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Eduardo Bolsonaro apoia menino que vende geladinhos e incentiva trabalho

Evaristo Sá/AFP
Imagem: Evaristo Sá/AFP

Do UOL, em São Paulo

09/09/2019 17h56

Eduardo Bolsonaro (PSL) deu apoio na noite de anteontem (7) ao menino Adão, que vende geladinhos na cidade de Grajaú, no Maranhão, e sofreu bullying de outros garotos da região. O deputado federal disse que tentará visitá-lo e incentivou o trabalho.

"Continue perseverando e trabalhando. Esses moleques aí são todos vagabundos, tá? Não escuta eles, não", disse o filho do presidente da República em live realizada com Adão no Instagram. Na mesma conversa, Eduardo disse: "Vou tentar dar um pulo aí".

"No Brasil, nem todos aprenderam que trabalho é trabalho, indigno é não trabalhar", escreveu o deputado em publicação na mesma rede social. Adão foi alvo de piadas de outros garotos, mas policiais locais se aproximaram e compraram geladinhos para apoiá-lo.

A discussão sobre trabalho infantil não é novidade para Jair Bolsonaro (PSL) e outros políticos ligados a ele. Em julho deste ano, Eduardo Bolsonaro compartilhou uma imagem que mostra os cantores Sandy e Junior, a apresentadora Maisa, e as atrizes Marina Ruy Barbosa e Bruna Marquezine.

"Assim como palmadas para educar o filho é uma coisa e maltratar a criança é outra, a mesma distinção se faz necessária nessa questão do trabalho infantil", escreveu, na ocasião. A foto publicada tem esta frase: "Será que eles gostariam de ter começado a carreira após os 18 anos?".

No mesmo mês, o presidente Jair Bolsonaro defendeu o trabalho infantil usando como principal argumento sua experiência pessoal. "Olha só, trabalhando com nove, dez anos de idade na fazenda eu não fui prejudicado em nada", começou.

"Quando um moleque de nove, dez anos vai trabalhar em algum lugar, tá cheio de gente aí [dizendo]: 'Trabalho escravo, não sei o quê, trabalho infantil'. Agora, quando tá fumando um paralelepípedo de crack, ninguém fala nada", completou o presidente, que disse que só não apresentaria um projeto que descriminalizasse o trabalho infantil porque sabia que seria "massacrado".

No mesmo dia, Jair Bolsonaro negou ter defendido o trabalho infantil. "Não devemos confundir o incentivo ao trabalho e à disciplina com exploração, abuso e abandono da escola. São coisas completamente distintas e todos sabemos disso", escreveu.

Trabalho infantil é crime

A Constituição federal, segundo seu artigo 7º, proíbe "qualquer trabalho a menores de 16 anos, salvo na condição de aprendiz, a partir de 14 anos". Mesmo assim, segundo dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde, o Brasil teve, entre 2007 e 2018, 261 mortes e 43.777 acidentes de trabalho com crianças e adolescentes entre cinco e 17 anos.

A coordenadora nacional de Combate à Exploração do Trabalho da Criança e do Adolescente (Coordinfância) do MPT (Ministério Público do Trabalho), Patrícia Sanfelici, afirmou ao UOL que esse tipo de opinião é frequente na sociedade brasileira e é justamente o que as autoridades tentam combater diariamente.

Ela lembra ainda que a proibição do trabalho infantil não é algo aleatório. "Temos que pensar nos riscos e prejuízos para crianças e adolescentes. Qualquer risco ergonômico de trabalho é muito mais intenso, exige muito mais do adolescente e da criança. A sua acuidade visual [capacidade de visualizar detalhes como forma e contorno] também está em desenvolvimento. O corpo da criança ainda está em formação, principalmente a coluna", diz a coordenadora.

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