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Queiroz indica que Bolsonaros sabiam de ligação de assessora com miliciano

Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro - Reprodução/SBT
Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro Imagem: Reprodução/SBT

Igor Mello, Gabriel Sabóia, Silvia Ribeiro e Eduardo Militão

Do UOL, no Rio e em Brasília

19/12/2019 13h52

Resumo da notícia

  • Mensagens de Fabrício Queiroz obtidas pelo MP indicam que a família Bolsonaro sabia do vínculo de assessora com chefe da milícia
  • Danielle Mendonça é ex-mulher de Adriano Magalhães da Nóbrega, o Capitão Adriano, apontado como chefe do Escritório do Crime
  • A defesa de Queiroz diz que a interpretação dos diálogos é feita "de maneira distorcida" e diz que as conversa foram obtidas "de forma ilegal"

Em uma conversa no aplicativo de mensagens WhatsApp, o policial militar reformado Fabrício Queiroz indica que integrantes da família Bolsonaro tinham conhecimento do fato de que uma das assessoras nomeadas por Flávio Bolsonaro na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio) era casada com o ex-PM Adriano Magalhães da Nóbrega, o Capitão Adriano, chefe da milícia do Rio das Pedras, o Escritório do Crime.

O diálogo é citado pelo MP (Ministério Público) do Rio no pedido de medidas cautelares contra Flávio, Queiroz e outros alvos investigados por participarem de suposto esquema de rachadinha no gabinete do filho mais velho do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em seus mandatos como deputado estadual. O diálogo citado pelo MP é entre Queiroz e Danielle Mendonça da Costa, ex-mulher de Adriano.

As provas foram obtidas pelo MP na Operação Intocáveis, deflagrada pelo MP e pela Polícia Civil em fevereiro deste ano. A ação, que apreendeu o celular de Danielle, tinha como objetivo prender os líderes do grupo miliciano. Desde então, Adriano está foragido da Justiça. Recentemente, os promotores do Gaecc (Grupo de Atuação Especializada no Combate à Corrupção), responsáveis pelas investigações do Caso Queiroz, obtiveram na Justiça o compartilhamento das informações do celular da ex-mulher do miliciano.

A conversa ocorre em 5 de dezembro de 2017, quando Jair Bolsonaro já se apresentava abertamente como pré-candidato à Presidência e Flávio já era cotado para disputar uma vaga ao Senado pelo Rio.

Queiroz procura Danielle e diz que precisava conversar com ela. A funcionária, que era nomeada desde 2007 no gabinete de Flávio Bolsonaro na Alerj, pergunta: "É conversa boa ou ruim". Queiroz então demonstra que há preocupação por por parte do clã Bolsonaro de que o vínculo dela com o miliciano se tornasse público.

"sobre seu nome... não querem correrem risco, tendo em vista que estão concorrendo e visibilidade que estão", afirma Queiroz. O UOL manteve a grafia original das mensagens, mesmo quando há erros ortográficos.

Danielle explica que os dois ainda são formalmente casados, mas que estavam "separados de corpos". E pergunta se isso poderia gerar problemas: "Você acha que vai pegar alguma coisa?".

Queiroz então reforça estar se referindo aos políticos da família Bolsonaro, sem citá-la nominalmente: "estão fazendo um pente fino nos funcionários e família deles", explica.

Por fim, Danielle pede que ele a mantenha no emprego. Queiroz mostra-se disposto a atender o pedido: "tentarei", responde, encerrando o diálogo. Ela permaneceu nomeada no gabinete de Flávio até novembro de 2018.

Hoje, no Palácio Alvorada, o presidente Jair Bolsonaro disse não ter "nada a ver" com a investigação sobre o filho mais velho.

"O Brasil é muito maior do que pequenos problemas. Eu falo por mim. Problemas meus podem perguntar que eu respondo. Dos outros, não tenho nada a ver com isso", disse o presidente, recomendando que os jornalistas procurassem o advogado de Flávio, Frederick Wassef.

A reportagem do UOL procurou a defesa de Flávio, mas ainda não obteve retorno. A Presidência da República afirmou que não irá comentar o assunto.

O advogado Paulo Klein, que representa Fabrício Queiroz, disse que "a interpretação dada a esses diálogos é feita de forma distorcida e a partir de recortes de diálogos obtidos de forma ilegal". Ele defende que, para que os fatos possam ser avaliados com isenção, é necessário que todo o diálogo seja apresentado".

Flávio atribuiu nomeação a Queiroz

O temor de que o vínculo de Danielle com Capitão Adriano viesse a público só se concretizou em janeiro deste ano, quando o jornal O Globo revelou que o então senador eleito empregara Danielle e a mãe de Adriano, Raimunda Veras Magalhães, em seu gabinete durante anos.

Logo após a publicação da reportagem, Flávio procurou responsabilizar Queiroz pela nomeação e disse que o vínculo das duas com o chefe de milícia era uma "ilação irresponsável" para lhe "difamar".

"Continuo a ser vítima de uma campanha difamatória com objetivo de atingir o governo de Jair Bolsonaro. A funcionária que aparece no relatório do Coaf [Raimunda] foi contratada por indicação do ex-assessor Fabrício Queiroz, que era quem supervisionava seu trabalho. Não posso ser responsabilizado por atos que desconheço, só agora revelados com informações desse órgão", disse Flávio em nota na ocasião.

"Quanto ao parentesco constatado da funcionária, que é mãe de um foragido, já condenado pela Justiça, reafirmo que é mais uma ilação irresponsável daqueles que pretendem me difamar", completou.

Na ocasião, Queiroz afirmou, através de sua defesa, que também assumiu a responsabilidade pela nomeação. O ex-assessor de Flávio disse na ocasião que se solidarizou com a família que passava por grande dificuldade, pois à época ele estava injustamente preso, em razão de um auto de resistência que foi, posteriormente, tipificado como homicídio, caso este que já foi julgado e todos os envolvidos devidamente inocentados".

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