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Após ex-presidente da ABDI, governo despede motorista e mais 14 empregados

Cícero da Costa (51), ex-motorista na ABDI - Arquivo Pessoal
Cícero da Costa (51), ex-motorista na ABDI Imagem: Arquivo Pessoal

Wanderley Preite Sobrinho

Do UOL, em São Paulo

16/09/2019 04h00

Depois de uma confusão pública que durou dois dias, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) mandou exonerar o então presidente da ABDI (Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial), Luiz Augusto Ferreira, o Guto Ferreira. Além dele, o governo federal mandou embora 15 funcionários da agência, incluindo o motorista de Guto. A mãe do empregado sofre com um câncer no pulmão.

Terceirizado, Cícero da Costa, 51, chegou à ABDI em junho de 2015, um ano e um mês antes da chegada de Ferreira à agência. Ele era um motorista "rotativo", que transportava o corpo técnico da agência. Quando Ferreira chegou, Costa foi realocado.

"Passei a atender o Guto de julho de 2016 até o dia em que ele foi mandado embora", contou Cícero ao UOL. "Quando um presidente novo chega, é praxe trazer o próprio motorista, mas precisavam me mandar embora? Eu era o motorista mais velho, nunca recebi uma reclamação, nunca cheguei atrasado ou levei atestado. Para mim, foi retaliação."

Procurada, a agência afirmou em nota que "não cabe à ABDI demitir funcionários terceirizados. O contrato é para o fornecimento de serviços". Costa diz, no entanto, que foi dispensado da agência assim que chegou o novo presidente. Em seguida, foi dispensado pela Atlanta Locadora de Veículos, sua empregadora.

"Eles não me manteriam como funcionário, porque eu ganhava um salário maior para trabalhar na ABDI. Os outros motoristas da Atlanta ganham menos", disse ele, que recebia R$ 2.400 por mês.

Ele diz que foi dispensado porque "se conversa muita coisa dentro de um carro". "Mas o que eu ouço e vejo não é problema meu", diz. "Eu não esperava perder o emprego, porque eles sabem que a saúde da minha mãe piorou nos últimos três meses."

A mãe de Costa, uma aposentada de 73 anos, descobriu em julho de 2018 a existência de um câncer no pulmão esquerdo. Ela começou um tratamento de três meses com quimioterapia. "No final de dezembro, o tumor reduziu, mas dois meses depois encontraram água no pulmão", conta o ex-motorista.

Uma ressonância mostrou que o tumor havia crescido, com metástase para o pulmão direito. "Ela ficou internada por 15 dias, mas agora está sendo cuidada em casa, porque está muito frágil."

É com ajuda da família e com o dinheiro da demissão —R$ 7.000 da rescisão e R$ 13 mil do FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço)— que Costa compra os remédios e equipamentos, como o climatizador de oxigênio, "que custou R$ 3.300".

"Os remédios, a gente compra aos poucos. Quando acaba, a gente repõe. Só ontem (dia 12), gastamos R$ 350", conta. "Decidimos vender o carro da família."

Outras demissões

O ex-presidente da ABDI Guto Ferreira - Reprodução/instagram
O ex-presidente da ABDI Guto Ferreira
Imagem: Reprodução/instagram
Sob condição de anonimato, o UOL conversou com outros funcionários demitidos da ABDI. "No mesmo dia em que o novo presidente entrou [Igor Nogueira Calvet], dez pessoas foram para a rua", contou um funcionário. "Eram 19 cargos de confiança, 15 perderam o emprego."

Outra ex-funcionária confirma a conta. "Não me surpreendi com a demissão, mas com o fato de a nova equipe não se interessar pelos projetos em execução", diz.

"Talvez seja ingenuidade minha, mas achei que a nova gestão fosse ao menos escutar, continuar os projetos em respeito ao compromisso da ABDI com a indústria de inovação", afirma ela.

Não consegui ter espaço para demonstrar o trabalho feito. A sensação é que os resultados são irrelevantes. O mais importante é o jogo político
Declaração de um funcionário demitido

"Fui chamada ao RH (Recursos Humanos) às 17h30. Não houve justificativa, apenas um 'muito obrigado'", afirma.

Presidente ganha mais de R$ 39 mil

Com orçamento aprovado de R$ 169 milhões, a ABDI também conta com 74 técnicos, 18 conselheiros, dois diretores e o presidente, que recebe um salário mensal de R$ 39,3 mil.

Ligada ao Ministério da Economia, a ABDI desenvolve estratégias de inovação industrial para o aumento da eficiência do setor. A meta é produzir mais a preços menores.

O órgão virou notícia no começo do mês, quando Ferreira perdeu o cargo depois de afirmar em entrevista à revista Veja que o secretário especial de Produtividade, Emprego e Competitividade, Carlos da Costa, lhe fez "pedidos não republicanos".

Ele teria solicitado que a agência bancasse "sem necessidade" o aluguel de salas de escritório em São Paulo, um custo adicional de R$ 500 mil por ano. Diante da denúncia, Bolsonaro disse que um dos dois iria "perder a cabeça". Sobrou para Costa, Guto Ferreira e seus funcionários de confiança.

Bolsonaro não combate a corrupção, diz demitido da ABDI

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