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Exército confirma comemoração ao golpe de 64 e fala em 'fato histórico'

11.jan.2019 - Bolsonaro em cerimônia de passagem de cargo no Exército com o general Edson Leal Pujol (de costas na foto) - Pedro Ladeira/Folhapress
11.jan.2019 - Bolsonaro em cerimônia de passagem de cargo no Exército com o general Edson Leal Pujol (de costas na foto) Imagem: Pedro Ladeira/Folhapress

Marcela Leite

Do UOL, em São Paulo

26/03/2019 19h11

Depois de o presidente Jair Bolsonaro (PSL) orientar que os quartéis comemorem o aniversário do golpe militar de 1964, ocorrido em 31 de março, estão sendo preparadas pelos militares solenidades nos moldes daquelas em que "se comemora um fato histórico em que o Exército tenha tomado parte".

A informação foi confirmada pelo Centro de Comunicação Social do Exército, em resposta a questionamentos enviados pelo UOL sobre a cerimônia.

O evento também já aparece na agenda do comandante do Exército, General Edson Leal Pujol, como "solenidade comemorativa".

Agenda do General do Exército Edson Pujol mostra "solenidade comemorativa ao Dia 31 Mar 1964" - Reprodução - Reprodução
Agenda do General do Exército Edson Pujol mostra "solenidade comemorativa ao Dia 31 Mar 1964"
Imagem: Reprodução
A comemoração está agendada para a sexta-feira (29), às 8h, no Comando Militar do Planalto, em Brasília, e "seguirá os mesmos procedimentos previstos na legislação", segundo o Exército.

Haverá apresentação da tropa à autoridade militar mais antiga, os presentes cantarão o hino nacional, será lida uma ordem do dia e depois haverá um desfile para a autoridade máxima presente.

Hoje, o MPF (Ministério Público Federal) afirmou que a recomendação sobre as celebrações é "revestida de enorme gravidade constitucional" e desrespeita o estado democrático de direito.

Governo com grande presença militar

O governo Bolsonaro reúne o maior número de militares na Esplanada dos Ministérios desde o período da ditadura, que se iniciou em 1964 - quando um golpe militar derrubou o ex-presidente João Goulart - e terminou apenas em 1985.

Em entrevista coletiva concedida ontem, o porta-voz da Presidência, Otávio Rêgo Barros, afirmou que "o presidente não considera 31 de março de 1964 golpe militar" e que os 21 anos de ditadura serviram para "recolocar o nosso país no rumo".

O presidente foi convencido que as celebrações sejam feitas de maneira discreta, sem manifestações públicas, como era antes de a ex-presidente Dilma Rousseff retirar a data do calendário oficial de comemorações do Exército.

O receio é que comemorações públicas efusivas possam piorar o clima político do país e ofuscar a reforma da Previdência, prioridade do governo.

Bolsonaro e a ditadura

Ainda antes de entrar na corrida ao Palácio do Planalto, Bolsonaro já demonstrava admiração pelo período da ditadura.

Em abril de 2016, durante votação do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, o então deputado homenageou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-chefe do DOI-Codi de São Paulo, órgão de repressão política do governo militar.

"Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff", disse, na ocasião, ao votar a favor da cassação do mandato. Dilma foi presa em 1970 e torturada por agentes da ditadura enquanto pertencia à luta armada formada pela esquerda brasileira.

Ustra é acusado de ter comandado torturas a presos políticos, assim com a ex-presidente. É dele o livro de cabeceira de Jair Bolsonaro, de acordo com entrevista dada ao programa Roda Viva, da TV Cultura, durante o período eleitoral.

"A Verdade Sufocada" conta o que ocorreu no período da ditadura sob o ponto de vista dos militares, dizendo "a história que a esquerda não quer que o Brasil conheça".

Também enquanto deputado, em 2015, Bolsonaro celebrou a data do golpe ao lado dos filhos Flávio e Eduardo, em frente à Esplanada dos Ministérios. Com um rojão na mão, ele posou para fotos junto a uma faixa com os dizeres "Parabéns, militares. Graças a vocês, o Brasil não é Cuba".

O governo Bolsonaro teve início em 1º de janeiro de 2019, com a posse do presidente Jair Bolsonaro (então no PSL) e de seu vice-presidente, o general Hamilton Mourão (PRTB). Ao longo de seu mandato, Bolsonaro saiu do PSL e ficou sem partido até filiar ao PL para disputar a eleição de 2022, quando foi derrotado em sua tentativa de reeleição.