantes que antecederam a sua prisão, no último dia 7, retratam dois momentos históricos na trajetória do ex-presidente.

Lula Marques/Folhapress
Lula e José Dirceu durante cerimônia em Brasília em 2005

Problemas na Justiça

Duas figuras de destaque nos palanques de Lula em 1989, o ex-ministro José Dirceu e o ex-deputado federal José Genoino ainda contam com o apoio e a reverência de boa parte dos petistas. Mas ambos têm permanecido afastados dos holofotes por conta de condenações que sofreram na Justiça.

Em 1989, Dirceu era deputado estadual em São Paulo, secretário-geral do PT e um dos principais coordenadores da campanha de Lula. Atualmente, condenado na Operação Lava Jato, está em liberdade com medidas restritivas (como o uso de tornozeleira e impedido de sair de Brasília sem autorização).

Genoino era um dos principais nomes da bancada do PT no Congresso em 1989. Em 2012, foi condenado pelo STF (Supremo Tribunal Federal) no caso do mensalão e chegou a cumprir alguns meses de prisão em regime fechado, mas teve a pena extinta em 2015.

Em discurso antes da prisão, Lula diz que não perdoa Moro

Os problemas com a Justiça também representam um obstáculo para dois nomes fortes nas atuais articulações dentro do PT: o casal formado pela senadora Gleisi Hoffmann e pelo ex-ministro Paulo Bernardo.

Os dois são réus no âmbito da Operação Lava Jato, acusados de terem recebido dinheiro ilegalmente para a campanha de 2010. Gleisi é a atual presidente do partido e uma importante interlocutora para Lula. Em 1989, quem ocupava a presidência do PT era Luiz Gushiken, morto em 2013.

Marcelo Justo/UOL
Antes de ser preso, Lula esteve ao lado de Gleisi Hoffmann, Manuela d'Ávila, Dilma Rousseff e do bispo emérito de Blumenau, dom Angélico Sândalo Bernardino

Artistas e intelectuais

Tanto em 1989 como em 2018, Lula teve o apoio de muitos artistas. Há quase 30 anos, a gravação do jingle "Lula Lá" contou com cantores como Chico Buarque, Djavan e Gilberto Gil.

Antes de sua prisão, no dia 7 de abril, o ex-presidente também recebeu manifestações de importantes figuras do meio artístico e chegou a ceder o microfone ao ator Osmar Prado.

Mas a presença de intelectuais de peso não foi tão marcante como nos palanques de 1989. Na época, o PT contava com a presença de nomes como o educador Paulo Freire, o sociólogo Florestan Fernandes, o economista Paul Singer e a filósofa Marilena Chauí. Os dois primeiros já morreram e os outros dois ainda são uma importante referência para o partido.

Outros nomes marcantes em 1989 romperam com o PT, como o jurista Hélio Bicudo, o advogado Plínio de Arruda Sampaio (que morreu em 2014) e o cientista político Francisco Weffort.

Sem a companhia de tantos pesos-pesados do universo acadêmico no último dia 7, Lula fez referência em seu discurso à presença do escritor Fernando Morais e a lideranças de movimentos sociais, como o líder do MST (Movimento dos Sem-Terra) João Pedro Stédile.

Ambições eleitorais

Juan Esteves - 25.out.1989/Folhapress
Lula é recebido por simpatizantes no aeroporto Paulo Afonso, em Salvador
Tanto nos palanques de 1989 como no discurso do último dia 7, Lula esteve acompanhado por figuras do PT com futuras ambições políticas. 

Há quase 30 anos, o partido ainda não havia elegido senadores ou governadores (os primeiros seriam eleitos em 1990), e as principais estrelas eram prefeitos de grandes cidades e deputados federais:

Benedita da Silva - Era deputada federal pelo Rio de Janeiro. Depois foi senadora, ministra do governo Lula e vice-governadora do Rio, em uma chapa com Anthony Garotinho (PR). Desde 2011, voltou ao Congresso como deputada federal.

Luiza Erundina - Era a primeira mulher eleita prefeita de São Paulo e levou o PT a sua primeira grande vitória na cidade. Depois, foi ministra no governo Itamar Franco e deixou o partido em 1998. No ano seguinte, foi eleita deputada federal pelo PSB. Permanece no Congresso até hoje, mas atualmente pertence ao PSOL.

Olívio Dutra - Era o prefeito de Porto Alegre e grande liderança do partido no Sul do país. Mais tarde, foi governador do Rio Grande do Sul e ministro das Cidades no primeiro mandato do governo Lula. Atualmente, não exerce nenhum cargo público.

Vitor Buaiz - Governava a cidade de Vitória (ES) e, com Erundina e Olívio, foi um dos primeiros prefeitos de capital eleitos pelo PT. Nos anos seguintes, passou a reclamar de disputas internas dentro do partido. Foi eleito governador do Espírito Santo em 1994, mas trocou o PT pelo PV antes do fim do mandato.

Celso Daniel - Uma das estrelas em ascensão no PT, era o prefeito de Santo André. Mais tarde, foi deputado federal e eleito para mais dois mandatos à frente da Prefeitura de sua cidade. Foi indicado para coordenar a campanha de Lula em 2002, mas acabou morto em janeiro daquele ano, assassinado a tiros. 

No ato do último dia 7, os nomes de companheiros de partido citados por Lula foram outros. O ex-presidente dedicou boa parte de seu discurso, antes de ser preso, sinalizando possíveis candidatos do PT nas eleições de outubro:

Dilma Rousseff - A ex-presidente, que teve seu mandato cassado pelo processo de impeachment em 2016, é cotada como possível candidata a uma vaga no Senado por Minas Gerais. Em seu último discurso, Lula definiu Dilma como "possivelmente a mais injustiçada das mulheres que um dia ousaram fazer política nesse país".

Fernando Haddad - O ex-prefeito de São Paulo é cotado para assumir a candidatura do PT ao Planalto, caso a Justiça eleitoral confirme a inelegibilidade de Lula. A aposta do partido é no histórico de Haddad como ministro da Educação (2005-2012), uma pasta que representa um importante tema de campanha.

Marcelo Justo/UOL
Lula foi acompanhado no discurso por Celso Amorim e Lindbergh Farias

Celso Amorim - O ex-ministro das Relações Exteriores, no governo Lula, e da Defesa, no governo Dilma, é cogitado para disputar o governo do Rio de Janeiro pelo PT em outubro. Nas palavras de Lula, Amorim "colocou o Brasil como protagonista mundial durante todo o nosso governo".

Lindbergh Farias - O senador pelo Rio de Janeiro deve tentar a reeleição ao cargo em outubro. Como obstáculo, terá de superar o desgaste que sofreu por sua atuação na defesa do governo Dilma e por ter sido citado na lista de políticos suspeitos de terem recebido recursos ilegais da empreiteira Odebrecht.

Wellington Dias - O atual governador do Piauí vai disputar a reeleição em outubro. Apontado por Lula, no discurso do último dia 7, como "o índio mais esperto do Brasil", Dias já foi deputado federal e senador e governou o seu estado entre 2003 e 2010. 

Luiz Marinho - Ex-ministro de duas pastas e ex-prefeito de São Bernardo do Campo, o atual presidente estadual do PT deve disputar o governo de São Paulo. 

Miguel Rossetto - Ex-ministro de três pastas nos governos Dilma e Lula, o sindicalista é o pré-candidato do PT ao governo do Rio Grande do Sul.

Fátima Bezerra - Deputada federal por três mandatos, a atual senadora pelo Rio Grande do Norte deve disputar o governo de seu estado.

Juan Esteves - 12.nov.1989/Folhapress
Lula ao lado de sua mulher, Marisa, em comício em 1989, na praça da Sé, em SP

Presenças garantidas

Eduardo Suplicy - Em 1989, era um dos nomes mais conhecidos do PT e ocupava a presidência da Câmara de Vereadores de São Paulo. Quase 30 anos depois, Suplicy é, de novo, vereador. Apesar de alguns desgastes com a máquina partidária, sempre esteve no palanque de Lula. No último discurso, o ex-presidente o saudou como "futuro senador" --cargo que Suplicy ocupou entre 1991 e 2015 e pode voltar a disputar em outubro.

Aloizio Mercadante - Também voltou a ter um papel semelhante ao de 1989. Na época, Mercadante foi o coordenador econômico da primeira campanha de Lula ao Planalto. Agora, depois de ser deputado federal, senador e ministro de três pastas diferentes em governos do PT, Mercadante é um dos membros do partido que tem se dedicado a elaborar as propostas petistas para as eleições de outubro.

Nova geração

Lula também dedicou boa parte de seu discurso no último dia 7 a referências ao histórico apoio que recebe do movimento sindical e de lideranças políticas de outros partidos.

Apesar da ausência do pré-candidato a presidente Ciro Gomes (PDT), Lula recebeu e fez elogios aos presidenciáveis de outros dois partidos: a deputada estadual Manuela d'Ávila (PCdoB-RS) e o líder do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) Guilherme Boulos (PSOL).

Em 1989, a candidatura de Lula a presidente também tinha o apoio de outros dois partidos: o PCdoB, sempre presente nos palanques na figura de seu líder histórico João Amazonas (morto em 2002), e o PSB, que era liderado pelo então senador Jamil Haddad (morto em 2009) e indicou o candidato a vice na chapa de Lula: o gaúcho José Paulo Bisol.

Entre as lideranças sindicais, os nomes mudaram, mas o apoio a Lula seguiu forte. Em 1989, a CUT (Central Única dos Trabalhadores) se fazia presente nos palanques com Jair Meneguelli e o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC era representado por seu então presidente, Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho.

Em seu último discurso, em São Bernardo do Campo (SP), Lula também tinha a seu lado o atual presidente do sindicato, Wagner Santana, e o líder da CUT, Vagner Freitas.

Canto, choro e 'não se entrega': reações a discurso de Lula

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