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Alinhado com Guedes, Kim Kataguiri quer relatar a reforma da Previdência

Eduardo Militão/UOL
Para Kim, "naturalmente", Jair Bolsonaro "vai tratar melhor os aliados incondicionais do que os críticos" Imagem: Eduardo Militão/UOL

Eduardo Militão e Wellington Ramalhoso

Do UOL, em Brasília e São Paulo

03/02/2019 04h00

Ele é o segundo deputado federal mais jovem do país e um dos coordenadores do MBL (Movimento Brasil Livre), grupo que insuflou a -- e surfou na -- onda de protestos pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT). O estudante de direito Kim Kataguiri (DEM-SP), 23, assumiu uma vaga na Câmara alinhado com uma das principais figuras do governo Jair Bolsonaro (PSL), o ministro da Economia, Paulo Guedes. A afinação é tanta que Kim reivindica o cargo de relator da proposta de reforma da Previdência, projeto prioritário da equipe econômica.

Em entrevista ao UOL dias antes de assumir o mandato, Kim contou que Guedes é o ministro com quem mantém mais contato e que a concordância entre eles é "praticamente total". O jovem parlamentar também tem discutido o tema da Previdência com economistas como Eduardo Loyo, ex-diretor do Banco Central; Marcos Lisboa, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda; Marcelo Caetano, ex-secretário de Previdência; e Hélio Zylberstajn, professor da USP (Universidade de São Paulo).

O principal objetivo desses quatro anos é aprovar uma reforma previdenciária. Vai ser o foco do meu mandato porque é o principal problema do país. Hoje a maior parte do orçamento para vai a Previdência e não deveria ir. Se a gente não solucionar esse problema, não volta a gerar emprego, não controla a inflação, não controla a taxa de juros, não tem dinheiro para nada.

O papel do relator é ser o responsável pelo texto da proposta e quem mais tem que conhecê-la, a fim de defender sua essência caso seja preciso ceder em alguns pontos. O deputado já pediu apoio do governo para exercer a função. Ouviu do ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, que seu nome será considerado pela equipe de Bolsonaro. "Se depender de uma indicação partidária, vou ser eu [o relator da reforma]. Conversei dentro da bancada, e ninguém quer [o cargo]."

Reprodução
"É preciso mostrar que a Previdência atual é transferência de renda do mais pobre para o mais rico", diz Kim Imagem: Reprodução

Modelo híbrido de Previdência

Kim e o MBL defendem um modelo previdenciário baseado em estudo da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas). Ele não mexeria com direitos adquiridos e valeria para as novas gerações. Seria um sistema híbrido, que combinaria três regimes: repartição geracional, renda mínima e capitalização --- medida defendida internamente pelo governo, embora o projeto não esteja pronto. 

O modelo em vigor é o de repartição geracional. Nele, as contribuições dos trabalhadores da ativa financiam o pagamento das aposentadorias, ou seja, da geração anterior. O teto de pagamentos é de R$ 5.839,45 hoje.

Pela proposta de Kim, o teto neste regime cairia para R$ 2.000. A compensação para este corte seria a abertura para se acumular valores de outras duas maneiras. Todos teriam direito a uma renda mínima como aposentadoria, porém este valor seria de pouco mais de R$ 500. E o cidadão também poderia fazer uma capitalização, que é basicamente uma poupança - o trabalhador guarda dinheiro para a própria aposentadoria. Para o jovem deputado, o novo sistema deveria incluir os militares.

O cara que hoje só consegue se aposentar com salário mínimo ia ter renda mínima, que hoje seria uns R$ 500 corrigidos pela inflação mais o que ele contribuiu na repartição e o que ele contribuiu na capitalização. A expectativa é que dê pelo menos R$ 1.500.

Discurso de combate a privilégios

Kim conta com o apoio do MBL para defender a urgência da reforma. Ela é a principal pauta do grupo em 2019, como afirmou o deputado em entrevista à RedeTV!.

Com grande número de seguidores na redes sociais, Kim e o MBL usarão como estratégia o discurso de que a mudança na Previdência combaterá privilégios. "As classes altas são as que mais recebem dinheiro da Previdência. [É preciso] mostrar que [o sistema atual] é um esquema de transferência de renda do mais pobre para o mais rico e combater esse tipo de abuso", declara o deputado.

Para ele, basta a reforma para a economia do país crescer com força. "Com a reforma da Previdência, o Brasil se torna um mercado emergente mais atraente [para investidores internacionais]".

Leandro Prazeres/UOL
Kim Kataguiri participa de manifestação contra Lula em abril de 2018 Imagem: Leandro Prazeres/UOL

Militância defende Bolsonaro por considerá-lo "coronel"

Kim foi o quarto deputado mais votado por São Paulo, com 458 mil votos, e atribui o resultado à comunicação nas redes sociais. "As votações mais expressivas foram para quem está mais com comunicação direta. Campanha em rede social é mais barata, mais simples e hoje está dando muito mais resultado".

Em seu gabinete na Câmara, ele conta com um funcionário responsável por cuidar de redes sociais. A equipe do parlamentar também tem um chefe de gabinete com formação em economia, um advogado, um secretário e dois funcionários designados para acompanhar comissões da Casa. Um deputado poder ter mais de 20 assessores. "Não precisa. A não ser que quisesse contratar gente para ficar fazendo campanha para mim durante quatro anos no estado."

Kim abriu mão do privilégio do auxílio-mudança para Brasília. Mesmo parlamentares que moram na cidade, como o presidente eleito Jair Bolsonaro, que era congressista até o mês passado, receberam o benefício. O presidente não explicou porque necessitava dos valores.

O deputado disse que é um aliado "crítico" do presidente. Ele entende que setores da militância bolsonarista defendem o filho do presidente, o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), envolvido em uma investigação cível do Ministério Público, sob qualquer aspecto. Kim publicou em suas redes sociais uma foto de uma máquina de refrigerante em que apoiava investigar tanto políticos de esquerda quanto de direita. "Hoje eu apanho muito da militância do Bolsonaro", lembra.

Para ele, parte da militância enxerga o atual presidente da República como um "coronel". Esses setores exigiam menos indícios para se queixar da corrupção do PT em relação ao que estão exigindo agora sobre o caso Flávio Bolsonaro, analisa Kim. E isso não é bom. "Agora que eles são governo existe estado de direito. Antes, não." Qual o motivo disso? "Talvez seja herança do patrimonialismo, você sempre protegeu seu protetor, seu ídolo, seu coronel", avalia.

Haveria outros coronéis?, pergunta a reportagem. "Cada um tem o seu. Para a militância radical do Bolsonaro, é o Bolsonaro. Para a militância radical do Lula, é o Lula. Para a militância radical do Ciro, é o Ciro."

O deputado apoiaria uma investigação contra o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) por seu envolvimento em operações financeiras ilícitas, ainda que isso atingisse o governo federal e o pai dele.

O apoio "crítico" talvez não o faça ser tão bem recebido por Jair Bolsonaro. Isso pode deixar o relacionamento num nível mais baixo. "Não tão bom, né? Mas bom. Não vai ser tão bom porque, naturalmente, ele [Jair Bolsonaro] vai tratar melhor os aliados incondicionais do que os aliados críticos. Esses são mais valiosos para o governo."

Aliados alertam para perigo de "reality show"

Colegas do DEM mais experientes entendem que é na transição entre as redes sociais e a política que mora o perigo para novos deputados como Kim.

Deputado federal em segundo mandato, Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ) é uma espécie de irmão mais velho da turma do MBL. Foi eleito em 2018 contando com o apoio do grupo e alerta para os perigos das redes sociais.

"Os candidatos da MBL puro foram eleitos através de quase que um reality show nas redes sociais, e tenho muito receio de transferirem este modelo de reality show para o mandato. Isso mal feito pode ser um problema para eles", avalia Sóstenes. "As redes podem destruir rapidamente uma imagem que foi construída de maneira célere."

Crise de identidade e choque

"Eles vão passar por momentos de crise de identidade, de deixar de ser um militante, ativista, para ser um político de mandato. O conselho que dou é que tenham cuidado porque é uma linha muito tênue fazer política se expondo em redes sociais 24 horas. Se acertarem a forma de fazer esse reality show estando com o mandato, serão impecáveis", completa o deputado do Rio. 

Um dos vice-presidentes do DEM, o ex-deputado Alberto Fraga acaba de encerrar seu quarto mandato na Câmara e classifica Kim como "jovem político talentoso", mas prevê que parlamentares como ele enfrentarão dificuldades na Câmara. "É uma nova safra de políticos. Essas pessoas novas vão ter um choque. Nas redes sociais você pode falar o que bem quer. Isso é bem diferente de um mandato parlamentar."

Adversária vê cinismo e armadilhas

A forma como Kim usou as redes sociais antes do mandato é criticada por uma "velha", ainda que jovem, conhecida do estudante de direito. A deputada federal Sâmia Bonfim (PSOL-SP), 29, também estreia na Câmara, mas já foi vereadora na capital paulista.

"Encontrei o Kim Kataguiri em alguns debates", lembra ela. "Ele geralmente adota um tom provocador, cínico, tentando criar 'armadilhas' para seu interlocutor para que possa lançar trechos editados do vídeo em suas plataformas. A estratégia dele e do MBL não é apresentar argumentos aprofundados e racionais, mas apelar para uma performance que crie mais confusão e facilite espalhar mentiras, distorções e, dessa forma, intolerância, ódio e preconceito."

Sâmia estará do outro lado da trincheira no debate sobre a reforma da Previdência defendida por Kim. "Os argumentos em favor da reforma utilizam dados distorcidos e ainda por cima ignoram outras saídas para melhorar a situação fiscal do país que não passam pelo ataque aos trabalhadores, como auditoria da dívida pública, por exemplo."