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Prêmio em SP vira palco para discursos pró e anti-Lula de escritor e Doria

Marco Ankosqui/Divulgação
3.dez.2018 - Premiados, entre eles João Doria, Pabllo Vittar e Luis Roberto Barroso, e convidados participam do evento Os Brasileiros do Ano da revista Isto É Imagem: Marco Ankosqui/Divulgação

Bernardo Barbosa

Do UOL, em São Paulo

03/12/2018 23h33Atualizada em 04/12/2018 01h28

A festa de premiação Brasileiros do Ano, realizada pela revista "IstoÉ" nesta segunda-feira (3) em São Paulo, acabou virando palanque político para elogios e críticas ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O petista cumpre pena pela condenação no caso do tríplex, da Operação Lava Jato, desde abril, e terá mais um recurso pedindo sua soltura julgado nesta terça-feira (4) pelo STF (Supremo Tribunal Federal).

A defesa do petista coube ao escritor Geovani Martins, enquanto o ataque ficou por conta do governador eleito de São Paulo, João Doria (PSDB), em um embate que resgatou o clima das eleições deste ano e expôs a divisão política que persiste no país após o pleito que elegeu Jair Bolsonaro (PSL) como presidente.

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Autor de "O sol na cabeça" e vencedor da categoria Brasileiro do Ano na Cultura, Martins afirmou que saber que Lula leu seu livro na prisão foi "um dos grandes orgulhos" de sua vida.

"Eu sou muito agradecido pelo governo do Lula, sempre vou ser agradecido e gostaria que esse recado chegasse a ele. Você não está sozinho, presidente", disse o escritor carioca de 27 anos, aplaudido por poucos convidados.

Premiado como Brasileiro do Ano na Política, Doria foi o último a discursar na cerimônia e fez questão de marcar um tom oposto à fala do escritor. Disse ter orgulho de Sergio Moro, juiz que condenou Lula e foi nomeado ministro da Justiça do governo Bolsonaro, e dos "delegados e promotores públicos que colocaram Lula na cadeia, onde deveria estar há muito tempo."

A fala de Doria provocou aplausos de boa parte da plateia e protestos dos mesmos convidados que, antes, aplaudiram Martins, com gritos de "Lula livre".

A defesa do ex-presidente afirma que não há provas dos crimes imputados a ele e recorre da condenação nos tribunais superiores.

"Lula na cadeia" x "Lula livre"

Depois da cerimônia de premiação, Martins disse ao UOL que defendeu Lula por considerar "um absurdo ouvir pessoas tratando como se a corrupção no Brasil tivesse começado com o PT".

"Eu não coloco minha mão no fogo por nenhum político, mas ele foi condenado sem provas, ele é um preso político, na minha leitura. O juiz que condenou ele vai ser ministro. Tudo isso para mim é muito esquisito", disse. "Existe um grupo de brasileiros que parece que se apossou da bandeira do Brasil, de alguns signos, e estão querendo vender que esse é o Brasil. Eu estava ali para falar sobre um outro Brasil, que existem várias pessoas que não concordam com esse tipo de pensamento".

A fala de não colocar a mão no fogo por políticos também foi dita pela atriz Jéssica Ellen em seu discurso pelo prêmio de Brasileira do Ano na Televisão. Jéssica ponderou, no entanto, que não poderia deixar de reconhecer que o governo Lula "fez diferença na vida de muitas pessoas".

"Talvez eu estaria aqui nesse evento, mas limpando o chão. Hoje eu estou aqui tendo a oportunidade de comunicar", afirmou a atriz, que atribuiu sua educação ao ensino público e a bolsas e projetos concedidos durante o governo Lula.

Doria, por sua vez, declarou à reportagem depois da cerimônia que considerou necessário fazer uma defesa do Judiciário brasileiro.

"Alguém vem aqui pedir 'Lula livre'? Eu não acredito, nem deposito qualquer tipo de apoio a quem pede Lula livre. Eu quero Lula na cadeia, e que ele cumpra na cadeia os crimes que cometeu. Aliás, ele e qualquer outro criminoso, de crime do colarinho branco ou não", afirmou o governador eleito de São Paulo, que declarou apoio a Bolsonaro no segundo turno da eleição.

Em seu discurso, Doria também elogiou o ministro do STF Luís Roberto Barroso -- que estava presente e foi laureado como Brasileiro do Ano na Justiça. O magistrado assistiu aos embates políticos impassível. Em seu discurso, dedicou seu prêmio aos "delegados, procuradores e juízes" que atuam contra a corrupção, e à "sociedade brasileira", que segundo ele "deixou de aceitar o inaceitável".

Antes da dedicatória, Barroso disse que "a vida é plural e comporta muitos pontos de observação, e a gente precisa compreender e respeitar a todos."

Artistas lembram Marielle Franco

Assim como Geovani Martins e Jéssica Ellen, o humorista Marcelo Adnet foi um dos nomes ligados à cultura que deu cores políticas aos discursos de agradecimento. Ele dedicou seu prêmio, entre outros, à vereadora carioca Marielle Franco (PSOL-RJ), assassinada em março junto com o motorista Anderson Gomes. O crime até hoje não foi esclarecido, e as investigações apontam para o envolvimento de políticos, policiais e milicianos.

Marielle também foi mencionada nas falas da atriz Jéssica Ellen e de Martins, que ainda fez uma dedicatória ao mestre capoeirista Moa do Katendê, assassinado em Salvador durante a campanha eleitoral após uma discussão sobre política.

A cantora Pabllo Vittar também marcou posição, sem citar partidos ou lideranças políticas. Premiada como Brasileira do Ano na Música, ela fez uma defesa da população LGBT.

"Queria agradecer a todas as pessoas que acreditaram no meu sonho. A todas as pessoas que acreditaram numa criança 'viada', afeminada, nordestina", disse. "E oferecer esse prêmio a todas as Marias, Anas, Fernandas, Dandaras, Pabllos Vittares, travestis, gays, humanos. Esse prêmio é para vocês."

Veja abaixo quem foram os premiados de IstoÉ e IstoÉ Dinheiro:

  • Brasileiro do Ano – O eleitor
  • Brasileiro do Ano na Política – João Doria, governador eleito de São Paulo
  • Brasileiro do Ano na Justiça – Luis Roberto Barroso, ministro do STF
  • Brasileiro do Ano na Televisão – Jéssica Ellen, atriz
  • Brasileiro do Ano na Comunicação – Marcelo Adnet, humorista
  • Brasileiro do Ano no Esporte - Gabriel Medina, surfista, e Luiz Felipe Scolari, técnico do Palmeiras
  • Brasileira do Ano na Música – Pabllo Vittar, cantora
  • Brasileiro do Ano na Cultura – Geovanni Martins, escritor
  • Empreendedor do Ano – Octávio de Lazari Júnior, presidente do Bradesco
  • Empreendedor do Ano no Agronegócio – Marcos Molina, Presidente do Conselho de Administração e Controlador da Marfrig Global Foods
  • Empreendedor do Ano em Impacto Social– Eduardo Mufarej, idealizador do movimento RenovaBR
  • Empreendedor do Ano na Indústria – João Miranda, CEO do Grupo Votorantim
  • Empreendedor do Ano em Serviços – Irlau Machado, presidente da NotreDame Intermédica
  • Empreendedor Social no Varejo – Patrice Etlin, sócio-controlador do Fundo de Investimento Advent na América Latina