"É a força do poder político", diz ruralista amigo de Bolsonaro preterido para Agricultura

Gustavo Maia

Do UOL, em Brasília

  • Divulgação

    8.out.2018 - Nabhan Garcia entre Jair Bolsonaro e seus filhos, Flávio e Eduardo

    8.out.2018 - Nabhan Garcia entre Jair Bolsonaro e seus filhos, Flávio e Eduardo

O ruralista Luiz Antonio Nabhan Garcia, 60, era cotado para assumir o ministério da Agricultura no governo do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), mas viu nesta quarta-feira (7) o amigo de quase três décadas anunciar a deputada federal Tereza Cristina (DEM-MS) para o cargo.

Presidente da UDR (União Democrática Ruralista), ele afirmou em entrevista ao UOL que a líder da FPA (Frente Parlamentar Agropecuária) da Câmara foi um "apoio de última hora" --no primeiro turno, ela chegou a ser cogitada para o posto de vice do ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB), candidato da coligação do DEM-- e falou que o anúncio é uma "frustração" para a base produtora rural que apoiou Bolsonaro.

"Apoiei o Bolsonaro desde o início. Nunca fui um apoio de segundo tempo", desabafou o pecuarista, que organizou a primeira viagem do então candidato após o início oficial da campanha, um tour pelo interior de São Paulo iniciado por Presidente Prudente (SP), terra natal de Nabhan. Na avaliação dele, venceu a "força do poder político".

O pecuarista diz esperar que o governo cumpra a promessa de pôr fim à "velha política", mas fez questão de lembrar que desde a pré-campanha Bolsonaro alardeou que iria escolher para a pasta alguém indicado pela "base produtora".

Desde a eleição, o ruralista se envolveu em atritos públicos e reservados com o deputado federal Onyx Lorenzoni (DEM-RS), futuro ministro da Casa Civil, que é correligionário de Tereza. Na semana passada, Nabhan foi até a casa de Bolsonaro no Rio levar o nome do deputado federal Jerônimo Goergen (PP-RS) como indicação do setor para o ministério.

De pronto, Lorenzoni disse que o parlamentar não tinha chances de ser ministro, como revelou a revista Crusoé. Irritado, o presidente da UDR enviou em um grupo de WhatsApp da entidade uma mensagem dizendo que já viu "muito pavão virar espanador". A crítica vazou e apareceu em reportagem da revista Piauí

Também na semana passada, Onyx declarou à imprensa na saída de uma reunião com Bolsonaro que a fusão dos ministérios da Agricultura e Meio Ambiente --ideia inicialmente apresentada por Nabhan a Bolsonaro-- estava decidida. No dia seguinte, o ruralista afirmou que o presidente eleito ainda avaliava a ideia, descartada posteriormente.

Nabhan foi um dos poucos convidados por Bolsonaro a viajar com ele no avião da FAB (Força Aérea Brasileira) que levou o presidente eleito e sua comitiva do Rio para Brasília, na última terça-feira, para sua primeira rodada de atos oficiais desde a vitória nas urnas. Até esta quarta, ele era presença frequente ao lado de Bolsonaro em aparições públicas. Agora, diz ele, vai cuidar das fazendas que mantém no Mato Grosso.

*

Leia a seguir a entrevista com Nabhan Garcia:

UOL - Como o senhor recebeu o anúncio de Tereza Cristina para o ministério da Agricultura?

Nabhan Garcia - É natural. Recebi com muita naturalidade. Soube entender talvez as razões do presidente eleito, do Bolsonaro. Nós tínhamos uma expectativa do nome do deputado [federal] Jerônimo Goergen (PP-RS), porque ele realmente representa e tem uma afinidade muito grande com a base produtora. Ele sempre defendeu interesses de combate a carteis, a monopólios. Ele foi contra essa cobrança do Funrural [Tereza Cristina foi favorável], é autor de um projeto de lei que criminaliza o MST [Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra] nas invasões.

Enfim, é um parlamentar que teve sempre uma identificação muito grande com a base produtora, ao mesmo tempo em que ela teve uma decepção grande com alguns parlamentares. Eu consultei a base produtora em praticamente todos os Estados e o nome dele foi muito bem-vindo.

Mas o senhor chegou a ser cotado para assumir o cargo.

Nabhan Garcia - Na verdade, houve algumas especulações de que eu gostaria ou poderia ser ministro, mas eu nunca pedi nenhum cargo para o candidato Bolsonaro. Eu sempre tive uma postura de auxiliar e aconselhar o Bolsonaro, que me chamou de conselheiro para o agro. É uma amizade antiga, ele sempre foi um defensor da nossa classe, por isso houve essa empatia.

Agora a escolha da deputada Tereza Cristina pode ser que tenha algum tipo de frustração da base produtora, mas eu como presidente de uma entidade e como amigo do Bolsonaro entendo perfeitamente que é função dele escolher e estou torcendo para que dê certo. A partir de janeiro, o governo dele se inicia, e nós estamos na expectativa de que dê certo, para que a deputada Tereza Cristina seja realmente uma ministra que seja respaldada nos anseios da classe produtora rural.

Quando eu digo classe produtora rural, tem uma divisão. Uma coisa é a Frente Parlamentar Agropecuária, que é uma instituição que está lá para legislar, de parlamentares, e outra coisa são os produtores, que têm um anseio muito grande em ter alguém que realmente os represente lá no ministério da Agricultura, que não seja não seja de indicação política, e sim de indicação técnica. Eu não deixei para apoiar o Bolsonaro de última hora. Apoiei o Bolsonaro desde o início. Nunca fui um apoio de segundo tempo.

Rafael Carvalho/Gabinete de Transição
O presidente eleito Jair Bolsonaro e futura ministra da Agricultura, Tereza Cristina
A deputada Tereza Cristina foi um apoio de última hora?

Nabhan Garcia - Foi, obviamente que foi. Mas isso não quer dizer que eu estou aqui querendo fazer nenhuma crítica. Não. Estou dizendo que o nosso foi um apoio de sempre. E muitos apoios, inclusive, o da própria Tereza Cristina, foram de última hora. Mas na política as coisas funcionam assim. A gente vai vivendo e aprendendo. Parece que a força política tem mais força mesmo. Infelizmente, isso é um fato.

Mas nós estamos torcendo para que o governo Bolsonaro dê certo. Eu continuo amigo dele da mesma forma. Todas as vezes que ele me procurar, eu vou estar pronto para atendê-lo, para dar as minhas e as nossas sugestões. Mas, lá na frente, no governo, nós seremos amigos, parceiros, mas se eventualmente tivermos alguma frustração também vou dizer.

É muito prematuro agora nesse momento fazer qualquer emissão de juízo sobre a deputada Tereza Cristina ou sobre essa indicação, sendo que ela nem assumiu o papel dela de ministra. Isso aí é a partir de janeiro. Então vamos ver como vai ser o comportamento dela. Nós esperamos que seja ótimo e que realmente faça parte de tudo aquilo que o Bolsonaro prometeu na sua campanha.

Nos últimos dias, houve atritos entre o senhor e o deputado federal Onyx Lorenzoni, futuro ministro da Casa Civil. O senhor acha que houve interferência dele nessa indicação?

Nabhan Garcia - Pelo menos em bastidores, a conversa é que sim. Isso ficou muito evidente quando... essa situação um pouco desconfortável que aconteceu aí com o deputado Onyx foi justamente quando ele, acho que de forma equivocada, não sei, não posso dizer, fez uma afirmativa depois que nós tínhamos recém-passado a indicação da classe produtora. Tivemos uma resposta não do presidente da República, de que ele [Goergen] não seria o ministro.

Imediatamente, eu liguei para o presidente [eleito] Bolsonaro e ele disse: 'Olha, eu já desautorizei qualquer pessoa ligada a mim a emitir qualquer valor de juízo em relação a ministérios ou se eu gostei, se eu não gostei, se vai ser esse ou se vai ser aquele. É um bom nome, mas eu estou analisando'. E aí, não tem como as coisas serem escondidas. Nós já sabíamos, nos bastidores, que o deputado Onyx estava trabalhando em nome da deputada Tereza Cristina, inclusive tendo encontros com lideranças da Frente Parlamentar Agropecuária.

Eu fiz um comentário reservado, num grupo de amigos, de descontentamento em relação a essa postura do deputado Onyx. Acho que responder quem vai ou não vai ser ministro é atribuição única do presidente eleito. É um direito limpo e cristalino dele. Óbvio que tem sempre indicações. Ele sempre dizia que a indicação seria dos produtores, mas é direito dele escolher quem quer que seja.

Mas foi uma decepção para o senhor não ter sido considerado na indicação?

Nabhan Garcia - Eu não diria propriamente decepção, mas perceber que infelizmente ainda existe uma força do poder político. É legítimo. Mas minha amizade, meu respeito pelo presidente eleito Bolsonaro continuam os mesmos. E tem mais um detalhe, que fica acima de tudo. Estamos torcendo para que o governo dele dê certo. Tem que dar certo. Se não der, correremos um risco muito grande de o projeto de poder do PT voltar com tudo. Quatro anos passam muito rápido, voam.

Nós estamos torcendo para que essa vitória que foi nossa, do setor produtivo, dos brasileiros, do Brasil, seja concretizada com um bom governo, pondo fim à velha maneira de se fazer política, à velha política, a esses interesses próprios. Então nós esperamos da Tereza Cristina que vá lá combater mais imposto para produtores, a formação de carteis, de monopólios, que o BNDES seja um banco para poucos e que faça dele um banco de fomento para todos os produtores.

Então essa indicação foi uma demonstração dessa 'velha política'?

Nabhan Garcia - Não sei. Prefiro me abster desse comentário. Acho que não é o momento apropriado. Foi uma escolha do presidente, ele foi eleito. É prerrogativa dele. Esperamos que ele esteja certo. Não vamos torcer para dar errado. Seria uma incoerência, uma irresponsabilidade da nossa parte.

Não foi o nome que a gente gostaria? Não. Não foi o que a gente esperaria de um apoio da base, de várias lideranças que estiveram lá, visitaram ele, dos produtores com quem ele andou pelo Brasil inteiro, que eu acompanhei, e que diziam que queriam um nome vindo da base produtora, que não fosse aquele político que representasse a forma de fazer política, essa coisa toda. Mas nós temos que aceitar.

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