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Com caciques fora de cena, MDB vive crise de identidade e busca renovação

Newton Menezes/Futura Press/Estadão Conteúdo
A polícia e o ex-presidente: à parte da transição, Temer tem cuidado de seus problemas criminais Imagem: Newton Menezes/Futura Press/Estadão Conteúdo

Eduardo Militão

Do UOL, em Brasília

2019-05-20T04:01:00

2019-05-20T12:17:37

20/05/2019 04h01Atualizada em 20/05/2019 12h17

Por muito tempo ouviu-se em Brasília variantes da frase "não dá para governar o país sem o MDB", que ainda se chamava PMDB.

Porém o pleito de 2018, que colocou a extrema-direita no Palácio do Planalto e de forma massiva também no Congresso, reduziu a bancada de deputados e senadores emedebistas. Caciques que há décadas estavam em Brasília saíram de cena. Nomes como Romero Jucá, Eduardo Cunha, Eunício Oliveira, Henrique Eduardo Alves estão agora sem mandato, presos ou investigados pela Operação Lava Jato.

Sem os velhos líderes, o partido busca nos bastidores, de maneira muito decidida, uma nova identidade. Em setembro a sigla irá definir seu novo comandante e, em seguida, vem a disputa das eleições municipais. Tradicionalmente, o partido cinquentão é bom de voto nessas disputas locais.

Renovar para sobreviver

O próprio presidente da legenda, o ex-presidente da República Michel Temer, é réu e acaba de sair da cadeia pela segunda vez neste ano. Licenciado da sigla, ele deixou o comando para o ex-senador Romero Jucá, também réu na Operação Lava Jato por corrupção. Jucá tem defendido a renovação dos quadros e é elogiado neste aspecto por figuras que pregam mudanças, como a senadora Simone Tebet (MS).

Jucá tem reunião marcada com o ex-deputado Daniel Vilela, ex-candidato a governador de Goiás. Ele é um possível candidato a dirigir o MDB, mas nada está definido ainda -- é cedo e os dirigentes estão atrás de consenso.

O doutor em Ciência Política e professor do Insper Carlos Melo entende que o MDB tenta se recuperar de uma "doença grave" chamada "fisiologismo" e que quase leva o partido à "overdose".

"É um convalescente de uma doença grave, que ainda não passou", compara. "Talvez tenha passado pela crise mais aguda. Está tentando se recuperar. Se está tomando placebo ou remédio de verdade, só o tempo dirá."

Temer "não tem tempo"

Do lado de fora da disputa, Michel Temer não tem interferido, segundo fontes ouvidas pela reportagem. Cuidando de sua defesa, ele não tem tempo para atuar na transição do partido.

Por outro lado, o ex-presidente da República José Sarney atua como um conselheiro. "Ele tem recomendado o diálogo, [pedindo] que possamos ouvir e compreender esses movimentos todos", narra o líder do MDB no Senado Eduardo Braga (AM). "[Pede para] fazer com muita prudência e moderação a transição que precisamos para esse novo momento da democracia."

Ex-governador do Amazonas, o senador concorda com Sarney. É preciso trocar os líderes no comando do partido.

É óbvio que terá que haver uma renovação, inclusive no meu partido, na estrutura de comando do partido. O MDB precisa oxigenar sua cúpula partidária"
Eduardo Braga, líder do MDB no Senado

Marcos Corrêa/PR
4.abr.2019 - Bolsonaro recebeu, ao lado de Onyx Lorenzoni, Romero Jucá, presidente do MDB, além de Baleia Rossi e Eduardo Braga Imagem: Marcos Corrêa/PR

Sucessão de casos de polícia

O ex-senador e membro da Executiva partidária Wellington Salgado (MG) disse que os casos criminais dos principais caciques os fizeram perder o mandato e ainda colocaram o partido na berlinda. O momento é "difícil" e exige renovação.

"São os vários acontecimentos no Judiciário envolvendo membros do partido", contou. "Na Bahia, Geddel [Vieira Lima, ex-ministro preso depois que acharam bunker dele com R$ 51 milhões em dinheiro vivo]. No Rio, Serginho [o ex-governador Sérgio Cabral está condenado a mais de 100 anos de cadeia]. Em Rondônia, [ex-senador Valdir] Raupp [investigado na Lava Jato e sem mandato]. No Maranhão, [o ex-ministro Edison] Lobão [também sob investigação]."

Mas Salgado entende que houve "criminalização da política" com práticas ilegais, mas antes "aceitas socialmente". Como o partido sempre foi importante, tornou-se um alvo bem visível com a Lava Jato.

A gente vivia um momento em que tinha coisas que todos sabiam que era ilegal e que a sociedade aceitava. A sociedade mudou: 'Não meu amigo, isso aqui é ilegal e não pode ser feito'. Aí, acabou"
Wellington Salgado, ex-senador e empresário

Luciana Quierati/UOL
15.maio.2019 - Os manifestantes espalham-se em vários pontos da Avenida Paulista, uma das principais vias de São Paulo Imagem: Luciana Quierati/UOL

Democracia: o retorno a um valor básico

Eduardo Braga contou que essa nova "identidade" do partido ainda está em formação. Mas ele concorda que a defesa da democracia - que marcou o MDB entre o fim da ditadura e a retomada das eleições gerais - deve ser uma dessas bandeiras. "Finalmente alguns que estavam entendendo que a democracia não fosse mais tão importante, entenderam que é exatamente nela que podemos defender aquilo que conquistamos e aquilo que queremos avançar", disse.

Um exemplo citado por ele são as manifestações em favor da educação que tomaram as ruas de mais de 200 cidades no país na quarta-feira passada (15), em protesto contra cortes orçamentários feitos pela gestão de Bolsonaro.

Essa avaliação de defesa da democracia encontra eco em vários políticos ouvidos pelo UOL nos últimos dias. Mas ainda não está clara quais exatamente seriam as agendas e bandeiras que dariam uma identidade ao partido nas próximas eleições, como foi a redemocratização na época do ex-deputado Ulysses Guimarães, que dá nome à fundação da sigla.

De olho no MDB
Políticos cogitados para comandar o partido

- Renan Filho, governador* de Alagoas
- Hélder Barbalho, governador* do Pará
- Ibaneis Rocha, governador* de Brasília
- Ivo Sartori, ex-governador do Rio Grande do Sul
- Daniel Viela, ex-deputado e ex-candidato a governador de Goiás
*O estatuto do MDB precisaria ser mudado para permitir que um governador assumisse a Presidência do partido


Senadora defende uma posição ao centro

O MDB decidiu ser independente do governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro (PSL). Apesar disso, mantém um ministro -- Osmar Terra (Cidadania) -- e um líder atuando para o Executivo no Senado -- Fernando Bezerra.

Ainda assim criticam o governo do pesselista. "O armamentismo é uma vitória de Pirro", afirma o governador de Alagoas, Renan Filho, em entrevista ao UOL. "Ele não vai levar isso à frente."

"É preciso primeiro que governo diga a que veio e governe", alfineta Simone Tebet. Que governo é esse? Não consegue resolver os problemas mais corriqueiros." Ela condenou a ação do polemista Olavo de Carvalho, guru de Bolsonaro: "Não é possível um homem só parar o país".

Simone Tebet diz que uma das bandeiras deve ser rejeitar qualquer tipo de fisiologismo e adesismo automático a governos. A segunda é focar no espectro ideológico do centro. "Temos que mostrar no programa que somos um partido de centro, de centro democrático. Isso está faltando hoje no Brasil."

MDB precisar valorizar prefeituras, diz líder

O partido é o que comanda o maior número de prefeituras no Brasil, com mais de mil prefeitos. Sua característica é fortemente regional, ligada a pequenos e médios municípios do interior. Por isso, o líder do MDB na Câmara, Baleia Rossi (SP), lembra que a defesa dos municípios deve ser um dos eixos da sigla.

Da mesma forma, fazer uma reforma tributária que permita redistribuir o dinheiro arrecadado entre prefeituras deve ser prioridade para ele. O líder do MDB é autor da proposta que unifica impostos e que está em discussão na Câmara, ainda focada nas discussões sobre a Previdência.

Para Renan Filho, a retomada do desenvolvimento tem que estar nos princípios de um novo partido. "O país está há dez anos sem crescer", lembrou o filho do senador Renan Calheiros (AL). "Ninguém aguenta mais isso".

Apesar de ser elogiado pelos colegas para comandar o partido por ter bons índices de popularidade, o governador de Alagoas diz que esse não é seu objetivo, embora ele não descarte nada. "Antes de se definir uma cara, é preciso discutir o projeto", contou.

O que é o MDB

- Um dos mais antigos partidos do país, formado em 1965

- A ditadura militar exigiu que o Movimento Democrático Brasileiro passasse a se chamar PMDB, mas, há dois anos, a antiga sigla foi retomada.

- 1 ministro

- 1 líder do governo no Senado

- 3 governadores

- 13 senadores, a maior bancada do Senado

- 34 deputados federais, menos que os cerca de 50 do passado

- 1.030 prefeitos, a maior quantidade para um partido no país

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