Operação Lava Jato

Operador detalha esquema que dava a Cabral metade de propina cobrada por dirigente do DER

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, no Rio

  • Fábio Motta/Estadão Conteúdo

    5.jun.2018 - O ex-governador Sérgio Cabral (MDB) chega ao prédio da Justiça Federal

    5.jun.2018 - O ex-governador Sérgio Cabral (MDB) chega ao prédio da Justiça Federal

O ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral (MDB) ficava com metade da propina cobrada pelo ex-presidente do DER (Departamento de Estradas de Rodagem) Henrique Alberto Santos Ribeiro no período em que esteve à frente do governo do estado do Rio de Janeiro (2007-2014). Em audiência na Justiça Federal, nesta terça-feira (12), o operador financeiro de Cabral, Carlos Miranda, detalhou parte do esquema.

Os "pagamentos eram feitos normalmente a cada 35 ou 40 dias", disse o depoente, que era um dos responsáveis pelo recolhimento do dinheiro em favor de Cabral. De acordo com a denúncia da força-tarefa da Lava Jato, o ex-governador recebeu, no total, mais de R$ 18 milhões no esquema do DER. As investigações são da Operação C'est Fini, realizada em novembro do ano passado.

Essa é uma das 24 ações penais nas quais Cabral é réu na Justiça Federal, sendo 23 no Rio (7ª Vara Criminal, do juiz Marcelo Bretas) e uma em Curitiba (13ª Vara Criminal, do juiz Sérgio Moro). As condenações do ex-governador já somam cem anos de prisão. Ele atualmente está detido em Bangu 8, no Complexo Penitenciário de Gericinó, na zona oeste carioca.

O dinheiro chegava a Miranda por meio de Lineu Castilho Martins, apontado na denúncia como operador do ex-presidente do DER. Em geral, relatou o depoente, eram parcelas periódicas que variavam entre R$ 100 mil e R$ 150 mil.

Lineu seria, na versão da denúncia, o homem designado por Ribeiro para recolher a propina que incidia em contratos que o DER, órgão vinculado à Secretaria de Estado de Obras, tinha com a empreiteira União Norte Fluminense Engenharia e Comércio. Os acordos somavam mais de R$ 378 milhões e consistiam em intervenções de restauração e melhorias operacionais em estradas do RJ.

Segundo a força-tarefa da Lava Jato, a empreiteira pagava aos agentes públicos envolvidos para garantir o recebimento dos recursos do Estado em razão dos serviços prestados. Parte do dinheiro desviado teria vindo do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).

Reprodução
Carlos Miranda, apontado pela Lava Jato como operador financeiro do ex-governador Sérgio Cabral

"A propina era arrecadada de acordo com os pagamentos feitos pelo governo do Estado com a empresa. Isso acontecia regularmente no governo Cabral", declarou Miranda.

Lineu se dirigia à União Norte para recolher o total da propina e depois dividia o valor ao meio entre Ribeiro e Cabral, segundo relatou Miranda. O valor recebido somente pelo ex-presidente do DER não foi apurado na investigação.

Coube a Miranda recolher a propina endereçada a Cabral até o fim do primeiro mandato do ex-governador (2010), de acordo com o depoimento. Entre 2011 e 2014, a função de operador foi exercida por Luiz Carlos Bezerra, também réu na ação penal.

Entre 2007 e 2010, Lineu entregava o dinheiro a Miranda em uma mochila, no Leblon, na zona sul do Rio, em um dos escritórios de Cabral, segundo as investigações.

Depois de 2010, os encontros entre o operador de Ribeiro e o emissário do ex-governador (Bezerra) passaram a ocorrer em locais aleatórios, como em um edifício-garagem no centro da cidade e em um estacionamento de uma loja de departamentos, em Laranjeiras, na zona sul.

Os valores pagos pela empreiteira em favor do emedebista só foram apurados depois que a PF apreendeu as anotações de contabilidade paralela de Bezerra, o que ocorreu na Operação Calicute, em novembro de 2016, quando Cabral foi preso.

As investigações da Lava Jato apontam que, durante o governo Cabral, a propina paga pela União Norte também teria sido direcionada para conselheiros do TCE-RJ (Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro) e a funcionários da Secretaria de Estado de Obras. O ex-presidente do órgão, Jonas Lopes, confirmou a versão acusatória em delação premiada homologada pela Justiça.

Além de Cabral e seus funcionários (Carlos Miranda e Luiz Carlos Bezerra), do ex-presidente do DER Henrique Alberto Santos Ribeiro e seu operador, Lineu Castilho, o ex-secretário de Estado de Governo Wilson Carlos atuou como intermediário no esquema de cobrança e pagamento de propina da União Norte, segundo afirma a força-tarefa. Os cinco respondem por corrupção passiva. Ribeiro e Lineu também são processados por pertinência à organização criminosa.

A reportagem ainda tenta a posição de todos os citados. Assim que as manifestações chegarem, elas serão incluídas na reportagem.

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