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Acuados, ministros do governo unificam discurso e acusam 'sensacionalismo'

Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, durante audiência na comissão de integração nacional e desenvolvimento regional da Amazônia, na Câmara dos Deputados - Renato Costa/Folhapress
Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, durante audiência na comissão de integração nacional e desenvolvimento regional da Amazônia, na Câmara dos Deputados Imagem: Renato Costa/Folhapress

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, em Brasília

08/08/2019 04h01

O ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente) repetiu ontem (7) uma estratégia que já havia sido utilizada pelo colega Sergio Moro (Justiça e Segurança Pública) no Senado: bater na tecla de um suposto "sensacionalismo" na divulgação de manchetes que repercutem negativamente para o governo.

Questionado pelos senadores sobre o desmatamento no país e sobre a demissão do diretor do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), o ministro declarou que há uma "pauta política" como pano de fundo na causa ambiental. E que a divulgação "sensacionalista" atenderia a interesses econômicos de grupos supostamente interessados na liberação de recursos, como as ONGs.

Salles participou de uma audiência pública para prestar esclarecimentos sobre a gestão do Fundo Amazônia, outro ponto que tem gerado críticas ao governo Jair Bolsonaro (PSL). Ao rebater a tese de que a política ambiental atual pode atrapalhar o acordo do Mercosul com a União Europeia, Salles eximiu o governo de responsabilidade.

Para ele, a culpa seria de quem está "jogando contra": as ONGs e "alguns militantes" que "estão fazendo sensacionalismo interno no Brasil" e "fomentando certas discussões" no mercado internacional.

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Dados em xeque

A indignação do ministro em relação ao que diz ser "sensacionalismo" tem um epicentro: o relatório do Inpe que apontou alta de 88% no desmatamento na Amazônia em junho.

O alerta foi divulgado em julho pelo órgão subordinado ao Ministério da Ciência e Tecnologia e tem como base de comparação o mesmo mês do ano anterior. Este teria sido, na versão inicial do instituto, o segundo mês consecutivo do aumento do desmate no governo Bolsonaro.

Na audiência pública, Salles voltou a dizer ontem que as estatísticas do Inpe não são confiáveis, apesar de reconhecer que o desmatamento vem aumentando desde 2012.

A versão contraria a comunidade científica, que argumenta que as informações do Inpe são fundamentais para orientar políticas públicas da pasta. O ministro, por outro lado, diz que há erros metodológicos que levam a "distorções" e a "alarmismo". Mas não apresenta os dados que, em tese, estariam corretos.

Moro disse 51 vezes 'sensacionalismo'

Em junho, ao comparecer voluntariamente à CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) do Senado, Sergio Moro se defendeu de críticas de parlamentares com a mesma argumentação: "sensacionalismo". Durante a audiência que se arrastou por mais de nove horas, ele repetiu o termo 51 vezes (singular e plural).

A tática de Moro foi repelir o teor do conteúdo das conversas obtidas e publicadas pelo site The Intercept Brasil. Os diálogos entre o ex-juiz federal, que esteve à frente das ações penais da Lava Jato, e o procurador Deltan Dallagnol, chefe da acusação, contêm indícios de que havia um esquema de colaboração entre as partes.

"Vamos colocar assim, que a divulgação dessas mensagens está ali repleta de sensacionalismos, é uma exacerbação sobre o conteúdo dessas supostas mensagens", disse Moro à época.

Em junho, Moro falou em 'sensacionalismo'

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Dados 'espancados'

A audiência no Senado realizada ontem não foi a primeira oportunidade em que Salles se referiu à divulgação dos dados do Inpe como "sensacionalismo".

Na quinta passada (1º), o ministro do Meio Ambiente convocou uma coletiva para dar explicações a respeito das estatísticas de desmatamento e afirmou que "a fórmula adotada até agora não é a mais adequada".

Completou dizendo: "É preciso retirar do sensacionalismo que está por trás da divulgação desses percentuais e colocar um pouco de mais racionalidade em um tema que é do interesse de todos os brasileiros."

Na mesma ocasião, Jair Bolsonaro declarou que os números foram "espancados" com o objetivo de "atingir o nome do Brasil e do atual governo". "Eu não quero inferir, começar a falar de possíveis ligações com isso ou aquilo, questões pessoais. Mas é muito estranho porque aconteceu num momento em que o Brasil dá sinais claros de que vai recuperar sua economia."

A coletiva, realizada no Palácio do Planalto, ocorreu no dia anterior à demissão do diretor do Inpe, o físico Ricardo Galvão. O cientista perdeu o cargo após rebater críticas do presidente. Na troca, o governo nomeou um militar, Darcton Policarpo Damião, para ocupar interinamente o posto.

"Precisaria ter colocado esse ponto de razoabilidade e bom senso e ele [Galvão] se furtou a isso. Pelo contrário, colocou lenha na fogueira", justificou Salles, ontem.

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