Vereadores do Rio ignoram caso Marielle e batem boca sobre Israel, "putaria" e exposição LGBT

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, no Rio

  • Hanrrikson de Andrade/UOL

    Primeira sessão deliberativa na Câmara do Rio após depoimento que cita Siciliano

    Primeira sessão deliberativa na Câmara do Rio após depoimento que cita Siciliano

A Câmara Municipal do Rio de Janeiro teve nesta terça-feira (15) a primeira sessão deliberativa depois que uma testemunha do caso Marielle Franco afirmou à polícia, segundo reportagem de "O Globo", que o vereador Marcello Siciliano e um ex-PM apontado como chefe de uma milícia seriam os responsáveis por encomendar a morte da parlamentar do PSOL, vítima de uma emboscada em 14 de março, na região central da cidade.

Em apenas uma hora de trabalho, os vereadores travaram debates acalorados sobre o uso da força por parte de Israel contra manifestantes palestinos, ontem (14), e sobre uma exposição LGBT montada no saguão do Palácio Pedro Ernesto, sede do Legislativo carioca.

Não houve qualquer comentário a respeito do colega citado na semana passada como possível mandante do assassinato de Marielle. Siciliano não compareceu à sessão.

Por volta das 17h, o líder do governo, Dr. Jairinho (MDB), pediu verificação de quórum, e a Mesa Diretora foi obrigada a derrubar o expediente. Apenas 13 parlamentares estavam presentes --o mínimo para qualquer deliberação é de um terço da Casa, isto é, 17. Uma sessão extraordinária foi convocada para esta quarta-feira (16), às 14 horas.

"Peço que, caso cheguemos ao acordo para fazer a sessão extraordinária, os projetos encaminhados à Mesa sejam projetos não polêmicos", ironizou Dr. Jairinho.

Na pauta de votações desta semana estão os cinco projetos de Marielle que avançaram na Câmara (em primeira discussão) durante a sessão realizada em homenagem à memória da vítima, no começo deste mês. Parte deles deve sofrer resistência por parte do bloco conservador.

Durante o expediente desta terça, os vereadores não chegaram a apreciar as proposições apresentadas por Marielle. Foram analisados apenas seis itens da Ordem do Dia, sendo dois vetos do prefeito Marcelo Crivella (PRB), derrubados pelo plenário, e quatro projetos de lei que acabaram adiados por uma sessão.

Sessão não tratou de política 

A polêmica relacionada ao conflito na região de Gaza --onde 60 palestinos morreram em decorrência dos confrontos com as forças israelenses-- começou quando o vereador Otoni de Paula (PSC), da bancada evangélica, pediu a palavra para "saudar o povo judeu".

"Há 70 anos, no dia 14 de maio de 1948, [Israel] teve o seu reconhecimento como nação pela Organização das Nações Unidas. Na verdade, o que a ONU fez foi apenas dar direito a uma terra legítima dos filhos de Abraão e legítima dos herdeiros de Davi", declarou.

Em seguida, David Miranda (PSOL) respondeu que "existe um genocídio contra o povo palestino". Teresa Bergher (PSDB), que é judia, também fez considerações sobre o tema e acusou o PSOL de incoerência.

"Israel é um país livre, independente, soberano e democrático. A única democracia do Oriente Médio", disse. "Quando o senhor defende aqui LGBT e a questão da mulher, deveriam falar aqui, o senhor e o seu partido, o que acontece com os outros países. No Irã, por exemplo, os homossexuais ainda são enforcados em praça pública e as mulheres são apedrejadas. O único estado que realmente merece aplauso na região é Israel."

O debate prosseguiu no plenário e mobilizou Tarcísio Motta, líder do PSOL, que leu uma nota da executiva nacional do partido na qual o conflito em Gaza é definido como "carnificina". Na sequência, Otoni de Paula fez nova questão de ordem para reafirmar suas opiniões. "Israel não roubou nada de ninguém."

"Os judeus compraram uma terra que os palestinos não queriam. (...) E você nunca verá um israelita amarrando uma bomba no corpo e matando em nome de Jeová", completou o social-cristão.

As declarações ainda foram endossadas ou rebatidas por outros parlamentares, como Marcelo Arar (PTB) e Renato Cinco (PSOL).

Exposição LGBT é motivo de discórdia

Também houve uma intensa troca de farpas entre os vereadores Willian Coelho (MDB) e Leonel Brizola Neto (PSOL), motivada por um comentário do emedebista a respeito de uma exposição LGBT colocada em cartaz no saguão da sede do Legislativo por iniciativa do psolista David Miranda, que é militante da causa em favor de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e outros grupos.

Em questão de ordem, Coelho reclamou de dois cartazes que compõem a mostra e que teriam, segundo ele, conteúdo ofensivo. O primeiro teria a seguinte mensagem: "Eu beijo ele, eu beijo ela. Só não beijo o Crivella". Já o segundo, de acordo com o vereador, reproduziria um grito de ordem repetido em manifestações: "As gays, as bi, as trans e as sapatão [sic], estão tudo organizadas para fazer revolução".

"Até aí, tudo bem", comentou Coelho. "Mas o final diz assim: 'Com as putas'. Acho que isso é uma falta de respeito."

Em resposta, Leonel Brizola Neto (PSOL) declarou que o colega deveria "respeitar a manifestação cultural" e "colocar-se em seu lugar".

"O MDB vir falar em 'putaria'? Você me desculpa o termo da palavra. Vocês transformaram o país inteiro em um bordel. O vereador Willian Coelho andava para cima e para baixo de helicóptero com o Eduardo Cunha e agora vem falar de uma exposição?", alfinetou Brizola Neto, em referência a Cunha, deputado federal cassado, preso e condenado pelo juiz Sérgio Moro no âmbito da Operação Lava Jato.

Logo após as declarações do psolista, o expediente foi derrubado em razão da falta de quórum. Coelho deixou o plenário sem responder às provocações.

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